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O incidente e o grave ataque

Já sabemos como é. Aparentemente a violência, o ódio e os “graves ataques” são um exclusivo da Direita; a Esquerda goza aqui de isenção perpétua.

Jaime Nogueira Pinto
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O ataque

Ficámos a saber que, na Sexta-Feira, 20 de Março, em plena Assembleia da República, se deu “um grave ataque” aos direitos humanos, um “retrocesso civilizacional face à legislação em vigor”. E quem lançou este míssil ao coração do “consenso científico internacional” e dos “direitos humanos”? Quem aprovou semelhante alteração à legislação?  “Apenas o PSD, o CDS e o Chega”, contra todos os outros partidos e a boa opinião de quem sabe, esclareceu-nos uma profissional da informação.

Sim, o diploma em causa – contrariado pelo BE, PCP, PAN, Livre, PS e, sem surpresas para os menos distraídos, também pela Iniciativa Liberal – foi aprovado “apenas” por três partidos.

E assim, mediante este “grave ataque” perpetrado por “três partidos apenas”, se gorou um “progresso civilizacional”, ou seja, se limitou a possibilidade de os menores de 18 anos mudarem de nome e de género – para poderem fazê-lo, passam agora a ser necessárias duas bizarrias: um parecer médico e a autorização dos pais.

Que o “grave ataque” anticientífico, que o famigerado “retrocesso civilizacional” se possa traduzir, a curto e a longo prazo, num assinalável progresso humano, científico e civilizacional, é qualquer coisa de inconcebível para os arautos do “progresso”… mas não para as vítimas precoces dos seus trágicos delírios ideológicos, das suas promessas de redenção e de resolução de todos os problemas com fictícias mudanças de identidade, seguidas de terapias hormonais irreversíveis e de mutilações cirúrgicas.

O mais curioso e o mais grave em todas estas teorias de identidade de género é a negação da ciência em nome da ciência; a instigação, desde a mais tenra idade, da ilusão da “auto-determinação” contra um suposto “essencialismo biológico”, a depreciação da realidade biológica e a trágica facilitação da sua substituição “técnica” com a promessa do fim de todas as angústias, naturais ou patológicas.

A acusação de “essencialismo biológico”, de “crença” no carácter binário (Homem/Mulher) do ser humano, está na base da transformação em “grave ataque aos direitos humanos” de uma simples chamada à realidade e de um necessário alerta para os custos trágicos de uma experimentação imprudentemente legislada que urgia reverter. Porém, como em grande parte da nossa comunicação social e do nosso comentariado ainda vigora o Equality Act, votado pelo Congresso norte-americano na presidência Biden-Harris, que equipara o “essencialismo biológico” a uma forma de racismo, qualquer opinião contrária, ainda que científica e estatisticamente fundamentada, é prontamente transformada num “grave ataque aos direitos humanos”.

O incidente

O “incidente” deu-se no Sábado 21 de Março na “Marcha pela Vida”, uma iniciativa dos partidários da vida e, por isso, inimigos do aborto e da eutanásia, digo, dos direitos reprodutivos e terminais, enfim, do progresso.  No final da manifestação, em frente ao Parlamento, um elemento de um pequeno grupo que tinha permanecido por perto na hora da retirada, lançou um cocktail Molotov contra uma família de manifestantes, que incluía crianças e um bebé de colo. O engenho não se incendiou e o autor do arremesso foi neutralizado por manifestantes, já que a polícia não chegou em tempo útil. O autor do “incidente” não ficou detido por tentativa de homicídio; ficou apenas com o dever de se apresentar regularmente às autoridades e a proibição de voltar ao local do crime. A Agência Lusa descreveu assim o sucedido:

“Lisboa, 21 mar 2026 – A Marcha pela Vida, realizada hoje à tarde no centro de Lisboa, terminou com um incidente, sem feridos, em que uma pessoa atirou um objeto incendiário para o meio dos participantes.”

Sublinhou-se depois que “a acção do homem detido, acusado de ter lançado um engenho explosivo,” não teve consequências, ainda que tenha gerado “um clima de perturbação”.

A nota da PSP é clara na descrição dos factos: “um homem de 39 anos de idade arremessou um engenho incendiário improvisado do tipo cocktail Molotov, contendo gasolina, que embateu no solo, mas não deflagrou. Em resultado da acção, algumas pessoas foram atingidas pelo líquido inflamável.”

Os partidos políticos, incluindo os de extrema-esquerda, como o BE e o PCP, condenaram o acto; o nó do problema é a narrativa, a narrativa exculpatória da generalidade dos media; os seus dois pesos e duas medidas.

Duas narrativas, dois pesos, duas medidas

Uma manifestação de crentes e não crentes a favor da vida, uma manifestação pacífica, ordeira, tranquila, que conta já com milhares de participantes em Lisboa, é atacada por um homem, inserido num grupo, que não hesita em recorrer a “formas superiores de luta” para manifestar o ódio e a raiva que tem aos manifestantes, às suas ideias e ao que defendem e representam. O autor da tentativa de homicídio vai para casa, devendo apresentar-se periodicamente às autoridades; os seus cúmplices desaparecem e não parece haver muita preocupação em encontrá-los; ninguém se atreve a insinuar eventuais crenças ou pertenças a grupos da “pessoa”, sempre anónima e indefinida, que causou “o incidente”.   Ódio, violência, extremismo e intolerância são palavras excluídas da narrativa. Só um vago “atenção aos extremismos”, porque apesar de, aparentemente, não ser este o caso e de a manifestação até ter sido pacífica, é sabido que há “crentes” fundamentalistas e que há sempre um extremismo de direita à espreita.

Imaginemos agora que era de uma marcha em favor dos “direitos reprodutivos e terminais” que se tratava, e que um homem, inserido num grupo, atirava um cocktail de Molotov aos manifestantes…

O que seriam as aberturas dos telejornais, os despachos da Lusa, o rosário dos comentadores sobre a violência da “extrema-direita”, o perigo do “fundamentalismo religioso” e do seu “discurso de ódio”? Era ver todo o tratamento anónimo, apolítico, isolado, incolor e inodoro dado à “pessoa” que causou “o incidente” na Marcha pela Vida, transformar-se em acusação, teoria da conspiração, conjectura à solta e verve adjectivada… E os eventuais grupos violentos a que o autor do, agora sim, “grave ataque torrorista”, pertenceria? E as forças políticas que, decerto, o teriam instigado e financiado?…

Já sabemos como é. Aparentemente a violência, o ódio e os “graves ataques” são um exclusivo da Direita; a Esquerda goza aqui de isenção perpétua e pode contar com a carinhosa amnésia de quem nos informa… E no entanto, foi às mãos da Esquerda que o Francisco José Teixeira morreu em 1975; e foram as FP-25 de Abril que, já nos anos 80, assassinaram 17 pessoas. E, claro, nos Estados Unidos e em França, houve os recentes “incidentes” com Charlie Kirk e Quentin Deranque… que, de resto, estavam a pedi-las, como cristãos e conservadores militantes que eram.