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O fenómeno meteorológico de 21 de Março

O lançamento de engenhos explosivos pode sempre marcar o início de uma carreira. Basta lembrar alguns dos que das FP-25 foram parar, depois, a listas municipais do PS ou do Bloco.

Francisco Camacho
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O que aconteceu no passado dia 21 de Março, em Lisboa, durante a Marcha pela Vida, não foi um atentado terrorista. Foi um fenómeno meteorológico. Pelo menos, a julgar pela indiferença com que comentadores e órgãos de comunicação social trataram o assunto. No máximo, foi um “objecto incendiário” que, sabe-se lá como, foi ali parar. Quase uma alteração do estado do tempo.

Ora, é preciso dizê-lo tantas vezes quantas forem necessárias: quando alguém, neste caso um homem de 39 anos, acompanhado pelos seus pares, lança um cocktail molotov contra quem quer que seja, é um atentado terrorista. Quando esse cocktail molotov é atirado contra famílias indefesas, nas quais se incluem velhos e bebés, é um atentado terrorista particularmente pérfido.

Isto mostra o que já sabíamos, mas que neste caso se torna especialmente infame. Como é que um ataque de natureza política, dirigido contra uma manifestação pacífica, onde se encontravam famílias, crianças, velhos, jovens e mulheres grávidas, passa quase em silêncio pelo espaço mediático, como se nem sequer tivesse ocorrido? A circunstância de não ter havido vítimas graves não altera a natureza do acto; apenas nos poupa àquilo que poderia ter sido uma tragédia.

Aquilo que poderia parecer, à primeira vista, uma falha jornalística é, na realidade, sintoma de algo maior. E não se trata de embrutecimento súbito nem de insensibilidade ocasional diante do drama humano. Há é uma dificuldade endémica em lidar com a violência quando ela surge associada a determinadas causas e a determinados quadrantes ideológicos. Como se a extrema-esquerda beneficiasse de uma espécie de segurança tácita de que a violência, desde que venha em nome da emancipação das classes oprimidas, acabará sempre tratada com complacência.

Não seria sequer descabido que um ou outro destes pequenos terroristas viesse ainda a conhecer, daqui a uns anos, a reciclagem respeitável que a nossa vida pública reserva aos arruaceiros do lado certo. O lançamento de engenhos explosivos pode sempre marcar o início de uma carreira. Basta lembrar alguns dos que das FP-25 de Abril foram parar, quarenta anos depois, a listas municipais do PS ou do Bloco de Esquerda.

Mas a benevolência perante o agressor não explica tudo. Há neste ataque um mal mais fundo: o próprio alvo. Porque é que um cortejo de famílias a descer a rua a um sábado à tarde desperta a certa esquerda uma hostilidade tão pronta?

A resposta não está apenas na pretensão de monopólio da rua, embora também passe por aí. Está sobretudo no modo como a causa da vida foi sendo empurrada, ao longo dos anos, para fora do espaço da opinião respeitável.

O debate do aborto foi primeiro apresentado como uma questão limitada: não se tratava de legitimar nada, dizia-se, apenas de evitar a penalização, apesar de então não haver em Portugal uma única mulher presa por aborto. Nesse tempo, a linguagem era prudente, técnica e apelava sobretudo à compaixão.

Depois, a questão deixou de ser apresentada nesses termos. Passou a ser um direito inequívoco das mulheres, progressivamente integrado no vocabulário dos direitos humanos, e a procura da sua qualificação como fundamental.

Mais tarde, o simples debate em torno desse direito começou a ser vista como sinal de atraso, de insensibilidade moral, de erro. Já não bastava discordar dos pró-vida; era preciso torná-los moralmente impronunciáveis. Quem partilhasse dessa posição não poderia entrar no Tribunal Constitucional, não poderia ter lugar nos partidos, não poderia permanecer na vida pública sem mácula.

Foi nesse momento que a ideologia deixou de se apresentar como tal e passou a reclamar para si uma autoridade científica e institucional. A fronteira entre debate e deslegitimação deslocou-se, quase sem se dar por isso, até ao ponto em que certas posições deixaram de ser reconhecidas no espaço público. É neste ambiente que o atentado ocorre.

Não é necessário estabelecer relações entre discurso e acto para perceber que um clima de desqualificação persistente tem efeitos. Quando uma posição é sistematicamente caricaturada, ridicularizada ou empurrada para fora do aceitável, aqueles que a defendem deixam de beneficiar da protecção simbólica que a sociedade normalmente concede aos seus membros. A partir daí, a violência torna-se mais fácil de exercer e mais difícil de condenar.

Se o atentado tivesse sido dirigido contra qualquer uma das manifestações que a nossa época reconhece como legítimas ou de uma vanguarda, não teria havido este pudor. O silêncio não resulta apenas de medo ou preguiça. Resulta do facto de, para muitos, aquelas pessoas já não contarem.