Um partido que quer governar o país tem de começar por saber unir-se a si próprio. Quem quer unir lá fora tem que começar por saber manter-se unido cá dentro.”
É o seu primeiro Congresso como líder, mas José Luís Carneiro já leva nove meses em funções e avançou tão rapidamente para a corrida, depois da derrota das legislativas de há um ano, que deixou, logo no seu arranque, vários socialistas descontentes. Nos últimos dias tem aparecido muita pressão sobre a estratégia que deve assumir face ao Governo e até surgiu uma moção setorial a juntar uma frente que pediu muito diretamente que seja mais definido na tática na oposição. Já se tinha percebido o quanto tudo isto tinha incomodado a direção do partido, na entrevista dada pelo secretário nacional Luís Parreirão ao Diário de Notícias, e Carneiro confirmou a suspeita ao levar para a primeira intervenção no Congresso socialista um aviso para dentro. Disse que o seu primeiro objetivo depois da derrota eleitoral foi “unir o partido”, mas logo a seguir avisou eventuais agitadores que se querem ultrapassar o bloqueio junto dos eleitores, tem de “saber manter-se unido” por dentro. Do outro lado pode sempre ouvir o provérbio — e a noite foi de provérbios — que “casa ralhada não é bem governada”.
Nas eleições autárquicas confirmou-se a força das nossas ideias no poder local. Nas eleições presidenciais contribuímos ativamente, até ao fim – ao contrário de outros – para a união do campo democrático e para a derrota dos populismos e dos extremismos”
Passou em revista as duas eleições do tempo da sua liderança, as autárquicas e as presidenciais, mas era para o resultado das segundas que trazia um argumento preparado para colher, mas sem se apropriar por completo da vitória de António José Seguro. Não deixou de incluir o partido na conquista de Belém, ao dizer que contribuiu “ativamente” para ela e “até ao fim” — Seguro diria que o pior foi mesmo o inicio desse apoio, que custou a arrancar, com o PS muito dividido sobre o que fazer. Mas Carneiro referiu apenas o final feliz e retirou dele uma “derrota dos populismos e dos extremismo”, aproveitando que à segunda volta passou um socialista e o líder do Chega. E isto para posicionar o PS ao centro,” o grande partido da social-democracia”e a “grande casa comum dos democratas.”
Saber ouvir o país implica assumir responsabilidades. Desafia-nos, aos socialistas, a transformar, também dentro do partido, silêncio em voz, críticas em propostas e diferenças em contributos”
Caso eventuais críticos no partido não tenham ouvido à primeira, Carneiro voltou à carga em mais um aviso. Garantiu a quem lhe diz que está “em cima do muro” que está a preparar-se para “a ação” e pede que façam — também esses — propostas, em vez de se ficarem apenas pela “crítica” e pelo traçar de “diferenças”. As suas apareceram já em forma de medidas para responder aos “efeitos da guerra”.
Os portugueses disseram-no inequivocamente na greve geral que o Governo não viu e parece que não ouviu, mas que falou bem alto e que foi corajosamente convocada em convergência na ação entre as centrais sindicais, cujo empenhamento na defesa dos trabalhadores aqui saúdo.”
Com a reforma laboral ainda em negociações (difíceis), o líder socialista não deixou de dar o seu apoio ao parceiro sindical que ainda está à mesa com o Governo e os patrões, a UGT — a central historicamente próxima do PS. Fê-lo quando falou na “coragem” de a UGT se ter juntado à greve geral de dezembro e pressionou a negociação ao dizer que o PS rejeita “qualquer tentativa de fragilizar direitos em nome de uma competitividade ilusória” e também “tentativas de andar para trás e aumentar a precariedade de quem trabalha”. O que a UGT conseguir avançar nessa negociação determinará o posicionamento que o PS terá face à reforma que o Governo pretende levar a cabo.
Se escolher a via moderada que os portugueses ainda recentemente disseram querer receberá sentido de responsabilidade e abertura. Se escolher ventos, terá tempestades”
O momento pedia uma clarificação da posição do PS em relação ao PSD. Vai mudar alguma coisa, se o lado de lá o excluir da eleição de três juízes para o Tribunal Constitucional? O PS vai virar as costas ao Governo? O caminho para a resposta começou nesta frase de José Luís Carneiro que desafiou o Governo a decidir que parceiro prefere, o da “via moderada” ou “acordos com a extrema-direita”. Ou o PS ou o Chega. Um exclui o outro, definiu Carneiro perante um Congresso que sabe esperar uma clarificação da posição do PS nesta matéria. Mas o líder só ameaçava, através do provérbio dos ventos e das tempestades. O corte até pode chegar, mas não é agora.
Nunca confundimos, e continuaremos a não confundir, oposição com bloqueio. As nossas propostas são feitas de boa-fé para responder a problemas e anseios das portuguesas e dos portugueses. E é por isso que continuaremos a apresentá-las. A todas as portuguesas e a todos os portugueses.”
E o seguimento da intervenção mostrou como, neste momento, Carneiro está pouco interessado em virar as costas ao PSD. Aproveitou até uma imagem do passado que Cavaco Silva tinha deixado fresca na memória logo de manhã, num artigo de opinião que publicou no semanário Expresso, o das “forças de bloqueio”. Cavaco escreveu que, em 1995, no final da sua longa governação, as tais forças, “na oposição parlamentar”, impediam a “aprovação de reformas”. Ora, Carneiro garante que o seu PS é oposição, mas não “bloqueio”. E fala para o que o partido fez até aqui e para o que fará daqui para a frente — “continuaremos” –, tentando sempre manter a bola sobre a definição do espaço do PS nas mãos do Governo, já que o desafia constantemente a escolher entre o seu partido e o Chega. Entre “continuar o muro de silêncio com que recebe os contributos do PS e os “acordos com a extrema-direita”.
Se tentarem desfigurar os equilíbrios do nosso sistema democrático, começando por tentar desequilibrar o Tribunal Constitucional, ouvirão da nossa parte um rotundo não”
A intervenção não deixou de ter uma referência muito concreta à questão dos juízes do Constitucional e da falta de acordo entre PS e PSD — os dois partidos que até hoje sempre se entenderam para estas escolhas. Afinal foi o episódio que desencadeou uma ameaça por parte da direção de Carneiro, de romper com o PSD. Ficou claro que a promessa de uma rutura foi exagerada, já que tudo o que o líder socialista admite fazer é chumbar — e aqui não há novidade — uma proposta que junte PSD e Chega e deixe o PS de fora. “Há linhas que não se negoceiam, a Constituição não se relativiza”, disse mesmo, em mais um aviso as preferências do PSD e a uma eventual tentação para ir na cantiga da direita à sua direita para rever a Constituição.
Este Congresso é um ponto de partida para duas prioridades: modernizar o Partido e renovar a nossa proposta reformista para Portugal.”
A palavra reformista apareceu por cinco vezes no discurso de José Luís Carneiro. Não é para menos, é aquela que assombra o Governo com o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a pressionar Luís Montenegro com a necessidade de ter “firmeza reformista”. Carneiro usou-a na sua intervenção, sobretudo quando jurou que é esse o objetivo socialistas. Afinal, também a governação de oito anos de António Costa está debaixo da mesma crítica e, além disso, Carneiro já tem dentro de portas tem lhe exija um espírito mais propositivo e de afirmação de uma alternativa. Assim, o líder do PS coloca este Congresso como “um ponto de partida” para essa fase de “ação”: “Ouvimos os portugueses, assumimos os erros, fortalecemos o Partido e estamos prontos para agir.”