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(A) :: Bipolaridade. Entre o estigma e o silêncio

Bipolaridade. Entre o estigma e o silêncio

Eu quis morrer muitos dias, quase todos os dias. E embora a vida possa, por fases intermináveis, parecer um caminho escuro e sem alternativas, elas existem.

Joana Ferrari
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“Posso dizer que, por muito tempo, cansou-me (quase) mais esconder a doença do que tê-la e sofrê-la.”

Ao fim de vários anos de depressões sucessivas e fases de “histerismo” extremo, fui diagnosticada com bipolaridade. Há quase nove anos, pude entender que não era eu, Joana, que estava errada. Não que o mundo estivesse certo, mas a vida, bonita, difícil, imprevisível como todas as vidas, doía-me mais a mim do que aos outros, o tempo todo. O tempo todo em loop, a repetir conversas e palavras mal ditas na minha cabeça; a repetição de comportamentos e a vergonha por eles existirem; a ansiedade constante pelo futuro, ao mesmo tempo que uma nostalgia eterna me invadia, o tempo todo, pelo passado. Nunca no momento presente. Nunca a ser ou viver apenas, a ser a criança limpa de tudo o que crescer faz.

Não quero, genuinamente, que me achem corajosa por falar disto, como tantas vezes se diz de quem assume ter uma doença do foro mental. Quero que falar da bipolaridade e da doença mental seja normal. Tão normal quanto falar da gripe, do cancro ou da diabetes. Ou mesmo de furar um pneu ou perder o botão do casaco. É que o estigma da doença mental é tão forte, e está tão enraizado na nossa sociedade que comparar uma doença psiquiátrica a uma doença estritamente física grave chega a parecer insensível para quem não entende as consequências de viver com uma doença da cabeça, seja ela depressão, TOC, ansiedade, bipolaridade…. Além do mais, não se considera alguém que assume estar a combater um cancro corajoso porque o assumiu. A coragem está nas forças que a pessoa encontra para combater a doença, seja física ou mental.

A bipolaridade é uma das doenças mais incapacitantes em todo o mundo, ao lado da depressão e do transtorno obsessivo-compulsivo. Por que é que querer morrer parece menos grave ou mais embaraçoso às pessoas que me rodeiam do que morrer com um tumor? A bipolaridade mata. O suicídio mata mais do que o cancro da mama. O suicídio é a segunda maior causa de morte em jovens entre 15 e 29 anos. O isolamento social que vivemos hoje, típico das grandes cidades e dos efeitos secundários da vida online (cada vez mais virtual e cada vez menos física), pode ser um fator determinante para qualquer pessoa, mesmo que nunca tenha experienciado uma depressão, desenvolver uma e chegar ao limite.

As comparações, a projeção de vidas perfeitas, famílias perfeitas, casas perfeitas, corpos perfeitos, carreiras extremamente bem sucedidas e por aí adiante, faz-nos valorizar a fantasia do sucesso, em detrimento da vida real: o que existe de facto, o que está lá de corpo e alma, o que faz rir e o que faz doer. E todas as pessoas que nos faltam e tudo o que nos faz falta.

Os cuidados de saúde mental não estão acessíveis a toda a população, são privilégio de alguns. Fazer psicoterapia ou psicanálise é caro, tal como a medicação para a maioria destas doenças (pese embora as comparticipações significativas em alguns medicamentos). Tive a sorte de fazer toda a terapia necessária até ao momento e de ter acesso à medicação diária de que preciso. E isso não pode ser uma sorte. Simplificando, talvez em demasia, se queremos gente funcional, produtiva e qualificada no local de trabalho, se queremos quadros altamente qualificados no país, não chega tornar a educação acessível ou obrigatória até um certo grau de escolaridade. Temos de começar por dentro. Mudar o mundo incerto e violento em que vivemos tem de começar por dentro.

Ninguém pode, em momento algum, ser bom, em casa ou no trabalho, se não estiver saudável. E quando alguém não se encontra mentalmente saudável, toda a gente à sua volta fica a perder. Para termos uma sociedade saudável e evoluída, a saúde mental tem de ser uma prioridade e não pode ser um luxo. A saúde mental não pode ser um luxo porque a doença mental atinge todos os estratos sociais de igual forma.

E aqui não posso deixar de realçar esta nota: não se pode ter saúde mental quando não se tem um teto seguro ou as contas pagas. Não pode haver equilíbrio familiar nem saúde individual se não pudermos alimentar e educar os nossos filhos com segurança emocional. E não existe segurança emocional sem segurança económica. Saúde mental não é, apenas, o acesso aos cuidados de saúde — terapêuticos e medicamentosos. Implica um Estado que se preocupa com pessoas, mais do que com números. Ao preço a que está o metro quadrado, em especial em Lisboa e no Porto, são muito poucos os que podem comprar uma casa para viver. Uma casa para viver. Quem vai pagar consultas de psiquiatria ou medicação psiquiátrica se não tiver um teto, comida e as contas pagas?

Tudo o que nos é desconhecido traz o medo consigo. Se nós, os leigos em medicina, não opinamos sobre quem tem uma doença potencialmente fatal, porque gostamos tanto de opinar sobre quem tem doenças psiquiátricas, como se tais quadros clínicos fossem uma (má) opção pessoal? Não falemos do que não sabemos. Apoiemos apenas. É só isso. Apoiemos em vez de deitar abaixo, porque podemos mudar uma vida, podemos salvar vidas. Acho que, no fundo, o que quero dizer a quem sofre com uma doença mental, ou aos familiares que não a entendem, é: tenham esperança, não estão sozinhos, há muita gente que também sofre calada e com medo “de que se saiba”. Posso dizer que, por muito tempo, cansou-me (quase) mais esconder a doença do que tê-la e sofrê-la! O estigma também mata. Mata a esperança, o futuro e a empatia.

Eu quis morrer muitos dias, quase todos os dias. E embora a vida possa, por fases intermináveis, parecer um caminho escuro e sem alternativas, as alternativas existem. Hoje sou feliz. E não, não existe o “feliz para sempre” nem o céu na terra. Mas estou feliz porque estou em paz, porque hoje sei que alguém me compreende e, acima de tudo, estou feliz porque valeu a pena não morrer quando quis. Estou feliz porque não morri antes do tempo.

(Este texto é para a Inês, para lhe dizer que, muitas vezes, a escuridão é só o início de tudo o resto).

Joana Ferrari é autora do livro A primeira vez que tentei desaparecer (ed. Traça).