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(A) :: Falta de medicamentos agrava-se nos hospitais do SNS e já há tratamentos adiados. Concursos para comprar fármacos estão atrasados

Falta de medicamentos agrava-se nos hospitais do SNS e já há tratamentos adiados. Concursos para comprar fármacos estão atrasados

Associações de doentes relatam problemas na dispensa de fármacos para doenças como psoríase ou artrite e adiamento de sessões em hospital de dia. Aumentam os pedidos de empréstimo entre hospitais.

Tiago Caeiro
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Paula (nome fictício) dirigiu-se, em meados de março, à farmácia hospitalar do hospital Egas Moniz, em Lisboa, para levantar, como é hábito, o medicamento biológico injetável que toma para tratar a psoríase (uma doença de pele crónica e autoimune). Quando lá chegou, foi informada de que o hospital não lhe poderia dispensar o fármaco porque não tinha stock, nem havia uma previsão de quando iria receber mais embalagens. Surpreendida, Paula acabou por voltar para casa apenas com uma indicação: o hospital iria tentar pedir uma embalagem desse fármaco a outra unidade hospitalar. Uma semana depois, a doente foi informada de que o fármaco já estava disponível.

A história, contada ao Observador pelo Presidente da Associação Portuguesa de Psoríase, Jaime Melancia, retrata o que se passa em vários hospitais do SNS, sobretudo na zona de Lisboa. A falta de medicamentos está a afetar o tratamento de doentes crónicos (na área das doenças inflamatórias e oncológicas, por exemplo), levando as Unidades Locais de Saúde (ULS) a multiplicarem os pedidos de medicamentos umas às outras, noticiou esta quinta-feira a RTP e confirmou o Observador junto de várias fontes.

A Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, a APAH, realça que, embora os empréstimos de medicamentos sejam uma prática usada no SNS, em 2026 tem-se verificado um aumento dos pedidos. Em causa estão as dificuldades de muitos hospitais em reporem o stock. A falta de medicamentos nos hospitais não é um problema recente mas tem-se agravado, admite o presidente da APAH. “O problema tem vindo a avolumar-se“, realça Xavier Barreto, sublinhando que têm surgido cada vez mais queixas de associações de doentes.

Associações alertam que constrangimentos se refletem nos doentes

“Há doentes que estão a ficar pendurados, tentam levantar os medicamentos mas dizem-lhes que não há porque o hospital não encomendou”, diz Jaime Melancia, que além de ser o presidente da maior associação de doentes de psoríase em Portugal, é atualmente também o presidente da Plataforma Saúde em Diálogo, que congrega 86 associações de doentes e de profissionais de saúde. O responsável alerta que a falta de medicamentos em várias unidades de saúde “reflete-se nos doentes”, que não conseguem cumprir o esquema terapêutico prescrito pelos médicos — o que, em muitos casos, garante que as doenças se mantêm controladas.

Também nos hospitais de dia, onde são realizados tratamentos programados (nomeadamente na área oncológica), há relatos de falta de medicamentos, realça a presidente da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino (APDI). “Temos verificado o adiamento de sessões de hospital de dia, marcadas com um mês de antecedência, porque [os hospitais] não têm medicamentos”, alerta Ana Sampaio, realçando que o problema está a afetar pessoas com doenças como a Colite Ulcerosa ou a doença de Crohn. Os adiamentos, realça a responsável, “podem agravar a doença, fazendo-a progredir”, com consequências negativas para os doentes.

Já em fevereiro, a Comissão de Utentes da Saúde de Braga alertava para falhas no fornecimento de medicamentos a doentes oncológicos em tratamento naquela unidade hospitalar. “Tenho relatos de utentes que fazem quimioterapia e que não lhes estão a ser fornecidos os medicamentos para a continuidade do tratamento. O hospital diz que está em reestruturação”, explicou o coordenador da Comissão de Utentes, José Lobato, acrescentando que alguns utentes tiveram mesmo de pagar a medicação nas farmácias comunitárias.

"Temos verificado o adiamento de sessões de hospital de dia, marcadas com um mês de antecedência, porque [os hospitais] não têm medicamentos"
Ana Sampaio, presidente da Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino

Enquanto alguns hospitais se veem obrigados a adiar tratamentos, outros estão a tentar racionar o stock disponível. A Associação Nacional dos Doentes com Artrite Reumatoide (A.N.D.A.R.) denunciou esta sexta-feira à Lusa casos de doentes obrigados a fazer todas as semanas mais de 100 quilómetros para levantar medicação porque os hospitais não têm stock disponível para dispensar medicação para períodos mais longos, como vinha sendo habitual.

Arsisete Saraiva, da A.N.D.A.R., apontou o exemplo de uma doente que vive na Lourinhã, é seguida no Hospital Beatriz Ângelo (Loures) e tem uma autorização especial desta unidade de saúde para levantar medicação de três em três meses, quando vai à consulta. “Ainda assim, continuam a obrigar a doente a vir da Lourinhã, fazer 160 quilómetros, todas as semanas para levantar uma caneta da medicação [que dá para uma semana]. A justificação agora é que não têm stock”, explicou a responsável, acrescentando que a unidade de saúde pediu emprestada uma embalagem do fármaco, também injetável, a outro hospital.

https://observador.pt/2026/03/27/artrite-hospitais-sem-stock-obrigam-doentes-de-longe-a-ir-todas-as-semanas-buscar-medicacao-diz-associacao/

Compra de medicamentos está a ser realizada com atraso

Mas o que explica a falta de medicamentos nos hospitais públicos? Em causa está o atraso nos concursos de compra de medicamentos. No SNS, as compras de fármacos são feitas de forma centralizada (através de compras de maior dimensão, realizadas pelos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde) ou então pelas próprias ULS e IPO, em concursos próprios. Segundo a associação que representa os administradores hospitalares, tanto uns como outros estão atrasados, o que poderá justificar o aumento de relatos de falta de medicamentos nos hospitais. “Os concursos centralizados estão atrasados”, realça o presidente da APAH, Xavier Barreto, sublinhando que “idealmente estes concursos deviam estar concluídos no início do ano” para que os hospitais possam ser reabastecidos. No entanto, de ano para ano, os atrasos repetem-se, lamenta.

Quando as compras se atrasam, as ULS avançam com os seus próprios concursos, explica Xavier Barreto. No entanto, este ano, nota, “há um atraso no lançamento dos procedimentos nalguns ULS”, o que o responsável diz que poderá estar relacionado com falta de recursos humanos nos departamentos de compras. “Parece haver uma falta de capacidade para lançar concursos nas ULS“, frisa o presidente da APAH, lamentando as consequências para os doentes. Muitas vezes, e quando é clinicamente possível, alguns hospitais optam por alterar a terapêutica.

"Parece haver uma falta de capacidade para lançar concursos nas ULS"
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares

“Trocar para outro princípio ativo pode ter efeito na saúde dos doentes. Isso deveria ser evitado”, alerta, acrescentando que as associações de doentes estão também a relatar adiamento de tratamentos devido à falta de medicamentos — uma situação que Xavier Barreto considera que deve merecer a atenção da tutela. “Se for assim é grave, o Ministério da Saúde tem de ir atrás de cada um desses casos e perceber o que está a acontecer”.

O Observador pediu esclarecimentos à Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e à Direção Executiva do SNS (DE-SNS). A DE-SNS não respondeu em tempo útil. A SPMS desmente os relatos de atrasos nos concursos. “A SPMS não tem procedimentos de contratação pública em atraso”, diz a resposta enviada.

Pedidos de empréstimo de medicamentos multiplicam-se entre hospitais

No entanto, em resposta à Lusa sobre o caso dos doentes reumáticos, a ULS Loures-Odivelas, que abarca o Hospital Beatriz Ângelo, admite constrangimentos nas compras centralizadas, feitas pela SPMS. “Quando, pontualmente, se verificam constrangimentos no fornecimento por parte desse circuito, e para garantir a continuidade do tratamento para todos os doentes, é ajustada a quantidade dispensada a cada um, tendo, neste caso, sido assegurada medicação suficiente para o período imediato, com reposição subsequente nos termos mais cómodos para a utente, assim que normalizado o fornecimento”, refere o hospital.

O Observador sabe que, na zona de Lisboa, uma das ULS mais afetadas pela falta de medicamentos é a ULS de Lisboa Ocidental, que abrange os hospitais São Francisco Xavier, de Santa Cruz e o Egas Moniz, onde Paula não conseguiu, numa primeira fase, levantar a medicação para a psoríase. Nas últimas semanas, a ULS têm feito múltiplos pedidos de empréstimos de fármacos a vários hospitais do SNS, perante a escassez de fármacos em algumas áreas terapêuticas. “A ULS de Lisboa Ocidental tem estado a disparar emails para todo o lado a pedir medicamentos”, diz fonte conhecedora do processo, pedindo para não ser identificada.  Questionada, a ULS de Lisboa Ocidental não respondeu em tempo útil.

Segundo a RTP, também o IPO de Lisboa tem pedido medicamentos a outros hospitais, neste caso com um frequência diária. Ao Observador, o IPO esclarece que “os empréstimos entre unidades de saúde do SNS constituem um mecanismo pontual, utilizado sempre que se pretende antecipar eventuais constrangimentos de disponibilidade, decorrentes de diversos fatores, nomeadamente falhas de fornecimento por parte dos fornecedores ou atrasos na tramitação dos processos aquisitivos”. Aliás, o IPO refere que desencadeou os próprios concursos para compras de fármacos, “enquanto decorrem os procedimentos de compra centralizada através da SPMS”, o que sugere atrasos na compra centralizada, uma realidade que a SPMS nega.

Ainda sobre os empréstimos de medicamentos entre hospitais do SNS, o IPO de Lisboa salienta que “um pedido dirigido a outra instituição não traduz uma situação de rutura de medicamento nem qualquer falha assistencial, correspondendo antes a uma gestão preventiva das necessidades, enquanto se assegura o reforço de stock”, admitindo, no entanto, que, “sempre que necessário, são efetuados ajustes na dispensa de fármacos — designadamente para períodos mais curtos —, de forma a garantir a disponibilidade para todos os doentes.

https://observador.pt/2026/03/06/direcao-executiva-trava-aumento-de-consultas-e-cirurgias-nos-hospitais-em-2026-gestores-avisam-listas-de-espera-vao-agravar-se/

E garante que “todos os tratamentos têm sido administrados com qualidade e segurança, não se tendo verificado qualquer interrupção”.

Falta de medicamentos está relacionada com cortes orçamentais?

Para o presidente da presidente da Plataforma Saúde em Diálogo, a origem da falta de medicamentos nos hospitais do SNS é o economicismo do Governo, levado a cabo no terreno, pela Direção Executiva do SNS. “São situações de puro economicismo que se estão a refletir nas pessoas”, alerta Jaime Melancia, acusando o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, se só se preocupar com o “excel” e com as “contas”.

"São situações de puro economicismo que se estão a refletir nas pessoas"
Jaime Melancia, presidente da Plataforma Saúde em Diálogo

“Todos estes constrangimentos têm a ver com as dotações orçamentais”, diz o responsável, lembrando que o Orçamento do Estado para 2026 prevê um corte de 10% na rubrica de bens e serviços, num valor superior a 800 milhões de euros, em áreas como medicamentos, material clínico, dispositivos médicos ou contratação de trabalho à tarefa. Jaime Melancia salienta que existe uma estratégia para “racionar custos no SNS”, lembrando que a própria Convenção Nacional de Saúde (a maior plataforma da área, constituída por mais de 150 instituições do setor) emitiu um comunicado, a 12 de março, no qual alerta que os “cortes já estão a acontecer em todo o país, traduzindo-se em atrasos no diagnóstico, tratamentos adiados e doentes sem resposta atempada, o que agrava a ansiedade e a insegurança de milhares de pessoas”.

O presidente da APAH afasta para já a ideia de que os constrangimentos nos stocks de medicamentos nos hospitais do SNS estejam relacionados com questões orçamentais. “Não é por uma questão de financiamento, porque, mesmo sem dotação, os hospitais compram e depois acumulam a dívida”, explica Xavier Barreto, acrescentando que o fazem mesmo correndo o risco de violar a lei e de incorrerem em eventuais responsabilidades financeiras.