Antes de o ouro a fixar na eternidade imóvel dos mosaicos de Ravena, antes de o seu rosto se tornar superfície de contemplação e distância, Teodora pertenceu inteiramente ao domínio do corpo – não como templo, mas como território disputado, atravessado, gasto até ao limite da sua própria significação. E, no entanto, é nesse mesmo corpo, exposto e partilhado até à exaustão, que começa a desenhar-se uma forma paradoxal de comunhão, uma espécie de liturgia obscura onde a impureza não anula, mas revela. Porque há uma pureza que não se guarda, que não se preserva na distância ou no intacto, mas que se consome no toque, que se multiplica no excesso, que se fragmenta para, nesse gesto, tocar o que em si mesma desconhecia.
No hipódromo, onde os corpos se ofereciam como moeda e se dissipavam na repetição anónima do desejo, o amor surgia desfigurado, reduzido à sua expressão mais elementar – e, ainda assim, nessa sucessão de encontros sem nome, permanecia uma espécie de memória invertida da comunhão: como se cada gesto, por mais vil e degradado, carregasse vestígios de um vínculo primeiro, de uma unidade perdida que insistia em regressar sob a forma de desejo. É assim que, tantas vezes no interior daquilo que parece apenas queda e dispersão, começa a insinuar-se uma outra leitura da redenção: não como negação da carne, mas como a sua travessia integral, como a possibilidade de que o próprio corpo – mesmo ferido, mesmo dividido – se torne lugar de passagem para algo que o excede e o reúne.
Teodora conheceu bem de perto o álacre odor dos leões e o relincho espumoso dos cavalos; ouviu os gritos dos estropiados e dos feridos e os falsos gemidos das prostitutas que, como ela e as suas irmãs, se ofereciam por um prato de lentilhas ou um pedaço de língua em salmoura aos soldados rudes ou aos escudeiros rufias. Cada recanto era, no hipódromo que também servia de circo, uma alcova improvisada para amores fugazes: uma arcada protegia os olhos das infâmias mais tristes, e um palheiro abafava os estertores dos cavaleiros. Enorme, uma pia de água recolhia os líquidos mais indesejados – esperma, solidão e angústia – e o choro contínuo de crianças lembrava as mães ausentes. Enquanto Verdes e Azuis, as duas facções em combate, disputavam as respectivas preferências e trocavam impropérios; enquanto Justino, o imperador, distribuía recompensas e condenações com mão lânguida e espírito impávido, Teodora e as suas irmãs vagueavam pelos cantos mais escuros do hipódromo, oferecendo-se por uma refeição ou um colar.
Chamavam-lhes ‘moscas’, por causa do constante zunido das suas seduções, e também ‘rameiras’. Mas o epíteto mais comum que as identificava era o de ‘mariposas do instante’, ‘píerides da moeda’ – pois vestiam-se de amarelo ou de açafrão.
Teodora e as suas irmãs competiam com os eunucos pela sedução dos incautos e solitários. Pressurosa, corria, uma vez recebido o soldo pelo serviço, a dividir desigualmente o seu dinheiro com os proxenetas para evitar rejeições e castigos. Os seus verões eram tórridos e fétidos, e os invernos, melancólicos e enfumaçados pelos brasidos dos pobres.
Nos mosaicos de Ravena, o seu rosto brilha hoje com uma serenidade impossível, como se Bizâncio fosse apenas uma auréola e não uma rede de intrigas, traições, envenenamentos e sussurros. Mas o brilho do ouro apenas encobre as marcas do tempo. A tessela é um fragmento; o império, uma fractura.
O teatro primeiro e, mais tarde, os festivais comunais resgataram-na àquele horror precoce, forjando-lhe uma reputação de actriz e declamadora. Anos mais tarde, quando por fim regressou ao hipódromo pelo braço de Justiniano, já tinha conhecido a tragédia de perder um filho e incubado o desprezo por aquele que fora o pai, um medíocre governador de Pentápolis; vivera a conversão espiritual promovida em Alexandria pelo patriarca Severo e iniciara o caminho de uma educação irregular.
Era tão estranho quanto sombrio observar o hipódromo a partir de cima, das bancadas, longe do mijo e dos orgasmos fingidos. Já não era seu aquele mundo de mãos indesejadas e bocas vulgares, mas ela ainda se lembrava muito bem dos sorrisos metálicos e das despedidas aliviadas. Após a morte da Imperatriz Eufémia, que se opunha ao seu casamento com Teodora, Justiniano substituiu o seu tio Justino no trono de Bizâncio e fez da sua mulher a mão que executava as suas ordens.
Então, a mulher que, enquanto era apenas uma criança, sofrera na sua própria carne arroubos e olvidos, que fora insultada e abusada, emitiu um decreto que proibia a prostituição. Ofereceu dotes e bens a todas quantas abandonassem a profissão e decretou reclusão para as que persistissem nela. Segura da sua nova posição, fez algo ainda mais notável, algo digno do seu passado teatral. Mandou capturar centenas de borboletas amarelas, brancas e castanhas ordenou que as transportassem em gaiolas do mais fino vime até ao hipódromo e que aí as soltassem para alegria de todas aquelas que haviam suportado humilhações, abortos e tristeza.
Duas asas livres por cada par de braços que suportara o peso de corpos alheios: era o tributo que ela oferecia ao passado, mas também a fabulação necessária de um futuro em que o voo, ao contrário da carne, não conhece servidão. E assim, por um momento impossível, Bizâncio acreditou que a leveza podia vingar a dor – como se as borboletas fossem as próprias almas de Sémele e de Ariadne, subindo, enfim, para fora do labirinto da memória.
E quando as borboletas foram libertadas, elevando-se numa súbita respiração comum que parecia suspender o próprio tempo, o gesto de Teodora aproximou-se da forma de um sacramento: não a negação do que fora vivido, mas a sua transfiguração num instante de intensidade quase insuportável. Havia, nesse levantar de asas, algo de semelhante ao fulgor breve do prazer – não enquanto abandono ao esquecimento, mas enquanto ápice de presença, onde o corpo, tendo atravessado a dispersão, se recolhe numa unidade ardente e inteira. Como se, por um momento, tudo o que fora fragmentado se reunisse numa única pulsação, numa espécie de absolvição sem palavras. E é talvez aí que ressoa, de forma secreta, a antiga fórmula – ego absolvo te – não como sentença exterior, mas como vibração íntima do próprio corpo reconciliado consigo mesmo, perdoado pela intensidade com que existiu. Porque a redenção que o amor consente não desce como decreto, nem se impõe como pureza impoluta: irrompe antes como um estremecimento que atravessa a carne e a restitui à sua dignidade sensível, onde o prazer deixa de ser queda para se tornar revelação. Assim, nesse breve milagre de leveza e de fogo, Bizâncio entreviu que a comunhão não é a fuga do corpo, mas o seu ponto mais alto – aquele em que, no excesso de sentir, a matéria se torna quase palavra, e a palavra, por um instante, se faz carne. Redimida.