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Discórdia em Bruxelas, mais ataques cardíacos e dias mais longos. Quatro respostas sobre a mudança para o horário de verão

UE encomendou dois estudos diferentes para voltar a avaliar o possível impacto da adoção de um fuso horário único — sem alterações em março e outubro. Decisão pode ainda ser tomada em 2026.

Martim Andrade
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Mais um ano, mais uma mudança da hora. É um tema que tem gerado muito debate nas últimas décadas, mas as decisões a nível Europeu têm sido sucessivamente adiadas. Assim, na noite de sábado para domingo, os seus relógios vão andar uma hora para a frente. Em Portugal continental e na Madeira, a alteração será às 1h (passa para as 2h), enquanto nos Açores a alteração será à meia-noite. Este regime horário vai manter-se até ao dia 25 de outubro, para regressar à hora de inverno.

Há mais de um século que nos habituámos a adiantar os relógios no último domingo de março, abrindo a porta a mais horas de sol por dia e a noites mais curtas. Este hábito é, no entanto, recebido com bastante discórdia na comunidade europeia — e chegou a ser votado pela Comissão Europeia para ser revertido. Mas a mudança — neste caso do regime, não da hora — não chegou a acontecer.

O debate voltou à ordem do dia com uma iniciativa do Parlamento Europeu em 2018, que pediu à Comissão para organizar uma análise extensiva ao tema, para questionar a sua viabilidade junto de cientistas e, acima de tudo, a possível adesão dos Estados-membros. Feitas as diligências e ouvidas as preocupações, citando inúmeros estudos que elencavam algumas preocupações associadas ao regime atualmente em vigor, avançaram com um inquérito público aos cidadãos europeus. Com mais de quatro milhões de respostas totais, a Europa decidiu: estava na hora de acabar com as mudanças bianuais da hora.

84% dos participantes apoiaram a iniciativa, expressando o seu desagrado com esta alteração dos ponteiros duas vezes por ano. Mais de metade chegava a considerar este fenómeno “muito negativo”, e só uma pequena maioria dos participantes da Grécia e do Chipre é que se manifestaram contra a mudança do regime atual. Mas Espanha, Itália e os países do norte foram os mais expressivos nas manifestações de interesse por um horário único.

Em março de 2019, foi colocada em cima da mesa do Parlamento Europeu a opção de descontinuar a mudança horária, com o plano inicial a propor a última edição deste hábito começado em 1916 (e com pausas temporárias ao longo do século XX) no ano de 2021. No cenário de viabilização, os países terão a opção de escolher entre fixar o horário de verão (de março a outubro) ou o de inverno (de outubro a março) para o ano inteiro, existindo uma data projetada para se reavaliar os efeitos do projeto, com o fim de decidir pela sua continuidade ou interrupção. Deste modo, com 410 votos favoráveis e apenas 192 contra, a proposta do Comité de Transporte e Turismo da União Europeia foi aprovada — mas depressa voltou a cair na lista de prioridades de Bruxelas.

Se no final de 2018 o apoio era significativo, o tempo foi passando e o documento foi perdendo a urgência que requeria. Para a sua implementação, será necessário existir um consenso entre o Parlamento Europeu e o Conselho — este último requer uma maioria qualificada, composta por 55% dos Estados-membros e 65% da população do espaço comunitário. Por isso, a não ser que seja avançada uma nova proposta, o cenário atual dificilmente será alterado.

“Uma solução coordenada para a mudança da hora ainda é possível. Lançámos um estudo para apoiar este processo de decisão, que deverá estar concluído até ao final de 2026″
Anna-Kaisa Itkonnen, porta-voz da Comissão Europeia

Discussão sobre fuso único continua em curso. Será este o ano em que se deixa para trás o horário de verão?

A Comissão Europeia, anos após o voto positivo que entretanto se perdeu nos corredores burocráticos de Bruxelas, como revelou fonte oficial ao Observador na última mudança para o horário de verão, continua a querer alcançar um consenso para acabar com a mudança da hora e considera que “ainda é possível”. Numa resposta por escrito à agência Lusa, esta semana, a porta-voz da Comissão Europeia Anna-Kaisa Itkonnen referiu que o executivo decidiu propor o fim da mudança horária em 2018 após ter recebido “pedidos de cidadãos e dos Estados-membros, uma resolução do Parlamento Europeu, vários estudos, bem como uma consulta pública”, que defendiam essa medida.

“Uma solução coordenada para a mudança da hora ainda é possível. Lançámos um estudo para apoiar este processo de decisão, que deverá estar concluído até ao final de 2026″, afirmou a porta-voz. Mas não basta um estudo para a mudança ir em frente. Será preciso avançar com uma nova proposta ao nível do Conselho da União Europeia, para que o assunto volte a ser debatido e, eventualmente, se atingir um consenso. A presidência deste órgão europeu cabe, neste momento, ao Chipre, pelo que terá de ser a delegação cipriota a levantar o tema novamente.

E, para além do estudo avançado pela Comissão, a própria presidência do Conselho da União Europeia admitiu à Lusa que também estaria “atualmente a preparar um estudo relacionado sobre esta proposta legislativa”. “Se o estudo ficar disponível durante a nossa presidência, estaremos prontos para o apresentar e realizar uma troca de pontos de vista no grupo de trabalho competente”, referiram. Questionados sobre prazos para a divulgação desta avaliação, a representação cipriota admite que, “na melhor das hipóteses”, só deverá estar pronto no final do mandato do Chipre à frente deste órgão, que termina em junho deste ano.

Não obstante, os Estados-membros já se manifestaram disponíveis para analisar tanto o estudo que será apresentado pela Comissão Europeia, como pela atual presidência do Conselho da União Europeia. Mas, relativamente a prazos, não existe garantias que esta questão volte a ser levada para cima da mesa a tempo da próxima mudança horária no último domingo de Outubro — ou se vai avançar a tempo de ser aprovada e impedir o adiantamento da hora daqui a exatamente um ano. O cargo será assumido pela Irlanda, quando o Chipre terminar o seu mandato rotativo, pelo que a discussão será, muito provavelmente, levada a cabo por Dublin.

A eurodeputada finlandesa Anna-Maja Henriksson renovou o apelo no verão passado para acabar com o horário de verão, referindo que agora era a altura certa para cessar esta prática "frustrante e desnecessária"

Quem diz que sim e quem diz que não à mudança bianual da hora?

Portugal não tem uma posição assumida sobre este tema. Se em 2018 o então primeiro-ministro, António Costa, manifestava-se contra a alteração do regime bi-horário, ou seja, queria manter uma hora de verão e uma hora de inverno, o atual Governo não tem uma posição assumida. Em outubro passado, na véspera da mudança para o horário de inverno, o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel admitiu que compreendia a “urgência” de Espanha em abolir a regra em vigor — mas não avançou um parecer do Executivo sobre o tema.

“Pelo menos em grande parte do seu território ter uma hora legal diferente da portuguesa e da inglesa é especialmente mais gravoso” para Espanha disse Paulo Rangel à RTP. “O assunto ainda não foi  discutido em conselho de ministros, aguardo essa tomada de posição, pois num tema com tanto impacto económico e para a saúde não vai ser definida pelo o ministro dos Negócios Estrangeiros”, disse o governante.

Naquela altura, Pedro Sánchez publicava um vídeo, na rede social X, em que argumentava um consenso espanhol de oposição à mudança de hora. Assim, em outubro de 2025, o Governo espanhol tentou “fazer valer o voto maioritário” alcançado sete anos antes no Parlamento Europeu — quando se havia votado a favor da proposta para pôr fim a este regime bi-horário —, com o objetivo de “deixar por fim de mudar a hora em 2026”.

O desejo de ter um fuso horário único, sem mudanças ao longo ano, é partilhado também pelos países no norte da Europa. A Finlândia e a Polónia, alegando malefícios de saúde com o regime atual, apoiam os esforços levados a cabo por Madrid. A eurodeputada finlandesa Anna-Maja Henriksson renovou o apelo no verão passado para acabar com o horário de verão, referindo que agora era a altura certa para cessar esta prática “frustrante e desnecessária”.

A Albânia é um dos países que se manifestou a favor do regime atual, justificando com o facto de os países nos Balcãs serem banhados por sol durante uma grande parte do ano, graças à mudança horária — o que permite a redução dos custos da eletricidade no país. Os italianos, por outro lado, colocam-se numa linha de pensamento divergente à maioria do continente. Um inquérito de 2025 da Sociedade Italiana de Medicina Ambiental viu mais de 350 mil pessoas a apoiar a adoção permanente do horário de verão. A posição difere dos restantes europeus, que preferem a manutenção do horário de inverno.

Especialistas dizem que a adoção permanente do horário de verão poderá "não ser benéfico", especialmente para os mais jovens, que poderão chegar à escola exposição à luz solar, o que poderá "comprometer o desempenho cognitivo e físico"

O que acontece se não mudarmos a hora?

Se o projeto europeu avançar e se se determinar o término desta prática, surgirá uma outra decisão que terá de ser tomada. Excluindo o hábito de mudar a hora duas vezes por ano, teremos de adotar ou o horário de verão ou o horário de inverno.

Na primeira opção — aquela que iremos viver ao longo dos próximos sete meses — o Sol começa a nascer mais cedo, por volta das cinco da manhã, e ficará no céu até perto da hora habitual de jantar dos portugueses durante os meses de primavera e verão. Quando chegar o outono, os dias serão significativamente mais curtos, com o Sol a subir entre as oito e as nove da manhã e o pôr-do-sol a não passar das 18h. Este horário, nos quatro meses mais frios do ano, traduziria-se numa chegada à escola ou ao trabalho ainda de noite, mas também um regresso a casa às escuras cada vez mais vincado.

Especialistas dizem que a adoção permanente do horário de verão poderá “não ser benéfico”, especialmente para os mais jovens, que poderão chegar à escola exposição à luz solar, o que poderá “comprometer o desempenho cognitivo e físico”. Se o horário permanente for o de inverno, o sol nasce relativamente mais cedo naqueles mesmos quatro meses, o que também implicaria dias mais curtos durante o verão.

Dizem, também, que numa realidade de horário único em que o regresso a casa após o trabalho é feito ainda de dia, o número de acidentes rodoviários é mais reduzido, mas, como diz a Endesa, não há qualquer estudo que indique que a fixação de um horário único indique uma redução dos custos energéticos.

Atrasos e adiantamentos do fuso horário podem ter impactos na saúde?

Para além da eventual queda do “desempenho cognitivo e físico” tanto na vertente escolar como na profissional, a qualidade do sono acaba também por sofrer, precisamente por haver menos luz durante o dia. Um estudo de 2014, feito nos Estados Unidos da América — que também têm o hábito de mudar a hora bianualmente —, indica que no dia seguinte ao adiantamento dos relógios, registou-se um aumento de 24% de ocorrências relacionadas com ataques cardíacos nos hospitais norte-americanos.

O fenómeno não ficou pela América do Norte e, entretanto, este estudo foi replicado na Europa e verifica-se um aumento de, em média, 4% dos ataques cardíacos nos primeiros dias no novo horário de verão. E, no fundo, como escreve a BBC, a desregulação do ciclo circadiano está na base do aumento destes episódios de urgência médica. A luz solar é o que, naturalmente, regula o nosso relógio biológico diário. Se está luz, o corpo sente a necessidade de acordar, com a noite, aparece o cansaço devido à produção de melatonina, cuja produção é estimulada pela ausência de luz.

Ora, com a oscilação de dias mais curtos, manhãs mais escuras e noites mais claras, a produção de melatonina acaba por ficar desregulada, o que afeta diretamente a qualidade do sono e, por consequência, pode vir ser um “empurrão” para as pessoas que têm quadros clínicos mais sensíveis, justificando o aumento relativo do número de ataques cardíacos e AVC nos dias que se seguem à mudança da hora no último domingo de março.