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Quando outros contam histórias muito semelhantes: os grupos de ajuda mútua (IV)

O contacto com grupos de ajuda mútua e o apoio especializado podem constituir um ponto de viragem na vivência de um processo de alienação parental.

Eva Delgado-Martins
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Neste texto, continuamos a contar a história de Artur, um pai alienado, iniciada e continuada nos artigos que aqui publicámos nas últimas 3 semanas. Nos anteriores, neste e nos próximos artigos, acompanhamos as várias etapas da sua vivência de alienação parental. Hoje, centramos a atenção num momento de viragem, marcado pelo seu contacto com um apoio especializado e com os grupos de ajuda mútua, que lhe permitiram compreender e significar uma experiência até então vivida com desorientação e sofrimento intenso.

Artur relatou um episódio vivido num momento particularmente frágil da sua vida, marcado pela exaustão emocional e o desgaste acumulado, que surgiu de forma inesperada, mas que viria a tornar-se decisivo no seu percurso: “Um dia, a 5 de outubro de 2014, vinha do Norte e tive um acidente de carro grave. Ainda hoje não é fácil falar sobre isso. Depois do acidente, acabei por desabafar com uma pessoa que não conhecia. Foi essa pessoa que me falou, pela primeira vez, de uma associação ligada à igualdade parental e aos direitos dos pais, em Lisboa. Disse-me que tentaria arranjar-me um contacto. Foi assim que tive conhecimento da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental”. Este episódio mostra como, mesmo em contextos de rutura e sofrimento, podem surgir momentos de abertura que permitem aceder a novos caminhos. O acidente, embora traumático, funcionou aqui como um ponto de viragem. A partilha com um desconhecido quebrou o isolamento e introduziu uma informação que até então não existia para o Artur. Foi a partir desse contacto que se iniciou um processo de compreensão da sua situação, dando início a uma nova forma de olhar para a experiência que estava a viver.

Foi referindo-se a um momento ainda marcado pela dúvida e pela resistência em procurar ajuda que Artur descreveu o passo seguinte no seu percurso, revelando a dificuldade inicial em confiar e expor a sua história: “Não me recordo se foi um, dois ou três dias depois, mas acabei por ligar, embora com alguma resistência. Falei…., expliquei um pouco da minha situação, e foi aí que me falaram de um grupo de ajuda mútua, que se reunia em Lisboa, às segundas-feiras alternadas. Comecei então a ir e a ter contacto com outros pais. Foi nesse contexto que comecei a perceber o que era a alienação parental, uma expressão que, até então, eu desconhecia”. Este testemunho evidencia como o primeiro contacto com apoio pode ser hesitante e emocionalmente exigente. Essa resistência inicial reflete o medo, a desconfiança e o cansaço acumulado. No entanto, foi precisamente esse passo que permitiu a Artur sair do isolamento. O encontro com outros pais, com histórias semelhantes, introduz um elemento fundamental: o reconhecimento. Ao dar nome ao que estava a viver, alienação parental, Artur começou a racionalizar a sua experiência através de uma melhor compreensão dos acontecimentos e assim a transformar uma vivência confusa e solitária num processo com significado e partilhado.

Artur descreveu o impacto imediato do primeiro encontro com o grupo de ajuda mútua, marcado por uma identificação e emoção intensa: “Fui a essa reunião e fiquei impressionado, até emocionado, porque vi outros ‘Artures’ na mesma situação. E mais do que isso, vi outras ‘Matildes’, outros filhos e outras filhas que também estavam afastados dos seus pais. Ali não éramos só homens, havia também mulheres, todos com histórias semelhantes, todos a viver a mesma realidade. Os seus filhos eram vítimas dessa alienação parental ou, como costumo dizer, de uma espécie de morte: a morte de um pai ou de uma mãe que ainda está vivo”. Nesta referência, Artur mostra o impacto profundo que estes espaços de partilha podem ter na vida de quem passa por estas situações. O encontro com outras histórias semelhantes rompe o isolamento e permite que a dor deixe de ser vivida de forma solitária. A identificação com outros pais e outras crianças cria um sentimento de pertença e validação emocional. A expressão “uma espécie de morte” traduz de uma forma particularmente forte a vivência de uma perda, não física, mas uma rutura do vínculo, em que o pai continua vivo, mas é afastado do lugar que ocupava na vida da filha.

Artur começou então a procurar não só respostas, mas também uma orientação mais estruturada no acompanhamento psicológico e jurídico no seu percurso: “Foi também nessa altura que conheci a Dra. Eva Delgado Martins. Mais tarde, quando precisei de um advogado, perguntei a alguns profissionais: ‘Vou fazer a pergunta de um milhão de euros, que costumo sempre fazer: no meu lugar, com a experiência que têm, que advogado aconselhariam se fosse para vocês?’ Nessa fase, já tinha acompanhamento com a Dra. Eva, todas as semanas, às quartas-feiras. Chegava com muita raiva, muito carregado emocionalmente, mas, ao longo do tempo, fui entrando neste processo e comecei a perceber melhor os sinais da alienação parental”. Este testemunho mostra a importância da existência de um espaço de escuta e acompanhamento num contexto de elevada carga emocional. A referência à “raiva” traduz o impacto acumulado da perda, da frustração e da incompreensão vividas ao longo do tempo. No entanto, é também nesse espaço que começa a surgir uma transformação, por meio da reflexão e da continuidade do acompanhamento. Artur foi conseguindo organizar o que sentia e compreendendo melhor o que estava a acontecer. Este processo permitiu-lhe passar da adoção  de uma reação imediata e impulsiva para uma leitura mais clara e consciente da sua própria experiência.

Artur referiu ainda que, num momento de reflexão sobre o que viveu, procurou dar sentido ao comportamento da mãe e às consequências que isso teve na sua relação com a filha: “Há situações em que a mãe sente que, por a criança ter nascido dela, o filho é apenas seu, e o pai passa a ser visto simplesmente como um dador de esperma e um patrocinador, alguém que deve pagar pensão, quando pode ou quando é exigido. No meu caso, eu não pagava pensão porque nem sequer sabia que existia essa obrigação formal. Não tinha conhecimento de que estava a decorrer qualquer processo nesse sentido. E essa situação acabou por ser usada contra mim”. Nesta declaração, Artur revela um sentimento profundo de injustiça e incompreensão, tentando explicar a forma como se sentiu colocado à margem do seu papel de pai, reduzido a uma função secundária e distante. Ao mesmo tempo, evidencia como a falta de informação e de acompanhamento no início do processo teve consequências concretas, agravando a sua posição. A ausência de conhecimento sobre as obrigações legais e as decisões em curso contribuiu para reforçar um sentimento de vulnerabilidade, em que o pai se viu confrontado com situações que não compreendia e que acabaram por ser usadas contra si.

Referindo-se a um momento seguinte, em que a situação começa a entrar no plano formal, Artur descreveu a sua chegada ao tribunal e o início de uma tentativa de reorganização da sua relação com a filha: “Quando chegámos ao tribunal, a situação começou a regularizar-se. Eu disse: ‘Posso pagar um valor do que está em atraso’, porque eu não tinha noção, nem sequer sabia que já havia divórcio, que já estava tudo em andamento. O divórcio só ficou concluído em 2015, entre julho e agosto. Foi a partir daí que começaram a ser definidas as questões mais formais: os dias em que estava com a minha filha e os dias em que não estava”. Esta passagem ilustra a entrada numa nova fase, em que a relação com a ex-mulher passa a ser mediada pelo sistema judicial. A definição de regras e responsabilidades trouxe alguma organização, mas surgiu depois de um longo período de desconhecimento e afastamento. Para Artur, este momento teve um duplo significado: por um lado, representa uma tentativa de reparação e de reconstrução do seu papel como pai, mas por outro, confirma o percurso difícil que viveu, marcado pela perda, desinformação e exclusão da vida da filha.

O conjunto de testemunhos deste pai alienado mostra bem como o contacto com grupos de ajuda mútua e o apoio especializado podem constituir um ponto de viragem na vivência de um processo de alienação parental. A possibilidade de partilhar a sua experiência e de ter um acompanhamento permite transformar uma vivência marcada pela confusão, isolamento e sofrimento intenso, numa narrativa mais compreensível e estruturada. Ainda assim, o impacto emocional permanece profundo, refletindo a complexidade deste fenómeno e as suas consequências duradouras na relação entre pai e filha.