Por ordem decrescente de custos, as modalidades de acesso à verdade na televisão são: publicidade, concursos, ficção, reportagem, e comentário ou debate (um debate consiste em dois ou mais comentários). A publicidade é a mais sofisticada e alegre; mas é cara de fazer. Os concursos são também caros porque é preciso pagar prémios e mudar a roupa das camas. A ficção e o comentário ou debate são mais baratos, mas apesar de serem diferentes nalguns aspectos não são muito variados, e por isso podem tornar-se cansativos.
Resta assim a reportagem. Vem-nos essencialmente em duas espécies, a saber, o discurso indirecto e o discurso directo. A reportagem em discurso indirecto consiste em dizer o que alguém disse, confiando em que estaria a dizer a verdade. É assim possível estar sentado numa cadeira e dar novidades genuínas que se ouviram a quem, podendo também tê-las ouvido primeiro quando estava sentado, as ouviu pelo menos a quem sabia delas. A reportagem em discurso indirecto apresenta uma boa relação qualidade-preço e um alto grau de fiabilidade; é porém, ao contrário da publicidade, um pouco aborrecida.
A reportagem em discurso directo sugere uma maior proximidade em relação à origem das novidades, e é decididamente mais alegre. Depende contudo de dois factores que lhe aumentam o preço e a põem fora do alcance das televisões menos guarnecidas: o primeiro é que ninguém sabe ao certo onde vai acontecer a próxima novidade, e por isso é preciso andar sempre de um lado para o outro, não vá haver novidade; e o segundo é que, caso ninguém esteja no sítio onde houve uma novidade, é preciso que alguém se desloque até esse sítio, o que nem sempre calha.
Combina-se assim comummente na televisão a reportagem em discurso indirecto com a versão menos cara da reportagem em discurso directo. Sentado numa cadeira, alguém revela que houve novidades num lado qualquer; e logo a seguir dá a palavra a alguém que, com imagens em movimento desse lado qualquer por trás, confirma pelas mesmas palavras que de facto se verificaram aí novidades. Não é claro aquilo que o que está por trás acrescenta ao que se diz pela frente; mas pouco importa, porque a verdade de uma novidade resulta em televisão da coincidência entre as palavras de quem está num lado e as palavras de quem está noutro.
Este sistema não é dispendioso, e explica que haja tanta e tão boa informação. Mas sem diminuir em nada o seu interesse poderia ser ainda aperfeiçoado. Com efeito, para apurar a verdade não é no fundo preciso ir a lado nenhum. Basta haver uma boa colecção de imagens em movimento dos locais onde consabidamente costuma haver novidades. Com imagens apropriadas a passar por trás de si sem desfalecimentos, qualquer pessoa pode repetir de pé o que outra acabou de dizer da sua cadeira. Novidades, Paula? Novidades, Jorge.