A fotogenia duma cidade é um contínuo perpétuo — mais rápido e menos imerso, é certo, do que os urban scketchers podem fazer, concentrados em recantos e pormenores que facilmente escapam ao olhar quotidiano — e pode tornar-se desafiante obsessão de quase inventário, sobretudo se a singularidade do motivo alcançou nessa urbe expressão tão elevada e singular como sucede com as claraboias e seus afins no centro histórico do Porto — “o tesouro que vivia por cima das nossas cabeças”, como escreve Paulo Gaspar Ferreira à p. 19.
O alfarrabista-livreiro do Porto e a fotógrafa brasileira Luciana Bignardi saíram à rua, de dia e de noite, para perscrutarem a “alma luminosa” que essas estruturas de ferro e vidro sobre os telhados — “tesouro escondido” (Bignardi, p. 21) — ali criam, nas horas da “luz avara do norte”, uma intimidade suavemente filtrada e por vezes colorida aos interiores (o “caminho claro” do seu próprio nome; ou “a penumbra [que] tranquiliza” nas palavras de Álvaro Siza Vieira, p. 31) e, nas horas tardias, dão sinal da anónima, misteriosa, secreta presença humana nas habitações. Uma exposição patente na Casa do Infante em 2015 dá agora lugar a este livro — e que livro! —, que certamente o patrocínio da Fundação Miranda de Andrade permitiu fazer desenhar e imprimir com cuidados de excelência. Digo mais: excelência! O único senão que lhe pode ser apontado é o de não ser uma edição bilíngue, portuguesa e inglesa, o que exponenciaria fortemente a sua repercussão.

Às fotografias foram colados excertos de trinta poetas e outros escritores (por vezes, mais que um de cada) ou breves textos de encomenda, seguindo um modelo editorial convencional com larga tradição em obras deste tipo, aliás em grande parte realizadas por editores portuenses. Tudo dependendo do efeito que a escolha literária produz e do encontro ou do blind date entre imagem e texto, é sem dúvida um risco imenso tentar fazer convergir o que vive bastante bem por si só, e de facto o álbum tem largas sequências de fotografias sem companhia textual, tendo sido preferido o diálogo ou o contraste entre claraboias de diverso tipo (que é perfeito, entre outras duplas, nas pp. 106-7, 126-27, 184-85, 194-95), ou duas perspetivas da mesma, até chegarmos, por exemplo, ao belo poema As escadas de Ana Hatherly (1929-2015): “As escadas que subíamos | Eram iluminadas | Pelas claras clarabóias | Dos prazeres || Subíamos | E descíamos | Por delicadas picardias saborosas || Ah! | Que cenas inclinadas | As escadas | dos teus braços”, àqueloutro, Biografia pétrea, de Luís Veiga Leitão (1912-87), ou ainda à prosa poética de Luís Quintais (1968-) — e aos versos “do céu distende | um incógnito jorro de remissão” (João Rios, 1964-), ao lado de uma das imagens mais surpreendentes (aqui mesmo reproduzida) deste portefólio, que não distingue a autoria de Luciana Bignardi e a de Paulo Gaspar Ferreira.
O formato grande — 31 x 31 cm — e o soberbo tratamento das imagens fazem deste álbum um dos melhores coffee table books portugueses que me foi dado ver nos últimos tempos. Que agarre um exemplar quem o puder fazer.