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Erskine Caldwell: terror e miséria no sul dos Estados Unidos

Através de contos protagonizados pelos pobres, os desprotegidos e os afastados do sonho americano, vamos compreendendo que a pobreza em Caldwell é sempre uma pobreza ensimesmada e isolada.

João Pedro Vala
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Em boa hora a Livraria Snob decidiu resgatar de um silêncio que durava há mais de cinquenta anos as histórias do escritor estadunidense Erskine Caldwell (1903-1987), vindo assim, em mais uma edição com uma capa maravilhosa de Pedro Simões, juntar ao seu interessante catálogo um autor que hoje se encontra praticamente esquecido em Portugal, mas que nos Estados Unidos teve dois romances (A Estrada de Tabaco e A Jeira de Deus) entre os mais vendidos de sempre, contando respetivamente com dez e catorze milhões de exemplares vendidos. Mesmo por cá, apesar de a última tradução de Caldwell datar já de 1973, o autor tem uma história editorial nada negligenciável, com trinta livros publicados, sendo que entre os seus tradutores se contam, por exemplo, Adolfo Casais Monteiro, Jorge de Sena, João Gaspar Simões ou Maria Ondina Braga. Infelizmente — e será esse o único problema de uma edição de resto irrepreensível —, a tradução destas histórias fica um pouco aquém desta linhagem, sendo demasiado rígida e literal.

Em Flores Bravias e Outras Histórias, temos acesso a trinta contos de Caldwell, o que representa exatamente um quinto da ficção curta do autor. Ainda que os contos sejam de qualidade desigual, este acesso amplo ao corpus da obra caldwelliana permite-nos acima de tudo ir identificando as obsessões do autor, bem como as semelhanças que parecem existir em quase todas as histórias, o que, como acontece nos autores que merecem a pena, longe de nos fazer lamentar a falta de originalidade, nos concede o privilégio de entender melhor o que busca Caldwell na sua escrita.

Assim, através da sucessão destas histórias, que parecem sempre situadas no sul ou interior dos Estados Unidos e que têm como protagonistas os mais pobres, os mais desprotegidos e os mais afastados do sonho americano, vamos compreendendo que a pobreza em Caldwell é sempre uma pobreza ensimesmada e isolada.

Esta estranha mistura de sonho americano com pesadelo capitalista, que parece resultar da conjugação do rescaldo da Guerra Civil, em 1865, com o colapso da Bolsa de Nova Iorque, em 1929 (não será, desse ponto de vista, uma coincidência que as histórias tenham sido escritas todas entre 1930 e 1941), leva a que cada homem e mulher caldwelliano imagine o seu futuro como independente do das restantes pessoas à sua volta, o que, evidentemente, corrói qualquer possibilidade de construção de comunidades robustas o suficiente para proteger os seus membros, até porque (e isto parece uma obsessão do escritor) todos os habitantes da sua ficção parecem temer levantar ondas, por perceberem que o poder é sempre, sempre, sempre, exercido de cima para baixo, num movimento de foice que leva a que ninguém que queira ser tomado por trigo se arrisque a estar sequer perto dos tidos por joio.

Vemos isso mesmo logo no primeiro conto da antologia (O Fim de Christy Tucker), mas vemo-lo sobretudo (e mais espantosamente) em Estamos a Olhar para Ti, Agnes, onde uma família se recusa a perguntar seja o que for à filha que partira há seis anos para norte numa busca (claro, fracassada) por uma vida melhor, por temerem que a mancha que julgam tê-la contaminado as contagie também a elas, o que as leva a viverem as visitas anuais de Agnes como um momento tenso que deve ser suportado no mais absoluto silêncio, na esperança de que tudo acabe depressa e possam enfim regressar às suas vidas quotidianas.

Este movimento de violência descendente (ou seja, de cima para baixo) é naturalmente replicado também nos degraus inferiores da pirâmide, cujos ocupantes vão exercendo — na medida do que lhes é possível, e na esperança de assim redimirem e exorcizarem a violência que tantas vezes sofrem — pequenas violências na direção dos seus presumidos inferiores hierárquicos, mesmo quando esses inferiores não passam de moscas, como vemos em A Mosca no Caixão.

Contudo, como é bom de ver, na maioria dos casos, os inferiores são ora os negros, sempre tidos por inferiores aos brancos, quase por sub-humanos (veja-se sob esse ponto de vista o excelente Sábado à Tarde, onde um talhante — habituado a dormir as sestas deitado na tábua de corte da carne, numa demonstração clara do que se vende afinal na sua loja — sai disparado do talho para participar no linchamento de um homem inocente, “demasiado bom para um negro”, e que, precisamente por conta da sua repugnante bondade, acabaria preso pela garganta e pescoço a uma árvore, sendo depois cravejado pelas balas de quarenta homens); ora as mulheres, que a dureza da vida envelhece bem cedo, como vemos no extraordinário A Velhota de Joe Craddock, onde, decerto informado pela sua experiência enquanto filho de pastor presbiteriano, Caldwell apresenta a morte como única redenção para estas vidas de agruras (ideia recuperada mais à frente em O Dia Solitário), ou no também muito interessante O Ninho de Amor do Tio Henry, onde a tia Jenny, uma mulher velha (e as mulheres de Caldwell tornam-se velhas muito cedo), descobre que o marido tem uma amante e, por mais revoltada que fique, percebe que a única alternativa que agora lhe resta é fazer “a melhor compota de morango que alguma vez fiz” para que o marido não a deixe “sozinha no mundo”, trocando-a por “uma mulher mais nova e mais bonita”, visto que, tal como todas as outras personagens destas histórias, também esta tia Jenny está encurralada numa vida miserável, não passando de um corpo ao dispor do seu homem (como percebemos tragicamente em O Frio Inverno ou Martha Jean). Por tudo isso, o ponto mais baixo desta cascata de violência será sempre a mulher negra, ou, ainda mais especificamente, a rapariga negra (leia-se a esse propósito O Retrato ou A Fugitiva).

Assim, encurralados numa vida de miséria, todos os momentos de felicidade destas personagens serão, por isso mesmo, efémeros e/ou retrospetivos, tendo estes contos pontos de partida tipicamente paralelos aos do salmista bíblico que, no exílio, canta as suas saudades de Sião. Porém, a grande tragédia caldwelliana é que, em muitos casos, são estes mesmos narradores quem, voluntária ou involuntariamente, provoca a sua própria queda violenta de um cume que, da nossa perspetiva, nem parecia assim tão alto, como vemos em Rachel ou A Visita.

É ainda curioso notar que o único conto onde nos vemos confrontados com a presença de uma qualquer força superior, de um grande poder capaz de mudar de facto alguma coisa nestas vidas desgraçadas (encarnado no candidato presidencial que visita a Ciudad Tamaulipas), este potencial agente da mudança limita-se a ignorar os problemas com que se vai deparando e a louvar a beleza das mulheres, da cidade e do dia, deixando os habitantes da cidade na “esperança de que o General, que nos tornara conscientes da beleza do dia, pudesse assegurar todos os votos e tornar-se o próximo presidente do país”.

Não espanta, portanto, que o livro termine com o conto que dá título à antologia (Flores Bravias), onde nunca é claro se aquilo a que assistimos se trata de um parto, de uma morte, ou, o que é mais provável, dessa mistura confusa entre nascimento e morte, alegria e tristeza que é, afinal de contas, a pobreza, essa mais miserável das misérias.