De uma palavra, salta-se para outra. O livro é quase um dicionário interactivo, com cerca de duas páginas dedicadas a cada uma das palavras escolhidas a dedo por Duvivier. Na maior parte dos casos, os textos terminam com uma palavra a negrito, que funciona como gancho para a página seguinte. E, quase como quem não quer a coisa, como quem nos segreda ao ouvido, como quem pensa em voz alta, quase por acaso, Duvivier faz-nos ver o que ainda não tínhamos visto. Dizer que o faz parecendo que é sem querer é parte da sua mestria: o livro parece coisa sem esforço, que flui simplesmente, que segue pela página num rio, mas é evidente que há ali muito conhecimento sobre a língua portuguesa, que é para Duvivier matéria de trabalho e de reflexão. Eis a língua como um músculo, e eis múltiplas formas de o músculo ser trabalhado. Para os amantes do português, À flor da língua será uma espécie de ginásio. Podíamos chamar-lhe academia, mas a versão europeia sua mais e aguenta mais peso.
A relação de Duvivier com a língua parece sensorial, e está longe de ser um estudo linguístico stricto sensu. Em vez disso, é uma relação subjectiva, emotiva, sentimental. Em certos pontos, parece ter um quê de erótico – a palavra provoca a reacção. Leia-se, por exemplo:
Afta: que palavra estranha, parece uma sigla. No entanto, soa perfeita. Tem muita aflição contida nela: afffta. Uma palavra autoexplicativa, que contém o fenómeno que descreve.
Sussurrar é uma palavra sussurrada. Metralhar te obriga a fuzilar com a língua. Tropeçar tem um degrau ali no meio. Borbulha é uma palavra bolhosa. Fronha tem o som de cara enfiada no travesseiro.” (p. 22)
No livro, é tudo perfeitamente subjectivo, o que não impede o texto de parecer perfeitamente objectivo. Não há como escrever sem manipular e Duvivier manipula bem. A páginas tantas, o leitor está ali sem saber se é manipulado, e o escritor está em frente a ele, de palavras na boca, qual Messi de bola nos pés: não se sabe bem para onde vai, e parece que nem vai para lado nenhum de propósito, mas a coisa acaba sempre em finta e golo. No caso do brasileiro, acaba sempre em finta e espanto. Quem lê dá por si espantado por nunca ter reparado. Depois de Duvivier nomear, tudo fica evidente para um lusófono: claro que gororoba é uma palavra grudenta. Ora, ao ler o livro, ainda que possa imaginar-se que gororoba seja uma espécie de jaca pegajosa, confia-se no som, e certamente se confia no efeito: só de olhar para a palavra, já se nos cola nas mãos. E descobrir que, afinal, gororoba é uma mistela qualquer aquecida ao lume não lhe tira a relação de causa-efeito.

Faz falta quem olhe para a língua portuguesa como uma coisa divertida, e ainda mais dentro deste universo lusófono, em que tantos falantes não entendem quão imenso é este privilégio de nos lermos uns aos outros, de nos entendermos uns aos outros – e de, de vez em quando, não entendermos patavina do que o outro diz. É mais chocante por ser na mesma língua, mas não deixa de ser mais amplo. Só um lusófono para entender o que é uma história abensonhada, e deve ser quase impossível explicar o sentido sem sentido a um não-nativo. Sobretudo, num mundo em que estudar português não parece cool, nem fixe, nem legal, Duviver resgata a língua como fenómeno quase mágico, belo, intenso. Os amantes da literatura encontrarão em À Flor da Língua uma análise sobre a ferramenta da arte, os fãs de humor darão as mãos à voz encantatória de Duvivier e os leitores em geral não deixarão de se espantar com este jeitinho brasileiro que nos falta deste lado do Atlântico, onde mora gente que jamais terá o topete de escrever no texto, para mais impresso, para mais numa editora de prestígio, “pra” em vez de “para”.
Em À Flor da Língua, Duvivier mostra-se abrangente e cirúrgico – inteligente, fino, conhecedor, original, engraçado. Sem dúvida amante e artífice no mesmo movimento, faz voltas de linguagem que fazem lembrar as melhores crónicas de Nelson Rodrigues e, em geral, o melhor da tradição da crónica no Brasil, tão distante da portuguesa. Depois de lido o livro, para o leitor só restam duas dúvidas, que são as de saber se estudar português é bom ou bacana e se a semântica é fixe ou legal.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.