Glenn Martens distribui jogo na Margiela, Meryll Rogge assumiu o leme na Marni, Raf Simons mantém-se braço criativo de Miuccia Prada, Anthony Vaccarello (com a devida costela belga) lidera a Yves Saint Laurent e Mathieu Blazy relançou o frenesim Chanel no xadrez do luxo. Mas antes deles, seis virtuosos compatriotas puseram a Bélgica no mapa da moda. Para isso, alugaram uma carrinha e fizeram-se à estrada rumo a Londres. Pequeno problema: havia mais um obstáculo pela frente. No então British Designer Show, a maioria dos talentos tinha lugar no primeiro piso expositivo. Para ver os belgas era preciso subir até ao último andar, mas no final do primeiro dia ficou claro que poucos ou nenhuns clientes investiam na escalada. Solução? Distribuir flyers. O resto da história, o batismo do gangue (dada a dificuldade em pronunciar cada apelido), e a descolagem da projeção internacional, envolveu um representante dos grandes armazéns Barneys de Nova Iorque que ousou trepar ao cimo do Olympia.
A partir deste sábado, no MoMu, a célebre armada dos Antwerp Six ganha uma exposição única que revisita a meia dúzia de designers de exceção que estudou na Academia Real de Belas Artes e daí hasteou a sua lança no palco da vanguarda. Seis nomes lançados em 1986 numa fornada com destinos, protagonismos e lastros diversos, mas raízes comuns e uma influência coletiva digna de estudo. Resumimos as origens, a obra e o desfecho de Dirk Bikkembergs, Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Dries Van Noten, Dirk Van Saene e Marina Yee. E, se possível, recomendamos uma viagem a Antuérpia.
Dirk Van Saene
A dimensão lúdica marcou a trajetória de Van Saene, que mal concluiu o curso no departamento de Moda da Real Academia de Belas Artes de Antuérpia, em 1981, abriu a sua própria loja, a Beauties & Heroes, que se inscrevia numa cena cultural e artística complementada por centros como a discoteca underground Cinderella’s Ballroom, ou galerias como a Wide White Space. Foi ali que reuniu um elenco de peças exclusivas e da sua autoria, expondo ainda a coleção com a qual venceria a segunda competição Golden Spindle em 1983. Três anos mais tarde, tal como os restantes membros do Antwerp Six, mostraria o seu trabalho no British Designer Show, uma montra das criações mais experimentais, à margem do circuito comercial. A ousadia das vanguardas da época manifestava-se através de nomes como Jasper Conran, The Emanuels, ou Leigh Bowery, que também apareceu no popular The Clothes Show — o programa trouxe até ao grande público o contexto da alta moda e das passerelles, abrindo horizontes.
Em março de 1990, Van Saene organizou o seu primeiro desfile em Paris com coleção própria, dando sinais da ironia que haveria de pautar o seu percurso. Entre a equipa, era possível vê-los a usar t’shirts com o seu nome mal escrito de diferentes formas, deixando o aviso à navegação. Mas após três desfiles sem ver retorno financeiro, Dirk pôs o projeto em modo de pausa, relançando-o apenas em 1994, com “Black Sissi”. Em ordem mantinham-se os elementos trompe-l’oeil, as notas surrealistas, de humor e ironia que subvertiam os ditames da alta-costura francesa.
Multifacetado, tornou consistentes as referências da alfaiataria e artesanato em em 2016 o mesmo MoMU destacou a sua inclinação para a pintura e cerâmica na mostra Rik Wouters & The Private Utopia. Foi à cerâmica, aliás, que passou a dedicar-se em pleno depois de 2020, quando apresentou a sua última coleção. Da Real Academia haveria de sair outro nome independente, com ascendência portuguesa: Veronique Branquinho apresentou a sua primeira coleção de mulher em Paris em 1997 e em 1998 lançou a marca homónima.
Walter Van Beirendonck
Cor, provocação e parcerias — incluindo as afetivas. A foto do bloco anterior denuncia o óbvio: além de terem frequentado a mesma escola, e de pertencerem ao mesmo reduto criativo, Dirk Van Saene e Walter Van Beirendonck são um casal há décadas e também eles testemunharam o quanto a Moda mudou nos últimos 40 anos, algo que a exposição terá em foco. Em jeito de enquadramento, vale a pena lembrar esse começo de oitentas, a ascensão do design japonês de vanguarda da Comme des Garçons de Rei Kawakubo ou, claro, a irreverência de Vivienne Westwood.
Outrora punk nos corredores da Academia de Belas Artes, em 1997 Walter deixou uma marca na PopMart tour dos irlandeses U2. Coube ao designer das barbas fazer o styling da banda durante a apresentação global do seu nono álbum de estúdio. A t’shirt de Bono passou à história mas a sua associação futura a outros emblemas não teria menor impacto. Dover Street Market, Comme des Garcons, IKEA ou G-Star são algumas das escalas criativas de Walter van Beirendonck, que se manteve na liderança do departamento de Moda da Real Academia de Belas Artes de Antuérpia até 2022.
Inspirado pelas artes visuais, literatura, ou influências étnicas, assinou vários looks marcantes que seguem as diferentes referências. Quando a exposição anual do Costume Institute do nova-iorquino Metropolitan se rendeu à estética Camp: Notes on Fashion, o catsuit que reproduzia a anatomia humana de Van Beirendonck encaixou-se como uma luva. Em 2011, o mesmo MoMu que agora lhe rende homenagem expunha uma vestido que bebe da cultura das mulheres Hui’an, de Quanzhou, na China. Os seus colarinhos inesperados, ou sapatos em forma de crocodilo, cruzam-se com peças mais discretas mas nem por isso banais. Que o diga o blusão em baixo.

Entre o questionamento de género, política, arte bruta e muito apocalipse garrido, graças a Van Beirendonck as crianças podem agora também mergulhar numa grande piscina de bola ou dançar sob um OVNI brilhante. O design assina o layout de um novo centro criativo em Genk, uma instalação semi-permanente que se confunde com o parque infantil.
Marina Yee
Marina Mariette Alfons Yee foi provavelmente um dos nomes mais esquivos e enigmáticos do grupo original e com um percurso errático, com direito a vários intervalos da indústria da moda – ou movimentando-se antes numa zona mais sombria e discreta, longe dos holofotes e próximo da interseção artística. Upcycling? Ainda o conceito não havia sido cunhado já ela construía e reconstruía a partir de desperdícios resgatados de caixotes do lixo. Decisivo no entanto foi o ano de 1984, quando nela apostou Sonja Noël, que então fundava a STIJL, icónica loja multimarca de luxo sediada em Dansaert, em Bruxelas, crucial na divulgação de génio belga como o dos seis de Antuérpia.
Intimamente ligada ao também designer Martin Margiela, Yee afastou-se em 1990, dedicando-se ao desenho de figurinos para teatro e chegando a abrir um café em Bruxelas. A exploração de disciplinas várias, da pintura aos interiores, foi aliás uma das marcas, de tal forma que até dia 10 de maio a Gallery Sofie van de Velde apresenta pela primeira vez uma seleção de obras nunca mostradas publicamente antes, objetos, montagens e colagens.

“Trabalhando com restos têxteis, fios, vidro e elementos encontrados, Yee permite que os materiais falem através da sua vulnerabilidade e imperfeição.”, descrevem. Em 1999, Yee desenhou uma coleção de inverno para a marca belga Lena Lena, fundada pela ex-jornalista de moda Miet Crabbé. Em 2005, começaria a dar aulas, e em 2017 ensaiou um regresso ao mundo da moda, com um conjunto de coleções cápsula orientadas para o mercado asiático. O projeto M.Y. foi exibido em Tóquio, na loja Laila Tokyo, e centrou-se na moda sustentável, utilizando tecidos de segunda mão de lojas vintage e feiras da ladra. A 1 de novembro de 2025 não resistiu a um cancro no pâncreas. Yee tinha 67 anos.
Nas suas palavras, deixa um legado “Prutskous”, um termo coloquial flamengo usado frequentemente para descrever alguém que é brincalhão, experimental, ou meticuloso de uma maneira não estritamente comercial ou rápida.
Dries van Noten
É sem dúvida o nome mais popular e estabelecido entre o grande público, mesmo no restrito nicho da moda, que se rendeu ao culto dos padrões, cores e texturas, numa interação virtuosa entre elementos clássicos e essência vanguardista. Foi em 2024 que Dries, um timoneiro da fórmula ‘anything goes’, apresentou a sua derradeira coleção enquanto diretor criativo e no ano seguinte estabeleceu a Fondazione Dries Van Noten em Veneza, orientada para os processos artesanais. “Quero mudar o meu foco para todas as coisas para as quais nunca tive tempo.”, anunciava na hora da retirada de cena, depois de quase 40 anos a trabalhar no setor.

Descendente de alfaiates, Van Noten lançou a sua própria marca em 1986 e em 1993 aterrou em Paris, onde apresentou regularmente as suas coleções. Pelo meio conquistou vários prémios e o respeito da indústria, fomentando essa “Dries-mania” que tanto dificulta a eleição das melhores coleções até à data como convida a uma busca desenfreada de items em segunda mão nos melhores arquivos físicos e online. Bom, teremos sempre aquela primavera-verão 1995 o postal da Côte d’Azur, e uma despedida dos manequins sobre duas rodas.
Em 2018, o designer vendeu a maioria da sua marca ao grupo espanhol Puig, que na altura afirmou que o designer permaneceria como “diretor criativo e diretor do conselho de administração”, assegurando “uma significativa minoria das ações”. Dries ter-se-á comprometido a ficar na marca durante um mínimo de cinco anos. Os destinos criativos da etiqueta estão hoje entregues a Julian Klausner, formada na escola belga La Cambre, treinado na maison Margiela, e que se juntou à Dries Van Noten em 2018, ascendendo à direção das coleções femininas da casa antes da promoção máxima. A sua estreia foi apresentada no início de 2025 (FW25/26), com foco numa mistura de peças inspiradas no arquivos e um rumo apontado ao futuro.
https://www.youtube.com/watch?v=Eaq4_ZVU6Qg
Dirk Bikkembergs
Viveu a maior parte de seus anos em Diepenbeek, Limburg, na Bélgica, formou-se na Academia Real de Belas Artes, em Antuérpia, mas foi na Alemanha, que nasceu Dirk Bikkembergs, um dos pioneiros a fundir a moda e o desporto, tendência tão em voga nos dias que correm. Foi com uma coleção de sapatos masculinos que deu o primeiro passo. Em 86, aderiu ao British Designer Show em busca de um mercado mais amplo. Conforto e um carácter vestível animaram desde o começo o seu trilho, com os tecidos técnicos e as malhas a unirem-se a outros materiais que conferiam robustez. Depois da eram glam, do punk e ombreiras dos anos 80, o final de noventas deixava visível a popularidade dos fatos de treino e a rentabilidade da moda que incorporava os benefícios do desporto.
Sob a sua direção, a Bikkenbergs estreitou relação com o universo futebolístico, desfilou em estádios de Milão e Barcelona, assinou o uniforme do clube italiano Inter, e desenhou os equipamentos da seleção eslovena. Em 2011, vendeu a empresa no auge do sucesso. A marca foi escolhida como o parceiro formal oficial da União Russa de Futebol em 2018, dois anos depois da liderança criativa ter passado para as mãos de Lee Wood, inglês formado em Arte e Design de Moda no Berkshire College of Art.
Os produtos da marca, que vão de ténis a mochilas, podem ser usados e testados pelos próprios futebolistas. É que Dirk Bikkembergs comprou o F.C. Fossombrone, um pequeno clube italiano de Fossombrone, Marche, fundado em 1949, e que viu a sua imagem renovada.
Aqui chegados, a diferença de registos espelha bem as palavras de um dos três curadores da mostra, Geert Bruloot. “Não é como se fosse um grupo pop que se reúne e canta a mesma canção. Cada um dos seis tinha diferentes carreiras a solo em mente”, observou à Wallpaper.
Ann Demeulemeester
Forma de pronunciar? [ɑn dəˈmøːləˌmeːstər] Não tem de quê. Não é certo o que levou Verhelst, hoje com 66 anos, a alterar o seu apelido. Começou por estudar arte, depois moda na Academia Real de Belas Artes, entre 1978 e 1981, e daí para o mundo com a influência das subculturas gótica, punk, boémia e nipónica. O caminho da marca tem sido fértil em solavancos. Antes de se estabelecer, colaborou com Margiela, em 1985 lançou-se em nome próprio com ajuda do marido, Patrick Robyn, e quando em 1986 os seis de Antuérpia decidem levar o seu trabalho até Londres, Ann está grávida e acaba por mostrar apenas uma seleção de óculos escuros que é um sucesso imediato, adquirido em peso pela Barneys no local.
Em 1992, Dirk Van Saene expõe em livro as tensões entre Ann e o resto dos Antwerp Six. Dois anos mais tarde, a designer conta com a empresária belga Anne Chapelle para ajudar a estruturar o negócio, encetando a mais profícua das fases. Estreia a linha masculina em 1996 e em 1999 inaugura a sua flagship em Antuérpia. Chapelle haveria de comprar a maior parte da marca em 2005. Para a história, prevalecem as silhuetas alongadas, as penas e correntes, as botas chuncky e sandálias de gladiador, enfim, a toada noir, entre o fúnebre e o poético, que tanto agradaria à sua musa, Patti Smith.
Em novembro de 2013, anunciava pelo seu punho, numa nota manuscrita, que se iria afastar da etiqueta, confiando a sucessão ao francês Sébastien Meunier, que trabalhava há 10 anos com Martin Margiela quando se juntou a Ann Demeulemeester em 2010, projetando oficialmente as coleções masculinas da casa, enquanto na realidade era treinado por Ann e Patrick Robyn para a missão que se seguiria. Meunier deixou a marca em julho de 2020, ano em que o retalhista italiano Claudio Antonioli a comprou. Ann regressaria a bordo do projeto, agora ao leme da Ann Demeulemeester Serax, cruzando os seus trabalhos de porcelana com o selo de difusão belga. Contudo, a dança de cadeiras na direção criativa das coleções de roupa intensificou-se. Em dezembro de 2022, Antonioli recrutava Ludovic de Saint-Sernin, que apenas seis meses depois passava o testemunho a Stefano Gallici, um antigo estagiário de Haider Ackermann e metade da dupla de DJs Nausea Twins.
The Antwerp Six , de 28 de março a 17 de janeiro de 2027, no MoMu, Museu da Moda de Antuérpia, Bélgica. A partir de 9 euros.