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(A) :: A lei de Murphy e o seu reverso entre João e Jonas: Almeida cai, tem avaria e "afunda", Vingegaard dá show e vence em Coll de Pal

A lei de Murphy e o seu reverso entre João e Jonas: Almeida cai, tem avaria e "afunda", Vingegaard dá show e vence em Coll de Pal

João Almeida tinha dúvidas sobre o seu momento mas enfrentou de tudo um pouco, de uma queda em curva à correia. Luta ficou para outros e tudo o que podia correr bem, correu ainda melhor a Vingegaard.

Bruno Roseiro
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A passagem na Costa Daurada acabou por não ter grande impacto na classificação geral, em parte a passagem na Costa Daurada acabou por preparar os principais candidatos para a etapa que deveria ter impacto mais a sério na classificação geral. Apesar dos segundos ganhos por Thomas Pidcock nas bonificações, num remake do “tenho ainda desgaste acumulado da Milão-Sanremo” antes do arranque para o “quero ir a tudo” durante a tirada, Dorian Godon manteve a liderança e nomes como Remco Evenepoel, Jonas Vingegaard ou João Almeida tentaram resguardar-se ao máximo antes do desafio de La Molina. Um desafio tão grande que os corredores sabiam que um dia mau era mais do que suficiente para deitar por terra todas as suas ambições.

https://observador.pt/2026/03/26/a-ameaca-de-vento-reduziu-a-etapa-e-evitou-tempestades-ethan-vernon-vence-godon-antes-da-subida-a-la-molina/

“Hoje vamos ter finalmente uma chegada em alto. Pessoalmente acho que ontem [quinta-feira] talvez tenha me servido um pouco melhor mas, para ser honesto, não me tenho vindo a sentir muito bem nestes últimos quatro dias. Vou dar tudo nesta etapa e ver onde estou, ver se a sensação está um pouco melhor. É o que é…”, assumia João Almeida, que perdeu Jay Vine e Ivo Oliveira nestes dias iniciais após quedas, antes de assumir que a ligeira redução na chegada de menos de dois quilómetros e meio podia ser positiva.

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“Capacidade de reverter maus momentos? Espero que a história seja a mesma. Acho que temos muitas subidas, subidas que são íngremes, mas também temos descidas muito técnicas, com muitas curvas em hairpin. Acho que deve ser uma boa etapa, com alguns ventos fortes também na subida final e especialmente talvez na primeira também. Acho que a redução é uma boa decisão porque ainda vamos terminar em partes íngremes e não deve mudar muito. Tudo vai depender das pernas. Se tiver com boas pernas, tudo bem. Se não tiver boas pernas, então é um pesadelo…”, acrescentou o português da UAE Team Emirates.

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Estava a chegar o verdadeiro desafio para os duros, com a subida ao Coll de Pal, de quase 15 quilómetros, a ser apenas o último ponto de dureza com muita alta montanha após três pontos de primeira categoria e mais um de segunda categoria num desnível acumulado de 4.500 metros. Mais: estava a chegar a etapa com um perfil que ainda não se tinha visto na presente temporada, digna de uma Grande Volta como o Giro de Itália e que deveria ter muita parte tática à mistura. Teve. E começou cedo, com uma manobra em forma de “armadilha” potenciada pela Visma-Lease a Bike e pela Emirates que apanhou de surpresa outros conjuntos de concorrentes à vitórias, casos de Red Bull-Bora ou Ineos. Mas que peso poderia depois ter essa fuga?

As cartas foram lançadas com nomes já habituais neste tipo de etapas na frente, casos de Marc Soler (Team UAE Emirates), Giulio Ciccone (Lidl-Trek), Davide Piganzoli (Visma-Lease a Bike), Einer Rubio (Movistar) e William Junior (Soudal Quick-Step), numa fuga que chegou a ter uma vantagem de dois minutos antes de começarem as subidas, neste caso Coll de Josa. Ciccone aproveitava para somar pontos que o colocavam na corrida pela classificação de montanha, Soler ia passando várias vezes pelo carro com grande à vontade para colar depois nos restantes fugitivos tentando saber como estavam a correr as coisas mais atrás, Piganzoli seguia com o habitual perfil discreto na frente. Só os três aguentaram, Rubio e William Junior descaíram.

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Mais atrás, no grupo dos principais candidatos, a única certeza era que Dorian Godon não iria manter esse primeiro lugar dos quatro dias iniciais perante a forma como descolou cedo do principal bloco do pelotão. Era a Red Bull, com Jay Hindley e Florian Lipowitz a trabalharem com Remco Evenepoel, que pautavam o ritmo da perseguição perante o “desinteresse” da Visma e da Emirates, sem necessidade de ter esse desgaste pelas unidades que tinham colocado na fuga. Pidcock andou meio desaparecido devido a uma queda que levou ao asfalto também duas unidades da Visma, João Almeida viveu mais um dia a lutar contra várias adversidades, neste caso com um problema na correia da bicicleta numa curva que se seguiu a uma queda com outro companheiro de equipa. A 25 quilómetros, não se via o português. A boa hora, numa fase de preparação para as decisões, conseguiu reaparecer a colar ao grupo da frente. O que sobrava? Mais desgaste.

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O primeiro sinal foi deixado por Ciccone, que no início da subida conseguiu descolar de Soler e Piganzoli. A manobra foi surpreendente, tendo em conta os quase quatro minutos de atraso na geral, os outros fugitivos foram começando a mexer, com Soler a ser alcançado pelo pelotão a pouco mais de 11 quilómetros e a não ter andamento para seguir com o grupo, gorando-se mais um apoio para Almeida que perdera Adrià Pericas e ficava apenas com Brandon McNulty. Mais uma vez a estratégia da Emirates tendo em perspetiva a luta pela geral era colocada em causa, sobretudo tendo em conta a desistência de Jay Vine após queda. Mais uma vez, aquilo que podia ser uma etapa mais taco-a-taco tornou-se um duelo entre a Visma… e a Red Bull.

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Felix Gall e Lenny Martínez foram tentando sair, Lipowitz aparentou estar muito à vontade, Vingegaard foi de novo um monstro quando disparou. Remco ainda tentou segurar o ataque mas a cadência que o chefe de fila dinamarquês estava a colocar fulminou por completo a concorrência numa fase em que João Almeida, depois de ter andado muitas vezes na ponta do grupo, já tinha descolado. A cinco quilómetros do final, Ciccone “rendeu-se” de vez e Jonas Vingegaard partiu para a vitória, deixando para trás um primeiro grupo que tinha Lipowitz, Valentin Paret-Peintre, Felix Gall e Lenny Martínez e um segundo grupo com Remco Evenepoel, Ciccone, Mattias Skjelmose, Lorenzo Fortunato, Matthew Riccitello, Oscar Onley e Cian Uijtdebroeks. Só depois aparecia João Almeida, com Enric Mas, Richard Carapaz e ainda Piganzoli.

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A vitória estava mais do que assegurada, com essa perceção clara de que o dinamarquês podia arriscar fazer o xeque-mate à Volta à Catalunha perante a incapacidade de resposta dos principais opositores. Felix Gall terminou em segundo indo buscar ainda essa bonificação dos seis segundos a 50”, seguindo-se a dupla Lenny Martínez e Florian Lipowitz a 1.01 sem que o elemento da Red Bull bonificasse. Remco Evenepoel terminou em sexto já a 1.40 atrás de Valentin Paret-Peintre, com João Almeida a minimizar o impacto do dia chegando a 1.59 do dinamarquês no 16.º lugar da etapa, num cenário sempre negativo mas não tanto como se antevia.

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Contas feitas, Jonas Vingegaard passou agora a ter 57 segundos de vantagem sobre Felix Gall (Decathlon) e 1.09 sobre Lenny Martínez (Bahrain), os outros dois “beneficiados” depois do ataque do dinamarquês. Ainda no top 10 ficaram Florian Lipowitz (Red Bull-Bora, 1.13), Valentin Paret-Peintre (Soudal Quickt-Step, 1.15), Remco Evenepoel (Red Bull-Boa, 1.38), Ben O’Connor (Jayco, 1.51), Mattias Skjelmose (Lidl-Trek, 1.51), Cian Uijtdebroeks (Movistar, 1.51) e Lorenzo Fortunato (Astana, 1.51). João Almeida passou agora a ser o 16.º da geral a 2.11, longe não só do topo mas do próprio pódio. Afonso Eulálio está em 57.º (22.53).

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