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Guerra. Rússia avança com forte investimento nas regiões ucranianas ocupadas para afastar cenário de devolução a Kiev

Uma investigação da Reuters mostra como Moscovo gasta mais nos territórios ucranianos ocupados do que em regiões russas, aprofundando laços económicos difíceis de reverter.

João Paulo Godinho
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A Rússia está a investir fortemente nos territórios ucranianos ocupados, com o desenvolvimento de redes de transportes e a construção de infraestruturas que aprofundam a ligação entre as regiões de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, anexadas após o início da invasão em fevereiro de 2022, e o território russo.

Uma investigação da Reuters documenta a evolução dos trabalhos orquestrados desde o Kremlin e reforça um objetivo claro do Presidente russo, Vladimir Putin: inviabilizar qualquer cenário de devolução destas regiões a Kiev num contexto de negociações de paz. A verificação desta realidade nas regiões denominadas por Moscovo como ‘Nova Rússia’ foi realizada a partir da análise de imagens de satélite, documentos de concursos públicos russos, dados sobre exportações e transporte de mercadorias, além de declarações de responsáveis ucranianos e antigos residentes destas zonas.

Um desses exemplos é a construção do sistema ferroviário Novorossiya, iniciado em 2023 e que prevê uma linha com uma extensão de cerca de 525 quilómetros, abrangendo regiões de Donetsk e Lugansk (no Donbass), Zaporíjia e Kherson. Mas não é caso único: uma super-autoestrada em construção com aproximadamente 1.400 quilómetros vai contornar todo o mar de Azov, intensificando a interligação entre a Rússia, os territórios ocupados — com passagem pelos importantes portos de Mariupol e Berdiansk — e, inclusive, a Crimeia, anexada em 2014.

https://twitter.com/Reuters/status/2037518783485550833

A ferrovia tem centenas de quilómetros de comprimento. Infelizmente, não somos todo-poderosos“, admitiu um combatente ucraniano que está na região de Donetsk. No entanto, o Kremlin mantém que a soberania sobre esses territórios é um assunto encerrado para Moscovo. “São assuntos russos”, referiu o porta-voz Dmitry Peskov, assinalando a integração territorial das quatro regiões ocupadas: “Está escrito na Constituição do país”.

Imagens de satélite comprovam avanços em diversas áreas

As imagens de satélite refletem os trabalhos operados pelos russos em alguns pontos estratégicos, como as novas instalações nas docas de Mariupol com o comprimento de um campo de futebol. Centenas de milhões de rublos estão a ser canalizados pela Rússia para uma forte transformação destas regiões anexadas, com foco nas infraestruturas de transportes e comércio, enquanto continua com o esforço de guerra a oeste contra as forças ucranianas.

Através de um modelo de aprendizagem automática que analisou milhares de imagens óticas e de radar, a investigação concluiu que entre 2022 e 2025 terão sido construídos, reparados ou modernizados mais de 2.500 quilómetros de ligações (ferroviárias e rodoviárias) entre os quatro territórios ocupados e as áreas russas mais próximas.

Questionado sobre a atual situação destas regiões, o gabinete do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, não fez comentários. No entanto, Zelensky recorreu ao que aconteceu na Crimeia para defender numa entrevista que esses investimentos não são benéficos para os residentes. “Não se parece com um resort moderno. Está tudo militarizado“, observou. Numa entrevista partilhada na rede social X, assinalou ainda o crescimento do sentimento bélico entre a população russa, alertando para a urgência de travar Moscovo o quanto antes.

O desenvolvimento destas estruturas serve ainda o objetivo de Moscovo em três planos distintos. Primeiro, facilitam a movimentação de tropas e equipamentos necessários para a guerra; depois, aprofundam a interdependência económica daqueles territórios com a Rússia, mais difícil se torna a sua separação e, como defendem a Ucrânia e os seus aliados europeus, a restituição destes a Kiev; por último, permitem uma maior exploração (e posterior circulação) dos recursos naturais.

https://twitter.com/ZelenskyyUa/status/2037106530542030899

E Vladimir Putin tem enfatizado em múltiplas intervenções públicas desde o início da guerra uma reivindicação histórica dos tempos do império russo e um património comum com Moscovo.

Os ucranianos têm tentado atacar e sabotar as obras de construção da ferrovia, por exemplo, partilhando online alguns desses ataques. Todavia, foi assumido na investigação da Reuters que Kiev não está a ter capacidade de causar impacto ou conseguir travar os planos industriais e militares de Moscovo ao nível das cadeias de abastecimento nas zonas ocupadas.

Um investimento russo de quase 12 mil milhões de dólares

O nível de investimento russo nestas regiões anexadas supera o de outras áreas russas e é, simultaneamente, intensificado com a venda de ativos em leilões para procurar dinamizar a ocupação. São disso exemplo minas e terrenos agrícolas. De acordo com a Reuters, a Rússia alocou cerca de 11,8 mil milhões de dólares de fundos federais para o desenvolvimento das quatro regiões ocupadas (e que representam cerca de 20% do território ucraniano).

Para Olha Kuryshko, representante presidencial da Ucrânia para Crimeia, os russos utilizaram esta península como um ensaio para o que têm feito nas quatro regiões anexadas depois de 2022, considerando que alcançaram em muito menos tempo aquilo que tinham realizado na área conquistada em 2014.

Os russos conseguiram tanto em três anos de ocupação dos novos territórios como conseguiram em 10 anos na Crimeia, de acordo com a nossa análise. Levaram a cabo tudo tão rapidamente, gastaram tanto dinheiro, elevaram tudo a um nível superior em relação ao que fizeram na Crimeia. A Crimeia foi o seu campo de treino”, defendeu a responsável encarregada de monitorizar os direitos dos ucranianos naquela península.