Ureia granulada, enxofre, amónia ou fosfato. Não são ingredientes que façam parte da lista de compras das famílias, mas são essenciais para garantir que os alimentos chegam à mesa. São usados nos fertilizantes aplicados na agricultura, e uma parte muito significativa da produção e do comércio global destas matérias passa pelos países do Golfo e pelo Estreito de Ormuz. Mais até do que o petróleo. A ofensiva contra o Irão está, por isso, a pulverizar de incerteza e preocupação os agricultores de todo o mundo. Portugal não importa diretamente daquela região, mas nem por isso os agricultores estão descansados.
“Os meus colegas estão em pânico”, confessa João Coimbra. É produtor de milho e presidente da Agromais, cooperativa de produtores de cereais e hortícolas da região do norte do vale do Tejo que é também a maior do país. O “pânico” instalou-se porque os produtores “estão 100% dependentes destas compras” de fertilizantes “e estamos na pior altura do ano, porque é a altura que se arranca para a campanha de primavera, que é quando se usam mais os fertilizantes e se fazem mais mobilizações”, ou seja, “anda-se com o trator a preparar os terrenos”.
Entre o Estreito de Ormuz e os campos de milho do Ribatejo distam milhares de quilómetros, e Portugal nem compra fertilizantes que passem por ali. Mas num mercado que é global, quando a principal fonte seca, o mundo vai beber às restantes. O que provoca uma disrupção na oferta e um imediato aumento dos preços. A tonelada de ureia granulada, usada nos fertilizantes que estimulam o crescimento das culturas, disparou 54% desde a ofensiva dos EUA e Israel no Irão, de 446 dólares para 687.
É um fertilizante azotado, o que significa que “não é possível adiar a sua aplicação”. E estes são “os que vêm mais daquela zona”, porque este adubo é feito com gás natural, que representa até 80% dos seus custos de produção, sendo produzido naquela região precisamente porque a energia é mais barata. Depois passam pelo Estreito de Ormuz, “por isso não vão sair de lá tão depressa. Portanto, não só não se consegue trazer de lá o produto, como não se consegue adivinhar quando é que as fábricas que foram destruídas vão conseguir produzir mais ureia e gás natural”, resume o produtor. No caso de Portugal, os principais fornecedores de fertilizantes azotados são, segundo o Eurostat, a Argélia, o Egito e a Rússia. As compras em 2025 ascenderam a quase 50 milhões de euros, de um total de cerca de 170 milhões de euros gastos em fertilizantes.
Os agricultores estão assustados, acrescenta João Coimbra, “por terem um produto que ainda não está vendido e por terem de comprar os adubos a mais 30%, 40% ou 50%, e que ainda por cima não há. Há aqui dois problemas, o problema do acesso e o problema do preço”.
Os produtores e importadores de fertilizantes confirmam o impacto que já se sente nos preços e “uma forte tensão na disponibilidade“, mas pedem “calma” porque “já vivemos este tipo de situações no passado e os associados têm conseguido responder positivamente. Neste momento as coisas estão relativamente salvaguardadas”, diz ao Observador Marco Morais, presidente da Anpifert (Associação Nacional de Produtores e Importadores de Fertilizantes), que tem sete associados e representa cerca de 90% dos fertilizantes comercializados em Portugal. Ainda assim, admite que “há o risco de poder haver alguma dificuldade de aprovisionamento”, porque esta é uma época de forte consumo. “Já estamos a sentir alguma dificuldade numa ou outra situação”. “Muitas das casas agrícolas que vendem os produtos estão a ratear as entregas”, confirma João Coimbra.

Marco Morais não adianta números, nem dos aumentos já sentidos pelos seus associados, porque “cada um tem o seu perfil”, nem das subidas de preços já passadas para os agricultores, confirmando apenas que “tem havido impacto nas tabelas de preços, sim”.
“As pessoas quando são confrontadas com os preços dos fertilizantes ficam espantadas”, começa por dizer ao Observador Carlos Amaral, presidente da Associação de Orizicultores de Portugal (AOP). “Na quinta ou sexta-feira passada uma das empresas que vende fertilizantes parou as vendas porque sabia que ia haver um incremento no produto [na segunda-feira] para vender depois mais caro. Há alguma especulação em que se aproveitam destes momentos. E não há alternativas”, desabafa.
Ao custo dos fertilizantes, os produtores e importadores juntam o aumento dos combustíveis e do transporte marítimo para justificar a subida dos preços de venda. Mas considera que eventuais apoios, a existir, devem ser direcionados aos produtores. “Obviamente estamos muito preocupados com o agricultor, porque o agricultor é quem consome os nossos produtos. Tudo o que possa ser feito para defender o agricultor parece-nos muito positivo”, sublinha o presidente da Anpifert.
O ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, afirmou na semana passada que o Governo estaria “a trabalhar” numa “fórmula de apoio” para fazer face ao aumento dos fertilizantes. Mas no conselho de ministros da última sexta-feira, em que foram aprovados apoios aos combustíveis para setores mais expostos à crise, nada foi avançado sobre os fertilizantes.
Entre os produtores de milho, uma das culturas mais afetadas pela escassez e aumento de preço dos fertilizantes, diz-se que “subidas de 50% se calhar já ninguém vai conseguir evitar”, admite João Coimbra. Para já, os cálculos apontam para aumentos na ordem dos 20%. O que “pode ter um impacto sobre o produto final idêntico ou superior a 10%”, prevê Jorge Durão Neves, presidente da Anpromis (Associação Nacional de Produtores de Milho e Sorgo).
“O que é preocupante nisto tudo? É que nós temos de adquirir os adubos para instalar a cultura sem saber qual é o preço do produto final”, explica o responsável. Isto porque o milho, tal como o trigo ou a soja, é uma commodity, ou seja, uma matéria-prima cujo preço é determinado pela oferta e procura no mercado. “Nós neste momento somos obrigados, para fazer a cultura, a adquirir os adubos, porque estamos na fase de instalação da cultura do milho, que se vai desenvolver desde agora até meados de junho. Portanto, as regras do jogo em termos de custos são definidas agora. E o preço do produto final só vai ser definido a partir de setembro”.
Os produtores temem que quando for altura de colocar no mercado os cereais semeados agora, o mercado já esteja estabilizado e o produto seja vendido a preços muito baixos face ao que custou a produzir. “Se, e como todos nós esperamos, a guerra terminar e esta questão se resolver nos próximos 30 dias, grande parte dos adubos já estão adquiridos pelos agricultores a um preço muitíssimo elevado, e os mercados do produto final vão estabilizar a partir daí. Provavelmente, ou quase de certeza, que os agricultores vão vender o seu produto final a um preço baixo”, antecipa Jorge Durão Neves. E será mais um ano quase perdido.
O fenómeno das crises de março
Não é a primeira vez que os agricultores se veem nesta situação. Desde 2020 é a terceira. Nesse ano, a pandemia da Covid-19 provocou uma disrupção ao longo de toda a cadeia de abastecimento, incluindo nos custos de produção e dos fertilizantes. “Mas aí foi mais uma questão de logística”, lembra Marco Morais. Dois anos depois foi a invasão russa da Ucrânia, o “celeiro da Europa”, que não só teve consequências no comércio de cereais como também dos fertilizantes, porque, além do gás natural, “a Rússia e a Bielorrússia são grandes exportadores de potássio, um nutriente que é importante nos adubos”, explica Marco Morais.
“É sempre num período em que o hemisfério norte, todo ele, se está a abastecer e a utilizar estes adubos que são, basicamente, constituídos por energia”, sintetiza Jorge Durão Neves. “Se a crise viesse em junho, julho, já tinha comprado os adubos baratos e depois o preço do milho ia subir, que foi o que aconteceu em 2021, em que ganhámos todos dinheiro”, conta João Coimbra. “E este ano é o contrário: custos muito altos ainda sem se saber se o preço do milho vai subir”.
O milho é particularmente relevante por ser muito usado na alimentação animal, tendo por isso impacto em setores como o da carne ou laticínios. Daí que haja algum delay até que o aumento dos preços chegue ao consumidor final. “Não é como as alfaces ou os brócolos, onde o impacto chega dentro de semanas. O milho vai ser colhido em setembro, será transformado pela indústria para rações, depois consumido pelos animais e até que esses animais cheguem ao talho ou à prateleira do supermercado ainda vai levar alguns meses. É uma cadeia muito longa. Por isso é que o agricultor está com o dilema de instalar uma cultura com os custos no pico e sem saber a que preço vai vender o produto final”, explica o presidente da Anpromis. Jorge Durão Neves fala em “dilema” porque há agricultores que admitem nem sequer produzir este ano. “A dúvida é entre semear ou não semear. Ou então semear com metade dos adubos, o que no sistema clássico não é funcional porque depois produz-se menos”, admite o presidente da Agromais.
Há países, como os Estados Unidos ou o Brasil, onde os agricultores estão a pensar em alternativas ao milho. Nomeadamente a soja, que também serve para a alimentação dos animais e não requer a aplicação de fertilizantes azotados para crescer. Só que, ao contrário dos EUA que podem fazer essa rotação de culturas, em Portugal não se semeia soja.
“Há regiões do país onde as alternativas não existem, porque o agricultor que faz milho não vai fazer um câmbio da sua produção para uma cultura que ele não domina ou uma cultura cujo mercado é incerto. Estão vocacionados para produzir milho. Se isto correr mal, eles vão assumir o prejuízo. Mas vão ter imensas dificuldades em prosseguir a sua vida como agricultores”, lamenta Jorge Durão Neves.
Mas essa ainda pode ser uma esperança para os produtores de milho, porque havendo menos oferta no mercado pela menor produção por parte de grandes potências, o preço pode subir. João Coimbra acredita que pode acontecer, “apesar dos stocks estarem muito altos e de ainda termos milho para cerca de sete meses”.

Os produtores e importadores de fertilizantes, por sua vez, até desvalorizam a dimensão da crise. Por um lado, porque “não somos a maior potência agrícola da União Europeia”. Por outro, por “termos um país com muita irrigação”. “Nós somos um país relativamente pequeno à escala europeia. Estamos um pouco menos expostos do que certas agriculturas como França ou os países do leste da Europa, que estão muito centrados nos cereais para a panificação e a alimentação humana. A nossa agricultura acaba por ser mais diversificada, tem mais formas de aplicação, seja através dos produtos granulados, via irrigação ou via aplicação foliar (diretamente nas folhas). E nós temos um cabaz de alimentos muito diversificado, acabamos por estar menos expostos ao consumo puro e duro dos fertilizantes. Mas, ainda assim, somos impactados, obviamente”, acrescenta Marco Morais da Anipfert.
É possível substituir os fertilizantes?
Além de Portugal não estar tão exposto ao custo dos fertilizantes como outros países europeus, há agricultores que ainda estão menos. Há meia dúzia de anos que João Coimbra adotou um modelo de produção que usa muito poucos fertilizantes (“temos cortes de 70% ou 80%”, diz), muito pouca energia e não mobiliza os solos, fazendo sementeiras diretas. É um modelo que “há muito em jardins, em hortas urbanas e numa agricultura mais recreativa”, mas é pouco utilizado em escala. Para adotá-lo é preciso arriscar, explica o proprietário da Quinta da Cholda. “É complexo, temos uma base tecnológica muito avançada. Em termos de escala ninguém tinha coragem para fazer isto, mas nós estamos a conseguir demonstrar que é possível produzir muito. Temos muita tecnologia, muita digitalização, muita agricultura de precisão, muita informação, muitos dados”.
Graças ao modelo “natural”, com o qual ainda consegue vender créditos de carbono, João Coimbra diz estar “salvaguardado” do aumento do preço dos fertilizantes. “Isto está a salvar-me, se os preços subirem é margem para mim”.
Segundo a associação dos fertilizantes, tem vindo a ser feito um caminho no sentido de diminuir a dependência deste tipo de produtos em detrimento, por exemplo, de “adubos específicos”, que permitem ao agricultor “produzir mais com menos”. Mas também dos bioestimulantes, feitos a partir de extratos de algas ou minerais, que “além dos nutrientes associam outras substâncias que potenciam a resposta das culturas de forma mais sustentável e com menos inputs [fertilizantes]”, aponta Marco Morais. “São soluções que já têm um grande peso e que têm vindo a crescer bastante nos últimos anos”.
Mas para os agricultores portugueses, as alternativas aos fertilizantes não chegam. Não quando concorrem em condições que consideram “desleais” com produtores de países autorizados a utilizar biotecnologia, ou seja, alterações genéticas que a União Europeia não permite. “Um agricultor norte-americano tem sempre a hipótese de alterar o milho para soja, onde o custo dos fertilizantes tem menos impactos, mas a Europa não tem condições para isso porque a maior parte da soja, que é feita na América do Norte e na América do Sul, é geneticamente modificada, o que é proibido aos agricultores europeus. Estamos em desvantagem competitiva. Consumimos a soja que vem de lá, porque somos totalmente dependentes de proteína vegetal para rações, mas não podemos produzir”, destaca Jorge Durão Neves da Anpromis.
O responsável dá o exemplo do Brasil que “nos últimos 30 anos passou de importador de milho a segundo maior exportador mundial. E a Europa nos últimos 12 anos, perdeu quase um milhão de hectares de milho e passou de exportador líquido de milho a segundo maior importador mundial. Precisamente por não ter ferramentas de biotecnologia que permitam aos agricultores serem mais competitivos. É este o caminho que a Europa quer prosseguir? Vamos deixar crescer mato nos campos agrícolas? Se é isso que a Europa pretende, então que assuma. Sinto que o sentimento é de desistência. Os agricultores, e nomeadamente os produtores de milho, são muito resilientes. Tentamos sempre ir buscar tudo o que é inovação e as melhores práticas agrícolas para que, por via da produtividade e da redução dos custos, consigamos sobreviver. Mas isto chega a uma certa altura e tem limites”, lamenta Jorge Durão Neves.
A mesma mágoa é partilhada pelos produtores de arroz, que este ano, além do aumento dos custos, ainda estão a lidar com o impacto das intempéries do inverno. “Nesta altura devíamos estar a fazer os primeiros trabalhos para preparar os terrenos, mas ainda não conseguimos porque choveu muito e há algumas zonas onde ainda não conseguimos entrar nem avaliar os prejuízos. Mas ainda ninguém deitou a toalha ao chão”, diz Carlos Amaral da associação dos industriais de arroz.
Em março, os fatores de produção, como sementes, adubos e pesticidas, já estão comprados. E os custos mais elevados foram sentidos. Resta saber se no fim o produto será, sequer, vendido. “A Europa não produz arroz suficiente para todo o seu mercado, por isso importa perto de 61% do consumo. Esse arroz vem sobretudo de dois países, Myanmar e Bangladesh, que não pagam direitos de importação nenhuns. Além de não sabermos que cuidados há com a produção, com a qualidade da água e com o uso de fitofármacos”, contesta.
O arroz é produzido, seco, descascado e branqueado. Depois é ensacado, posto nos sacos e vai para a distribuição. “Na fase do branqueamento, na Europa, o custo global das operações ronda os 950 euros a mil euros por tonelada. E o arroz que vem da Ásia por barco chega cá branqueado a 400 euros, por isso não temos hipóteses”, constata Carlos Amaral. Nem mesmo se a subida do custo dos adubos fizer aumentar também o preço nos países exportadores.
“Estamos muito preocupados. Já no ano passado produziu-se arroz a perder dinheiro ou muito perto do limite de rentabilidade, e este ano as coisas estão piores. Neste momento temos muitos stocks de arroz que não conseguimos vender. A UE tem banido muitas moléculas e nós não temos a mesma capacidade de produção porque esses países podem usar produtos que nós não podemos, além de que os trabalhadores ganham um quinto do nosso salário. O nosso produto tem um grande controlo de pesticidas e herbicidas, tem uma grande qualidade, mas fica em stock, não conseguimos vender”, corrobora Pedro Monteiro, presidente da Associação Nacional dos Industriais de Arroz (ANIA).
Os produtores falam numa “pressão insustentável” e, na semana passada, três associações do setor (Anpromis, AOP e ANPOC, a Associação Nacional de Produtores de Cereais) juntaram-se para apelar à adoção de medidas de apoio, entre elas “apoios diretos para mitigação do aumento dos custos dos fatores de produção, nomeadamente nos combustíveis e fertilizantes”. Isto para fazer face ao “risco real de quebra significativa de produção, com impactos diretos na segurança alimentar e no aumento da dependência externa do país”. No caso dos profissionais do arroz, pedem ainda uma cláusula de salvaguarda automática que permita parar as importações quando são excessivas.
E o arroz tem ainda outra característica. “É feito em terrenos muito específicos. Têm normalmente uma cota baixa, com algumas dificuldades de drenagem e a água é, basicamente, o regulador de temperatura. Mas se quisermos fazer neste terreno uma outra cultura, as suas características não o permitem. Na gíria diz-se que em terras de arroz ou faz-se arroz ou faz-se arroz”. “Não se faz” é o melhor preço.