O território marcado pela passagem do incêndio de Pedrógão Grande em 2017 está preocupado com a aproximação do verão, depois de a tempestade de janeiro ter deixado centenas de quilómetros de caminhos florestais impedidos e mais combustível no terreno para arder.
Em Pedrógão Grande, a Câmara Municipal realizou voos com drones para perceber o estado do território após a passagem da tempestade Kristin, em janeiro, e o retrato deixou o presidente do município, João Marques, preocupado: “Quase todos os caminhos florestais estão intransitáveis”.
Segundo o autarca, as equipas de sapadores da associação local de produtores e máquinas do município irão começar em breve os trabalhos de remoção.
Mas João Marques admite que será difícil dar resposta a tudo, mesmo com um prazo alargado para a limpeza de terrenos até 30 de junho para os municípios abrangidos pela calamidade.
“O período dos incêndios está a chegar e estamos muito preocupados, porque os principais caminhos florestais estão completamente impedidos”, diz à agência Lusa o presidente da Câmara de Pedrógão Grande.
Em Pesos, aldeia daquele concelho, Fiona e Adrian Wisher, já se começaram a preparar para a eventualidade de o fogo chegar.
“Temos os tanques de água cheios e temos andado a limpar o terreno”, conta Fiona, que se mudou com o marido há cinco anos para Pedrógão Grande e que ganharam outra consciência para o risco de fogo depois de terem vivido o incêndio de outubro de 2017 em Tábua, no distrito de Coimbra.
O casal do Reino Unido tem o seu terreno impecavelmente limpo, mas ao lado veem-se árvores caídas e um caminho florestal impedido por troncos partidos pelo vento.
“Temos muita consciência do risco. Se for preciso passar um veículo, não há hipótese”, alertou Adrian Wisher.
O presidente da Câmara de Ansião, Jorge Cancelinha, nota que será impossível limpar tudo no concelho afetado em 2017 e em 2022 pelos incêndios e que agora se depara com estradas florestais bloqueadas e muitas árvores caídas.
“Vamo-nos focar em libertar caminhos florestais e trabalhar nas faixas de gestão de combustível”, disse, referindo que os prazos estipulados para os proprietários limparem os seus terrenos “é fantasia”.
Com 600 quilómetros de caminhos florestais, Jorge Cancelinha diz que tudo tem sido feito exclusivamente com meios das autarquias e alertou que faltam recursos.
Para o presidente da Junta de Freguesia de Alvaiázere, Carlos Pinto Trindade, essa é a grande preocupação que assume neste momento: “Daqui a dois meses, já se começa a falar em fogos e temos muitos caminhos florestais para limpar”.
O autarca espera que possam surgir meios do Estado central, considerando que as autarquias, por si só, não terão capacidade.
Para o especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas, “há uma urgência de retirar toda ou uma boa parte da madeira que caiu ao chão”.
“Não são apenas os troncos, são as copas que estão a secar e que representam um acréscimo de biomassa junto da superfície. Se houver algum foco de incêndio, essa biomassa vai estar disponível para arder”, notou o também autor de um relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande.
Além desse risco, o especialista nota que árvores que não estão completamente caídas poderão funcionar “como uma escada para levar o fogo da superfície até às copas”.
“Quando o fogo atinge as copas das árvores, a carga de biomassa está mais sujeita ao vento e liberta energias ainda superiores, tornando o combate quase impossível”.
Além disso, os caminhos e estradas impedidos tornam o combate inicial a incêndios mais lento e difícil, além de poder tornar mais arriscado o trabalho dos bombeiros, afirmou.
“Todo o esforço é pouco para se fazer essa limpeza“, vincou, referindo que, no caso do Pinhal Interior, apesar de não ter sido tão afetado pela intempérie como Leiria ou Marinha Grande, apresenta uma orografia que torna o risco de incêndio maior.