Chegamos ao Coliseu dos Recreios perto das 15 horas. À porta da entrada dos artistas estava um pequeno batalhão de jornalistas internacionais com os gravadores e os blocos de notas prontos para entrevistas rápidas com a artista portuguesa. Faltavam seis horas para o início do espetáculo.
É a primeira vez que MARO atua no Coliseu dos Recreios e logo com a sala esgotada. É um concerto especial por todas as razões — também por quem estava na plateia e nos bastidores. O Observador acompanhou a artista em exclusivo: antes, durante e depois do concerto.
Depois de ter passado por 16 cidades europeias onde apresentou SO MUCH HAS CHANGED, o novo álbum nasceu de uma fase de grande mudança, tanto a nível pessoal como artístico, e revela-se como um registo que a própria cantora e compositora assume como profundamente introspetivo, atravessado por um sentimento de gratidão e por uma clara consciência do caminho que a trouxe até aqui.

Os bastidores de um concerto com “duas famílias”
Os jornalistas internacionais são guiados pelo backstage do Coliseu até ao segundo piso. Chegados ao corredor dos camarins, vão entrando um a um, pela porta 203. MARO cumprimenta todos com um sorriso e um abraço. Durante as entrevistas a artista alterna entre água natural, água de coco e chá de gengibre — essenciais para manter a voz cuidada e pronta para o concerto daquela noite, especialmente num dia em que está “aflita” porque está “rouca”. Confessa ao Observador que beber muita água já é parte do dia a dia, tendo concerto ou não, mas neste final de tarde a “dose” teve de ser “reforçada” porque “como estou rouca e vou puxar pela voz, espero não ficar afónica para o Porto [concerto no dia 28 de março, este sábado]”. Mais tarde, já a colocar os auricolares in-ear, e a menos de 10 minutos de pisar o palco, MARO desabafa que conseguiu recuperar um pouco a sua voz.
De 15 em 15 minutos, as entrevistas vão-se sucedendo e o tempo vai passando. Há perguntas sobre a conceção do novo álbum, sobre a digressão que lhe corresponde — e claro, sobre o concerto no Coliseu. No corredor, o silêncio impera e só é interrompido pelo dedilhar da guitarra de Manuel Rocha, músico que toca com MARO há vários anos e que está no camarim ao lado. O passo que se segue é o soundcheck. A banda começou 30 minutos antes. MARO já parte para o último ensaio com um ligeiro atraso de 20 minutos, mas nada que lhe pareça colocar pressão extra. Antes de ir tranquilamente até ao primeiro piso, ainda diz ao Observador que o facto de já estarem a meio desta digressão internacional faz com que “o nervosismo dê lugar ao entusiasmo antes do concerto. Já fizemos várias datas e já sabemos o que temos de fazer para correr bem”.




Ao sair da zona dos camarins, ouve-se a banda em todos os cantos e recantos. MARO desce no elevador com o técnico de luz, o fotógrafo e a videógrafa. O ambiente é descontraído, os sorrisos são constantes e as gargalhadas altas, mas o ambiente fica ligeiramente menos alegre quando MARO pisa o palco do Coliseu pela primeira vez e percebe que a distância entre a linha da frente do público e os músicos é “demasiado grande”. A artista dispara várias sugestões para atenuar essa distância, mas nenhuma delas é aceite por motivos técnicos e por limitações impostas pela própria sala. As sugestões ora são em português, em espanhol, ou em inglês. Esta mistura de idiomas é fruto da multiculturalidade da equipa de MARO — há técnicos espanhóis, alguns elementos da banda são brasileiros e a videógrafa é alemã, por exemplo.
Após inúmeras tentativas de arranjar uma solução para atenuar o espaço “vazio” em cima do palco, MARO acaba por se resignar ao que está à sua frente. “Era suposto ser o melhor concerto e vai ser o pior?“, a resposta a esta pergunta foi rápida a chegar: “Claro que não. Podemos sempre ir à frente do palco, no final do concerto vamos conseguir atingir os 20 mil passos diários“, diz Carbeau, multi-instrumentista da banda, em tom de brincadeira. O resto dos testes seguiram com boa disposição, algo “normal” naquele grupo “tão unido” — palavras dos próprios. Para MARO, esta tour só fazia sentido com os quatro músicos que a acompanham, “pessoas especiais, sensíveis, bons seres humanos, além de extremamente talentosos”. “Os músicos que estão no palco comigo são família, são importantes na minha vida”, diz-nos. A assistir a isto tudo está a mãe da artista, sentada no meio da plateia, a mesma que daí a poucas horas vai estar completamente repleta. Na zona da entrada do Coliseu, os irmãos de MARO vão ultimando os pormenores na banca de venda de merchandising.
Durante o soundcheck vão-se afinando os últimos detalhes de som e de luz. Ao mesmo tempo, MARO sabe da importância do conteúdo para as redes sociais e por duas vezes deu indicações à sua videógrafa de como queria que fossem gravados e editados dois dos vídeos.: “Quero fazer um vídeo em que tenho o Coliseu vazio e depois tu fazes um movimento rápido e cortas para uma gravação em que eu tenho o Coliseu cheio. Mas o movimento tem mesmo de ser rápido em ambas as gravações para que a transição seja impercetível na edição“. Para MARO, estas indicações são tão importantes como naturais naturais — no início da carreira era a própria que filmava e editava os vídeos.
Os testes com a banda chegam ao fim e o técnico de som aproxima-se de MARO para perguntar se o convidado surpresa já chegou. A resposta é afirmativa e poucos momentos depois EU.CLIDES chega ao palco do Coliseu. MARO costuma ter sempre um convidado nos concertos (em Inglaterra teve Jacob Collier, amigo de longa data) e em Portugal a escolha foi alguém que a cantora “admira imenso”. EU.CLIDES começa a afinar a guitarra em palco. Esta última fase do teste de som faz parte do momento acústico que a protagonista da noite considera “essencial” neste concerto. “Queria que houvesse um momento que marcasse o concerto, que desse para respirar de maneira diferente e depois voltar, para fechar lá no alto”.
Os dois fazem o ensaio, tocam uma canção de cada um e dá-se por concluído o soundcheck minutos depois. Mas não é por isso que MARO pode ir descansar por breves momentos antes do concerto. Os artistas vão para um camarim vazio e voltam a praticar os acordes de “99”, a música de EU.CLIDES que vão tocar daqui a menos de duas horas.
“‘Bora, pessoal! It’s Showtime”: o momento do concerto
Já tudo ensaiado e testado é agora o único momento em que MARO pode estar sozinha e a tentar relaxar antes de encarar de frente um Coliseu esgotado. Admite ao Observador que se sente “entusiasmada” porque este concerto é diferente dos outros. Este concerto é especial por ser no Coliseu, uma sala icónica , mas não só. A artista toca na sua cidade e com muita família a ver. “Vão estar cá as minhas avós, uma delas tem 96 anos, vão estar também os meus pais, os meus primos… são muitas pessoas importantes para celebrar este momento que vai ficar na memória”.
MARO prefere não comer nada antes do concerto, o jantar pode ficar para depois, diz-nos — mas não se trata de superstição pré-concerto. Há, no entanto, um ritual que começou antes da digressão e que se repete em todos os concertos: o abraço de grupo entre os músicos que vão pisar o palco, como uma equipa no balneário antes do início do jogo. O mantra é bastante simples: “‘Bora ser felizes, ‘bora aproveitar, ‘bora perceber que é um privilégio tocar para um grupo de pessoas que escolheu estar ali a ver-nos”.
Ritual cumprido, adrenalina no máximo e a expectativa das 4200 pessoas que esgotaram a sala continua a crescer. Primeiro, entram os músicos, tocam por breves segundos uma melodia instrumental e só depois MARO começa a cantar, ainda fora do palco. Quando aparece perante o público, tudo se concretiza.
O alinnhamento inclui várias canções do novo álbum, o momento com o convidado EU.CLIDES e Saudade, Saudade. A multidão foi cantando em coro, sobrepondo-se muitas vezes à voz da própria cantora. Os agradecimentos foram-se redobrando ao longo do concerto. Primeiros aos músicos com quem partilha o palco, depois à família, à editora, à agência e ao público.
O perfecionismo no final do concerto e os abraços a duas pessoas especiais
Depois das últimas despedidas e da fotografia com os fãs que encheram o Coliseu, MARO sai de palco em êxtase, rodeada pela banda e com um sorriso de orelha a orelha. Os abraços multiplicam-se e ouve-se “correu bem, foi um showzaço. Parabéns, pessoal!“. No entanto, instantes depois, a artista pergunta ao seu fotógrafo se deu para perceber se desafinou ao cantar FEELING SO NICE. Resposta negativa. Ainda houve tempo para lamentar a caminhada por entre o público, que acabou por não acontecer por questões técnicas.
À porta da zona dos camarins, os familiares e amigos mais próximos vão chegando e fazendo uma fila informal para abraçar a estrela da noite. Duas pessoas chegam um pouco depois de todas as outras e têm prioridade para passar à frente: as duas avós de MARO. Os abraços são calorosos, recheados de felicidade e orgulho. As palavras são doces e aparecem acompanhadas de sorrisos. A artista está mesmo “em casa”, mas por pouco tempo: segue-se o concerto no Coliseu do Porto. Depois disso, a digressão do novo álbum vai fazer uma breve pausa e regressa no final de setembro, nos Estados Unidos da América.











































