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(A) :: As aventuras de José Luís Carneiro na Venezuela e a encruzilhada do PS

As aventuras de José Luís Carneiro na Venezuela e a encruzilhada do PS

Não lembra ao diabo que o líder do PS visite uma ditadura alvo de duras sanções económicas da União Europeia, com centenas de presos políticos e que é um dos países mais corruptos do mundo.

Luís Rosa
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1 Comecemos pelo básico. A Venezuela de Hugo Chavéz, de Nicolás Maduro e agora de Delcy Rodriguez não é um Estado de Direito, é uma ditadura. A liberdade de expressão e de imprensa não existem e não é possível saber com rigor o número de cidadãos que o regime venezuelano aprisionou por puro delito de opinião ou divergência política (dados da ONG Foro Penal). O êxodo de mais de 8 milhões de venezuelanos devido ao colapso económico provocado pelas políticas da revolução bolivariana tem um custo económico, social e humano incalculável.

E, last but not the least, a Venezuela de Chavéz, Maduro e Delcy Rodriguez é governada por uma cleptocracia que junta militares e marxistas que construíram uma corrupção endémica de tal ordem que o país se transformou num narco-estado — como a Guiné-Bissau, mas a uma escala muito maior. A Venezuela é dos países mais corruptos do mundo onde os mecanismos de controle são inexistentes, como atestam vários indicadores de referência, como o da Transparência Internacional e do Banco Mundial.

O que acabei de descrever não é matéria de opinião, são factos reconhecidos por todas as organizações internacionais credíveis como a União Europeia e as Nações Unidas e inúmeras ONG que se dedicam aos direitos humanos ou a temas ligadas à corrupção e ao tráfico de droga.

Acresce a tudo isto que a União Europeia tem em vigor desde 2017 (e renovadas em 2025) um conjunto de sanções económicas bastante vastas que foram aplicadas não só à Venezuela, como a figuras de topo do regime venezuelano, como Delcy Rodriguez. Tudo porque a UE não reconhece Nicolás Maduro (logo, Delcy Rodriguez por arrasto) como líder legítimo da Venezuela, mas sim Juan Guaidó (como presidente interino em 2019) e, posteriormente, Edmundo González (como presidente eleito em 2025).

Ou seja, Maduro e a sua braço-direito Delcy Rodriguez manipularam e promoveram diversas fraudes eleitorais para se perpetuarem no poder.

2 Daí que Delcy Rodriguez seja precisamente um dos titulares de cargo político que são objeto concreto dessas sanções económicas. Porquê? Vamos citar na íntegra o texto da decisão do Conselho Europeu de 2025 (e que copia o texto da resolução origina de 2017):

“Vice-presidente da Venezuela e, desde agosto de 2024, ministra do Petróleo. Antiga ministra da Economia, das Finanças e do Comércio. Antiga presidente da Assembleia Constituinte ilegítima e ex-membro da Comissão Presidencial encarregada da instituição da Assembleia Constituinte ilegítima. A ação que desenvolveu na comissão presidencial e, posteriormente, enquanto presidente da Assembleia Nacional Constituinte ilegítima foi contrária à democracia e ao Estado de direito na Venezuela, tendo nomeadamente usurpado os poderes da Assembleia Nacional, usando-os para atacar a oposição e impedir a sua participação no processo político.”

Resumindo e concluindo: José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, decidiu fazer uma visita oficial de quatro dias acompanhado de Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, a uma ditadura que é, ao mesmo tempo, um dos países mais corruptos do mundo e que é alvo de fortes sanções económicas da União Europeia desde 2017 por não respeitar o Estado de Direito e manipular eleições.

Pior: o líder de um dos principais partidos democráticos portugueses resolveu pedir uma audiência a uma ditadora chamada Delcy Rodriguez que é um dos políticos venezuelanos contra quem a UE tomou as “as medidas necessárias para impedir a entrada no seu território ou o trânsito pelo mesmo” por ser uma das “pessoas singulares responsáveis por violações graves dos direitos humanos ou pela repressão da sociedade civil e da oposição democrática na Venezuela” e por promover ”
ações, políticas ou atividades” que comprometem “a democracia ou o Estado de direito na Venezuela”.

Pior ainda: Carneiro anunciou o encontro com pompa e circunstância com a substituta de Nicolás Maduro mas a reunião não se verificou porque Delcy teve coisas mais importantes para fazer e deixou o secretário-geral do PS à espera…

A pergunta a fazer depois de ler todos estes factos é simples: o que se passou pela cabeça do supostamente moderado José Luís Carneiro para ir visitar uma ditadura como venezuelana? Esta visita é totalmente incompreensível à luz dos princípios e valores históricos do PS de Mário Soares — que foi invocado, de forma quase criminosa, por Eurico Brilhante Dias como a fonte de inspiração para esta visita a Caracas.

Já agora, uma última informação: quando José Luís Carneiro ou estava em viagem ou já tinha aterrado em Caracas, foi noticiado em Espanha que José Luís Ábalos, ex-ministro dos Transportes, Mobilidade e Agenda Urbana de Pedro Sanchez, revelou no processo judicial em que é um dos principais arguidos que tinha tido um encontro em 2020 com Delcy Rodriguez que lhe terá prometido a aquisição de seis milhões de barris de petróleo bruto para financiar o Partido Socialista Operário Espanhol e a Internacional Socialista, liderada por Pedro Sánchez desde 2022.

3 Ou antes ou depois de ter sido ‘deixado à espera’ por Delcy Rodriguez, José Luís Carneiro, acompanhado pelo brilhante Eurico e por Paulo Pisco (diretor do Departamento das Comunidades do PS), resolveu se deixar fotografar com a mão numa espécie de mural de homenagem a Jorge Rodriguez, pai de Delcy.

E quem foi Jorge Rodriguez? Foi um guerrilheiro comunista que liderou o sequestro de um empresário americano chamado William Niehous, líder de uma multinacional de embalagens de vidro. Rodriguez liderou um comando de uma organização de extrema-esquerda que raptou Niehous na sua casa em Caracas e o manteve em cativeiro durante três anos e quatro meses. A organização liderada por Rodriguez exigiu o pagamento de um resgate de mais de três milhões de dólares por considerar Niehous um alegado inimigo da Venezuela.

No final da história, Jorge Rodriguez foi preso pelos serviços secretos venezuelanos e terá morrido sob tortura durante interrogatórios. Já William Niehous foi encontrado amarrado a um poste e libertado com vida. Mais tarde, dois dos sequestradores que sobreviveram foram conselheiros de Hugo Chavéz quando este assumiu o poder.

Mais uma pergunta: o PS passou a apoiar os atentados que as Brigadas Revolucionárias e as FP-25 perpetuaram no Portugal pós-25 de Abril? O PS de José Luís Carneiro, que nunca apoiou organizações terroristas ou paramilitares para tomar o poder durante a ditadura do Estado Novo, pretende promover alguma ação revisionista (como diziam os marxistas nos anos 60 e 70) sobre a história dos socialistas portugueses?

A minhas perplexidade é ainda maior quando estamos a falar de José Luís Carneiro — que supostamente está nos antípodas do esquerdismo do seu antecessor Pedro Nuno Santos

4 A situação é ainda ainda mais risível quando lemos as justificações de Carneiro para o pedido de audiência a Delcy Rodriguez: “pedir a libertação dos detidos políticos luso venezuelanos” e “manifestar a disponibilidade para promover a cooperação inter-parlamentar, tendo em vista uma transição política pacífica e capaz de dar um futuro de estabilidade à Venezuela“.

Em primeiro lugar, é absolutamente caricato o pedido de libertação dos “detidos políticos luso-venezuelanos” quando, segundo a ONG Foro Penal, ainda “permanecem 508 presos políticos” nas prisões venezuelanas, sendo igualmente certo que ainda existem mais de 1.000 pessoas que foram presas de forma arbitrária. Além de muitos venezuelanos, existem ainda presos políticos com diferentes nacionalidades: “argentinos, chilenos, cipriotas, colombianos, cubanos, equatorianos, espanhóis, franceses, guianenses, italianos, libaneses e um trinitário”.

Por acaso, os portugueses valem mais do que os restantes presos políticos? Se José Luís Carneiro quer apelar a uma ditadora que liberte presos políticos, deve fazê-lo para todos os presos, independentemente da sua nacionalidade. Tão simples como isso.

É verdade que, desde que assumiu funções, Delcy Rodriguez já libertou cerca de 700 presos políticos — o que é um passo positivo, como a própria União Europeia reconheceu (mas sem que tenha levantado ainda as sanções económicas).

Contudo a forma como os presos políticos estão a ser libertados também deixa muito a desejar. Não só os indultos que estão a ser concedidos não eliminam o cadastro criminal ou os processos criminais que deram origem à condenação, como a amnistia decretada não reconhece a violação dos direitos humanos, nem obriga a investigações independentes aos processos judiciais que estão na origem das condenações.

Numa palavra: quem foi libertado, pode voltar a ser rapidamente preso por razões políticas ou delito de opinião.

5 Por tudo isto, não é de espantar que a visita à Venezuela tenha dividido o PS. Ver figuras tão diferentes como Francisco Assis — que conhece muito bem o dossiê venezuelano — e Marta Temido a concordarem na avaliação de que esta espécie de diplomacia paralela de José Luís Carneiro foi um desastre… é algo preocupante para a liderança de Carneiro.

Mas os problemas do PS não se resumem à falta de jeito de José Luís Carneiro para lidar com dossiês que exigem perícia diplomática. Muito longe disso.

Os socialistas e José Luís Carneiro têm, para começar, dois grandes problemas:

  • A credibilidade das políticas alternativas do PS ao Governo Montenegro continua a ser baixa. Por um lado, continuam a insistir em soluções que já aplicaram e que não resultaram. Por outro lado, apresentam soluções diferentes das que apresentaram nos últimos oito anos, o que suscita outra pergunta: por que razão não as aplicaram antes, nomeadamente quanto tinham maioria absoluta?
  • Carneiro está ser um perfeito exemplo do pior do guterrismo, com uma indecisão gritante ou incapacidade de impor uma estratégia de liderança. O que tem um socialista moderado, como José Luís Carneiro, a ver com o esquerdismo ou uma aversão primária ao PSD de figuras socialistas como Mariana Vieira de Silva, Pedro Delgado Alves ou Isabel Moreira?

Compreendo que José Luís Carneiro não controle a o grupo parlamentar do PS — que foi construído por Pedro Nuno Santos — e está a ter cuidado para não ser ‘apanhado na curva’ pelos seus camaradas. Mas a ausência de uma estratégia de moderação do discurso político socialista, e a falta de capacidade executiva para impor uma linha estratégica, vai agravar ainda mais os problemas internos de José Luís Carneiro.

Mais: como será possível ao PS recuperar o eleitorado perdido dos jovens com uma visão super-conservadora da lei laboral e da Segurança Social? Os socialistas são dos piores partidos a conquistarem o voto dos jovens.

Como será possível reconquistar a classe média se são contra uma reforma fiscal que diminua os escalões e reduza de forma estrutural os impostos e as contribuições para a Segurança Social?

E se ainda mantém a oposição às Parcerias Público Privadas na área da saúde e aos contratos de associação com escolas particulares — como querem melhor a saúde ou a qualidade do ensino?

E, finalmente, se impedem qualquer reforma da Justiça digna desse nome com argumentações fantasiosas sobre a violação do Estado de Direito e o fim da Democracia, como querem que a Justiça saia do marasmo em que se encontra? Sobre a Operação Marquês não há um socialista que consiga abrir a boca…

O PS tem um longo caminho pela frente até reconquistar a confiança dos eleitores — e convém que não se apresse porque não tem nada a ganhar com isso. Veremos as novidades que o congresso dos socialistas nos vai trazer nesse campo.

Texto alterado às 18h19