As reacções subsequentes ao grave atentado do passado dia 23 de Março, quando um homem atirou um cocktail molotov em plena Marcha pela Vida em Lisboa, ilustram bem a lamentável duplicidade de critérios que é aplicada à violência quando tem origem – como tudo aponta terá sido o caso – na extrema-esquerda. O facto de o engenho incendiário não ter deflagrado evitou que o ataque contra uma marcha pacífica em que estavam famílias, incluindo crianças e bebés, tivesse provocado uma verdadeira tragédia. Não devia no entanto haver qualquer dúvida sobre a gravidade do ataque nem sobre a perversão ideológica extrema que lhe está subjacente.
Miguel Morgado fez aquele que foi porventura o melhor comentário global sobre este atentado terrorista contra a Marcha pela Vida e sobre a inaceitável duplicidade de critérios perante o discurso de ódio e a violência da extrema-esquerda. O alerta lançado ao novo Ministro da Administração Luís Neves é particularmente importante dada a actuação da Polícia Judiciária, pela qual o actual MAI foi anteriormente responsável máximo. Existem certamente movimentos de extrema-direita que constituem um perigo real e que devem ser monitorizados e, sempre que concretizem o seu potencial de ameaça, duramente reprimidos. Mas, como o ataque perpetrado a 23 de Março veio evidenciar mais uma vez de forma clara, o perigo que vem da violência da extrema-esquerda não é, de todo, menos real. Daí que não seja compreensível nem aceitável que o foco das autoridades no combate aos riscos de criminalidade associada ao extremismo político pareça desproporcionalmente focado nas ameaças potenciais com origem na extrema-direita quando estamos simultaneamente confrontados hoje com a violência concretizada pela extrema-esquerda.
No panorama mediático a duplicidade de critérios é – infelizmente – igualmente notória. O atentado realizado – e que só não teve consequências bem piores porque felizmente o cocktail molotov não explodiu no meio dos participantes da Marcha pela Vida – foi descrito em vários media como uma mera “tentativa de ataque” ou como um relativamente inócuo “incidente”. Atente-se por exemplo na descrição feita nesta notícia: “A Marcha pela Vida, realizada este sábado à tarde no centro de Lisboa, terminou com um incidente, sem feridos, em que uma pessoa atirou um objecto incendiário para o meio dos participantes.”
Os leitores ficam convidados a imaginar qual teria sido o tratamento mediático dado a um “incidente” idêntico mas em que tivesse sido um neo-nazi a atirar um cocktail molotov contra, por exemplo, uma marcha LGBT. Como resumiu Alberto Gonçalves: “Não foi descuido, nem “acidente”. É óbvio que no Sábado houve em Lisboa um atentado terrorista, o qual só não matou gente por incompetência do criminoso. O criminoso é de esquerda, e quis punir com a morte manifestantes contra o aborto, crianças incluídas. Ao contrário, aliás, do que as nossas televisões dizem e talvez pensem, na vasta maioria das vezes a violência e o terrorismo vêm da esquerda (os dados da Europol e séculos de História confirmam-no). Infelizmente, uma avaria psiquiátrica colectiva ainda leva a que se trate o terrorismo da esquerda como “libertador”: terá sido por isso que o terrorista de Lisboa já foi solto. Enquanto se prende cidadãos de direita por “discurso de ódio”, soltam-se “activistas” de esquerda que lançam bombas de amor.”
O tema é ainda mais relevante porque a história recente (e não tão recente) de Portugal demonstra que o terrorismo de extrema-esquerda é uma ameaça real. Basta recordar os anos de chumbo das FP-25 de Abril e as múltiplas vítimas do terrorismo de extrema-esquerda, incluindo Nuno Dionísio, o bebé de quatro meses que em 1984 foi vítima mortal de um atentado bombista levado a cabo pelas FP-25 de Abril (a este propósito nunca é demais também recomendar o livro “Presos por um fio: Portugal e as FP-25 de Abril”, de Nuno Gonçalo Poças). Importa recordar e salientar que os brutais actos terroristas das FP-25 foram levados a cabo em plena democracia e que as amnistias políticas posteriormente associadas ao processo ficam como manchas no actual regime.
Ora, o aumento do discurso de ódio wokista contra os defensores da vida vem agora renovar e aumentar os riscos associados à violência da extrema-esquerda também entre nós. Carlos Bobone avança aqui com uma hipótese explicativa interessante sobre a relevância política do foco nas questões da vida mas, independentemente de a subscrevemos ou não, é inequívoco que o extremismo de esquerda neste domínio é cada vez mais notório. Perante este cenário, urge reafirmar que os atentados terroristas não podem ser tolerados e exigem respostas robustas das autoridades. Toda a violência política deve ser rejeitada e não pode haver duplicidade de critérios em função da orientação política dos movimentos onde essa violência tem origem. A alternativa será caminharmos para uma guerra civil latente. Esperemos que ainda consigamos ir a tempo de a evitar.