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(A) :: O lado da violência

O lado da violência

Ninguém disparou contra Kamala Harris. Ninguém regou com gasolina manifestantes do clima. A violência vem sempre do mesmo lado.

Rui Ramos
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Um militante da extrema-esquerda ataca com um cocktail molotov pessoas, incluindo crianças, que participam na Marcha pela Vida. Foi no fim de semana. Desde aí que discutimos o que aconteceu. Para a imprensa oficial, começou por ser um “incidente”, isto é, um fait-divers. Houve quem se tivesse revoltado: é só isso que consegue ver um jornalismo a quem um qualquer par de neo-nazis espiados pela polícia a trocar mensagens em privado inspira logo manchetes tétricas sobre a “ameaça da extrema-direita”?

A cegueira do jornalismo tem uma origem. Decorre da operação política a que os partidos de governo da esquerda ocidental recorreram nos últimos dez anos para se manterem no poder apesar do fracasso das suas políticas. Os desequilíbrios financeiros e a estagnação económica deram razão aos liberais. As migrações descontroladas fizeram expandir partidos nacionalistas. Algumas esquerdas reviram os seus programas, como os sociais-democratas na Dinamarca. Mais frequentemente, porém, recorreram ao ilusionismo.

Por um lado, anexaram os votos da extrema-esquerda, negociando com os seus partidos ou adoptando as suas causas. Partidos que ensinam que o poder deve ser tomado pela violência e que idealizam ditaduras entraram na área do governo, como aconteceu em Portugal em 2015. As suas causas mais extremas, da ideologia de género ao milenarismo climático, foram perfilhadas pelo Estado, fundações e grandes empresas. O seu activismo violento foi desculpado como impaciência com as “injustiças”, como fizeram os líderes do Partido Democrata nos EUA, durante o Verão de 2020, perante a campanha de confrontos e de destruição a pretexto da morte de George Floyd.

O branqueamento da extrema-esquerda e da sua violência articulou-se com a demonização da direita e das suas ideias. As esquerdas de governo não tiveram escrúpulos em tratar conservadores, liberais e nacionalistas, à vez ou todos juntos, como “fascistas”, à velha maneira da propaganda soviética. Entre as direitas parlamentares, ao contrário do que acontece à esquerda, não há herdeiros assumidos dos totalitarismos revolucionários do século XX. Mas é inútil lembrar isso às esquerdas: uma vitória eleitoral da direita passou a ser necessariamente o “fim da democracia”, e qualquer reforma sua um “retrocesso civilizacional”. A lógica é aqui irrelevante. Nos EUA, os democratas comparam Trump a Hitler, enquanto esperam ganhar as eleições legislativas de Novembro. Não vale a pena explicar-lhes que sob a ditadura de Hitler nenhuma oposição ganhava eleições.

A demonização da direita e a recuperação de uma extrema-esquerda que nunca se converteu à democracia tiveram consequências. Enviesaram ainda mais um jornalismo já absorvido pela esquerda, o que explica que um atentado terrorista da extrema-esquerda só possa ser um “incidente”. De modo mais sinistro, tiveram o efeito de apontar líderes ou movimentos de direita como alvo legítimo à violência de qualquer mentecapto esquerdista: se todos os que não são de esquerda são Hitleres, se ameaçam a liberdade e a democracia, é claro que merecem uma bala ou a imolação pelo fogo. Nos EUA, Trump escapou por pouco a ser assassinado. Charlie Kirk não teve a mesma sorte. Aqui, não é correcto lamentar, de modo vago e equidistante, a polarização política. Ninguém disparou contra Kamala Harris. Ninguém regou com gasolina manifestantes do clima. A violência política vem sempre do mesmo lado, que é o lado que nunca se conseguiu libertar da antiga cultura revolucionária e que agora, em desespero, não hesita em usar uma retórica da guerra civil para se agarrar ao poder. Talvez seja tempo de reparar nisso.