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(A) :: Cavaco quer Governo com coragem e "firmeza" contra oposição que "bloqueia" reformas

Cavaco quer Governo com coragem e "firmeza" contra oposição que "bloqueia" reformas

Num artigo publicado no Expresso, Cavaco Silva deixa fortes críticas a Chega "sem credibilidade", de quem Sá Carneiro estaria bem longe. E diz que pouco crescimento vai fortalecer Ventura.

Mariana Lima Cunha
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Um apelo para que o Governo concretize reformas de fundo no país, enfrentado uma oposição que as quer “obstruir”. O antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, que tem sido uma figura inspiradora para a governação de Luís Montenegro, escreve esta quinta-feira, na edição semanal do Expresso, um artigo de opinião intitulado “O dinheiro do Estado não cai do céu” em que argumenta sobre a importância das reformas, deixando ataques violentos às “forças de bloqueio” — em especial o Chega.

Reconhecendo que o trabalho do Governo no contexto atual é “muito difícil” e que as dificuldades na aprovação de reformas são muito maiores do que na altura em que governou, Cavaco admite que o ministro das Finanças tem sido um “garante” da sustentabilidade financeira do país — e culpa a oposição por, “carecida de discernimento“, esquecer a “quase bancarrota a que o Governo do PS conduziu o país em 2011”.

Mesmo neste cenário de dificuldades, Cavaco apela ao Governo para que tenha visão de futuro, ambição e “coragem política“, sem se deixar “aprisionar pelos problemas da conjuntura”. Aliás, deixa um conselho para que esse objetivo seja cumprido: assim que anuncia reformas, o Governo deve discuti-las rapidamente no Parlamento — “antes que a comunicação social, as redes sociais e os grupos privilegiados pelo statu quo delas tomem conta“.

Neste texto, Cavaco defende que a interrupção desta legislatura antes do tempo normal — em 2029 — seria um “grave erro para o crescimento da economia”. Primeiro aviso, já a apontar para o Chega: “Sem as reformas necessárias ao crescimento robusto da economia há um sério risco de reforço das forças políticas populistas e de deterioração da qualidade da nossa democracia”.

Por isso, argumenta Cavaco, os progressos na “satisfação das reivindicações dos portugueses” nos três anos que sobram de legislatura dependem diretamente “do discernimento e da firmeza da ação reformista do Governo”, por um lado, e do “grau de obstrução parlamentar às reformas estruturais indispensáveis”, por outro.

Essas reformas “imprescindíveis” devem, para Cavaco Silva, “motivar o atual Governo” a responsabilizar a oposição pelas reformas que não quer e não ajuda a concretizar, respondendo com “uma vigorosa ação de denúncia e responsabilização da oposição à obstrução parlamentar a cada uma das reformas e de esclarecimento da opinião pública”.

Se por um lado Cavaco pressiona o Governo a fazer, mas também a responsabilizar quem na oposição não lhe permite fazer reformas — duas ideias que Pedro Passos Coelho tem defendido publicamente –, o antigo Presidente da República não argumenta a favor de uma aliança com a restante direita, como Passos já fez. E deixa críticas duras ao Chega.

“Sem a realização das reformas estruturais, Portugal continuará a ser um país relativamente pobre e há o risco de um número crescente de eleitores se deixar atrair por um discurso populista de mentiras e ilusões que, se passasse à prática, podia trazer de volta uma austeridade do tipo daquela que os portugueses suportaram na sequência da crise financeira de 2011″, avisa.

Para Cavaco, o Chega mostra-se uma força política “desprovida de uma ideologia minimamente coerente” que usa “o discurso teatral do ódio, do insulto, da calúnia e da mentira”. Não tem, para o antigo Presidente e primeiro-ministro, “credibilidade política”. E deixa uma farpa adicional: apesar de André Ventura tantas vezes mencionar Francisco Sá Carneiro como uma inspiração, Cavaco, tendo sido seu ministro, está “absolutamente convencido de que ele lutaria com todas as suas forças contra o discurso e as ideias do líder do Chega”.

O antigo Chefe de Estado também não poupa o PS, que diz não ter atualmente “discernimento” e estar “enrodilhado em preconceitos ideológicos”, sem qualquer “vontade reformista”. Mas ainda acredita que o partido liderado por José Luís Carneiro acabará por perceber que tem de mudar.