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O Problema não são os Árbitros. É o Jogo

Nunca gostei dos dirigentes e treinadores que centrassem o seu discurso na prestação da equipa de arbitragem. Não quero que copiemos esse exemplo dentro da Igreja.

P. João Basto
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Natal e Páscoa são sempre alturas importantes no calendário cristão. Tal como Setembro é tempo de regresso às aulas, é absolutamente normal que o fluxo noticioso corra no sentido duma curiosidade natural por temas religiosos. Com regularidade, isso cria a sensação que é a altura favorita para publicar escândalos sobre temas religiosos. Tenho outra perspetiva.

Em primeiro lugar, o escrutínio público não só é legítimo como absolutamente necessário. Enquanto Igreja, não podemos querer estar no espaço público e viver num regime de imunidade. Se, por um lado, queremos que a religião, o Cristianismo em particular, e o Catolicismo em especial, sejam visíveis publicamente, temos que, por outro, aceitar que isso envolve análise mediática. Quem tem a ganhar com isto? Antes de tudo, quem é alvo do escrutínio. Por três motivos: primeiro, o escrutínio público obriga a instituição a olhar para as suas próprias falhas e a sair do comodismo; segundo, uma instituição que foge às perguntas gera desconfiança; terceiro, ser alvo de escrutínio mediático significa que a instituição ainda importa.

Posto isto, creio que existe uma distinção a ser feita. Uma notícia nunca é justa ou injusta. Uma notícia é verdadeira ou falsa. Descontextualizar não é um lapso. É mentir. Além disso, o jornalismo não é sacrossanto, e, por vezes, precisava de algumas lições de humildade. Há um jornalismo que cobre toda a realidade dos fenómenos. Que não existe para doutrinar, mas para “contar o que acontece, tal como acontece”, e, no máximo, explicar o que está por detrás deste ou outro fenómeno. Mas também existe outro jornalismo, que atua como o sobrinho que só se lembra que ama o tio solteiro no dia do seu funeral. Só abre a janela da redação quando lhe cheira a escândalo, quando o Papa morre, ou quando lhe apetece ganhar dinheiro à custa do padre trapezista, como fatura com o idoso de 75 anos que completou o segundo doutoramento depois da reforma. É um jornalismo preguiçoso, tão ativista que tenta impingir visões do mundo. Como diria um professor meu: não sabe distinguir entre o padre e o sacristão, mas quer reescrever o catecismo.  Ainda assim, não sei se o indicado é deixá-lo a falar sozinho.

Contudo, enquanto Igreja, temos um problema connosco próprios. Temos um problema connosco próprios, porque achamos que não temos direito ao espaço público e que, por isso, precisamos de pedir licença para falar. Temos um problema connosco próprios, porque temos sempre medo que a manchete seja bombástica. Temos um problema connosco próprios, porque achamos que abandonar o calão eclesiástico é ser infiel ao Evangelho. Temos um problema connosco próprios, porque não aceitamos que o jogo implica notícias positivas e notícias negativas, sem que às últimas se sigam ressabiamentos. Pelo meio, temos dificuldade em marcar positivamente a agenda. Continuamos à espera que um jornalista saia “inopinadamente detrás de um carro”. Deixamos que tudo vá dar ao mesmo tema.

Como sócio de um clube, e adepto de futebol e desporto em geral – à exceção do padel, por uma questão de consciência – nunca gostei dos dirigentes e treinadores que, em comunicados, conferências de imprensa ou caminhadas pós-almoço, centrassem o seu discurso na prestação da equipa de arbitragem. Um verdadeiro adepto exige que a sua equipa vença, mesmo que tenha sido prejudicada. Não quero que copiemos esse exemplo dentro da Igreja. Temos que jogar bem.

Neste contexto, jogar bem tem um significado: oferecer racionalidade e dúvida ao debate. Num mundo onde tudo é um direito humano inalienável e indiscutível, onde qualquer passo é sempre, ou um retrocesso civilizacional, ou uma destruição culturalmente inaceitável, ficamos limitados ao permanente torneiro de cowboys. Mas isso implica, também, abandonar o discurso de miss universo, onde ou tudo é legítimo, ou tudo é apelo redondo às coisas boas, e recusa cobarde das coisas más.

Não só na Igreja, parece-me que o diagnóstico é semelhante ao do gato em Alice no País das Maravilhas: como não sabemos para onde ir, qualquer caminho serve. Queremos reformar, mas sem custo. Queremos resultados, mas tudo é causado pela “conjuntura”. Restará o imobilismo.