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“Caderno Proibido”: o que é e o que guarda o espólio de António Botto na Biblioteca Nacional?

Um novo livro reúne um conjunto de poemas de Botto que ficaram por publicar. O Observador falou com o organizador e com três investigadores sobre a relevância do espólio do autor de "Canções".

Rita Cipriano
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Inês Correia
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No vasto e desordenado espólio de António Botto à guarda da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, existe uma pasta com um conjunto de textos dispersos, de temática homoerótica e pornográfica, que o poeta ponderou reunir num único projeto literário a que chamou “Caderno Proibido”. Provavelmente escritos na primeira metade da década de 1950, no Brasil, numa altura em que Botto vivia num estado de grande isolamento, a maioria dos poemas do “Caderno Proibido” nunca deixaram o espólio. Só recentemente é que o conteúdo da pasta foi publicado na íntegra, numa edição da Guerra e Paz, com organização de Victor Correia. Conjunto de poemas tardios, Caderno Proibido revela uma faceta menos conhecida do poeta que, nos últimos anos de vida, se deixou inquietar por diferentes questões sociais, políticas e religiosas. Os poemas marcam também o retomar de uma abordagem mais direta ao tema do homoerotismo, que aparece diluído nos textos produzidos pelo poeta após o seu estabelecimento no Brasil, para onde se mudou no final da década de 1940.

Os papéis do Caderno Proibido correspondem apenas a uma pequena parte do espólio de Botto, um conjunto amplo e heterogéneo, composto por diferentes tipos de documentos e textos literários do período em que o poeta passou no Brasil. Pouco trabalhado, o espólio esconde, por isso, algumas surpresas e materiais que permanecem inéditos.

Mais de três mil documentos, distribuídos por 36 caixas: o que está guardado no espólio de António Botto?

Nascido em 1897, em Casal da Concavada, uma aldeia do concelho de Abrantes, António Botto, o primeiro português a assumir publicamente a sua homossexualidade e o primeiro escritor português a fazê-lo sem subterfúgios, passou grande parte da vida em Lisboa, para onde a família se mudou quando era ainda criança. Viveu primeiro em Alfama, onde os Botto se instalaram, e depois na Baixa lisboeta. Não se sabe até quando Botto terá estudado, mas a escrita parece ter sido uma paixão antiga. Na década de 1910, terá começado a colaborar com a imprensa escrita, atividade que manteve até ao final da vida, e talvez se tenha também estreado como escritor. Em 1921, publicou a primeira edição de Canções, que teve uma segunda edição, “muito aumentada” e “com um retrato do autor” no ano seguinte, pela editora olisipo de Fernando Pessoa.

Um caso único no panorama literário nacional, Canções, o seu livro de poesia mais conhecido e o que mais impacto teve, aborda de forma inovadora e transparente os temas da homossexualidade e do homoerotismo, numa altura em que os sentimentos homofóbicos dominavam a sociedade portuguesa. A obra deu que falar na imprensa nacional, que lhe teceu as piores críticas por causa do seu teor homoerótico, mas foi com a ação moralizadora da Liga de Ação de Estudantes de Lisboa contra a chamada “Literatura de Sodoma”, dois anos depois, que Botto se tornou verdadeiramente conhecido. Apesar do ataque, que visou também obras de Raul Leal (igualmente publicado por Pessoa) e de Judith Teixeira, Botto não se deixou desanimar e continuou a escrever e a publicar de forma prolífera nos anos seguintes.

"O conteúdo da pasta “Caderno Proibido” não é apenas erótico e pornográfico, ainda que esses sejam os temas mais abordados. Victor Correia notou isso mesmo no prefácio da sua edição, ao afirmar que “há uns poucos poemas que se encontram nos manuscritos do Caderno Proibido que nada têm de homoerótico e muito menos de ‘pornográfico’”. Essas composições abordam questões sociais e políticas que preocuparam o poeta nas suas últimas décadas de vida."

Depois de uma breve temporada em Angola, António Botto ingressou na função pública, onde permaneceu até à sua exoneração, sem direito a pensão, em 1942, acusado de recitar “versos” durante as “horas de serviço” e de oferecer “galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega”. Depois do seu despedimento, o poeta intensificou a colaboração com a imprensa, passando a viver, tanto quanto se sabe, exclusivamente da escrita. Ao mesmo tempo, continuou a publicar livros. Em meados da década de 1940, tomou a decisão de deixar Portugal e partir rumo ao Brasil, onde acreditava ser possível reabilitar a sua carreira literária, que atravessava uma fase de declínio. Contudo, uma vez do outro lado do Atlântico, Botto viu as suas expectativas fracassadas. Como em Portugal, sentia-se desprezado, incompreendido e repudiado pelos seus pares, sentimentos que começou a explorar de forma recorrente na sua poesia tardia. A par disso, as dificuldades financeiras que há muito o preocupavam tornaram-se ainda mais graves no Brasil. Em 1951, foi condenado a uma pena de prisão por não ter pago as despesas de um hotel onde esteve hospedado em São Paulo em 1949. O caso não passou despercebido aos jornais e inspirou um cartoon publicado no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro.

Às dificuldades financeiras aliou-se um declínio físico e mental cada vez mais acentuado. Três anos antes de morrer, foi internado durante quatro meses no Hospital da Santa Casa no Rio de Janeiro. Carminda da Conceição Rodrigues, conhecida como D. Carminda, revelou posteriormente que Botto tinha sido hospitalizado por causa de um “tumor no cérebro”, que o deixou surdo, embora não existam quaisquer evidências nesse sentido ou que forneçam pistas quanto à doença do poeta. Vários críticos, incluindo Eduardo Pitta, sugeriram que Botto sofria de sífilis, doença que teria contraído ainda em Lisboa, mas não existe qualquer documento conhecido que sustente essa afirmação. O que é certo é que, quando morreu, aos 62 anos, Botto era um homem há muito doente, que vivia em grande isolamento e mergulhado numa frustração enorme devido ao reconhecimento que tardava em chegar.

Após a morte de Botto, o seu espólio foi doado à BNP, em Lisboa. A doação aconteceu em dois momentos: em 1986, após a morte de D. Carminda, a mulher com quem o poeta viveu maritalmente desde finais dos anos 20 e que esteve sempre ao seu lado, e em 1999. O espólio, que tem o número 12 no acervo da BNP, é composto por mais de 3.620 documentos variados, distribuídos por 36 caixas. Um conjunto bastante heterogéneo, o espólio inclui poemas, textos em prosa (ficcionais e não ficcionais), fotografias, recortes de jornais, entrevistas e cartas, que documentam as quase duas décadas que o poeta passou no Brasil (Botto não terá guardado quase nada do que produziu em Portugal; os documentos no seu espólio são quase todos posteriores à sua partida para o Brasil, em 1947). A poesia é o género mais predominante. Alguns poemas são conhecidos e foram publicados em livros ou na imprensa brasileira, mas uma boa parte do material permanece inédita. Desse conjunto, a grande maioria “encontra-se num estado bastante embrionário, sendo frequentes os rascunhos inacabados e incompletos, além de textos que aparentemente foram descartados pelo próprio autor”, explicou ao Observador o investigador Oscar de Paula Neto. Doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, com uma tese sobre a poesia produzida por António Botto durante a temporada brasileira, Oscar de Paula Neto é um dos poucos investigadores que se têm dedicado, nos últimos anos, ao estudo da obra inédita de Botto.

Também em declarações ao Observador, Hugo Alexandre Martins, que defendeu em 2023, na Universidade Nova de Lisboa, uma dissertação de mestrado em Edição de Texto sobre a produção literária bottiana em torno de Fernando Pessoa, considerou o espólio de Botto “um acervo um tanto caótico”. “Estruturalmente, tem as feições de um rascunho extensivo, com folhas soltas, versos metricamente irregulares, profusão de rasuras e poemas predominantemente politestemunhais”, detalhou. Os documentos encontram-se distribuídos “por capas e pastas com rótulos genéricos, por vezes enganosos”. Diferentes materiais, destinados a projetos distintos, convivem diretamente uns com os outros, “num mesmo invólucro”. “Encontrei poemas em pastas com o título ‘Prosa’, assim como textos em prosa classificados como ‘Poesia’”, exemplificou o investigador. Na opinião de Hugo Alexandre Martins, que chegou a ponderar editar os textos do “Caderno Proibido”, é “a heterogeneidade de tipologias e suportes” que torna o espólio de Botto “fecundo, pelas surpresas e testemunhos inéditos”, mas também trabalhoso do ponto de vista da crítica textual, por causa dos “muitos manuscritos autografados, versões alternativas e rascunhos, carecendo de uma organização mais fina”.

Para Anna Klobucka, que se tem dedicado à obra de António Botto e que publicou e analisou alguns dos poemas do “Caderno Proibido” no importante estudo O Mundo Gay de António Botto (2018), que teve como ponto de partida a constatação de que muitos textos do espólio bottiano permanecem inéditos, a heterogeneidade da documentação é, primeiro que tudo, um reflexo do “declínio mental de Botto na última década e meia da sua vida”, que tem sido apontado por vários investigadores e usado para justificar a qualidade inferior dos seus textos mais tardios. Hugo Alexandre Martins concorda: “Constrangimentos económicos pessoais e uma fase de acentuado declínio físico-cognitivo dificultaram, em vida, a preparação e arrumação dos textos, hoje dispersos”.

De acordo com Oscar de Paula Neto, que analisou, entre outros, os poemas do “Caderno Proibido”, de um modo geral, a poesia bottiana das últimas décadas “destoa significativamente do talento e da criatividade do passado, consistindo em criações por vezes apressadas, desleixadas e pouco cuidadas do ponto de vista estético”. Contudo, e apesar disso, “ainda existem composições bastante interessantes que ora remetem ao estilo mais característico da fase anterior do autor, ora se mostram marcadas por novas preocupações estéticas que passam a atravessar a sua poesia tardia, aspeto muito comum em Ainda não se escreveu”, livro póstumo, composto por poemas inéditos e textos refeitos a partir de outras obras, reunidos por Botto e publicados pela editora Ática, em Portugal.

A pasta do espólio de António Botto que inclui os textos com a indicação “Caderno Proibido” é composta por algumas dezenas de poemas e, pelo menos, um texto em prosa, que tem a forma de um diálogo entre um jovem e um homem mais velho. Na opinião de Oscar de Paula Neto, o conjunto parece ter sido abandonado por Botto antes da sua conclusão. Comparativamente a “outros projetos de livros existentes no acervo, igualmente inacabados”, os poemas do “Caderno Proibido” “parecem ter sido criados à pressa, talvez não revisitados por Botto em momentos posteriores”.

Anna Klobucka, professora na Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos Estados Unidos da América, admitiu que existem, “certamente, conjuntos plausíveis [no espólio] que poderiam vir a constituir projetos de edição, como o ‘Caderno Proibido’”, mas não existe “nenhum ‘caderno’ ou manuscrito de livro em preparação propriamente dito”, porque a maioria dos materiais do espólio foram deixados inacabados, salientou.

Assim sendo, o que é o “Caderno Proibido” de António Botto e em que estado se encontram os materiais que o compõem?

“Caderno Proibido” de António Botto: um livro que não existe

A pasta do espólio de António Botto que inclui os textos com a indicação “Caderno Proibido” é composta por algumas dezenas de poemas e, pelo menos, um texto em prosa, que tem a forma de um diálogo entre um jovem e um homem mais velho. Na opinião de Oscar de Paula Neto, o conjunto parece ter sido abandonado por Botto antes da sua conclusão. Comparativamente a “outros projetos de livros existentes no acervo, igualmente inacabados”, os poemas do “Caderno Proibido” “parecem ter sido criados à pressa, talvez não revisitados por Botto em momentos posteriores”. “A maioria dos poemas da pasta consiste em rascunhos inacabados, marcados pela acentuada falta de cuidado com a organização e com a composição dos versos. Além disso, muitos versos encontram-se rabiscados, rasurados ou cortados, indicando que não seriam levados em consideração caso a obra viesse a ser publicada”, explicou o investigador. Para Anna Klobucka, o grande desafio “de se produzir uma edição coerente e digna do seu autor” é precisamente o estado de composição dos materiais. “Existem textos praticamente acabados ao lado de outros que parecem meros apontamentos para um futuro poema”, constatou.

Essa não é, no entanto, a interpretação de Victor Correia, que, de entre os inéditos de Botto, escolheu publicar primeiro o “Caderno Proibido” porque “está mais organizado, é maior e tem mais a ver com” o autor, porque é uma coleção de poemas homoeróticos. No prefácio de Caderno Proibido, o organizador descreveu o conteúdo da pasta como “um conjunto diverso, pois neste coexistem textos acabados com outros rudimentares (que pretendia certamente aperfeiçoar), e textos fragmentários, alguns deles, claramente inacabados e outros rasurados”. Em declarações ao Observador, Victor Correia, autor de História da Homossexualidade em Portugal (2025) e responsável pela organização de diferentes coletâneas de poemas eróticos, desde a Antiguidade até ao início do século XX, considerou, também, que os poemas “não foram muito aperfeiçoados” porque Botto “não teve tempo de os aperfeiçoar” — o poeta morreu antes de conseguir fazê-lo. O organizador acredita que o escritor tinha intenções de divulgar amplamente os textos do “Caderno Proibido”.

A maioria dos poemas não têm data, com exceção de dois, que têm a indicação “1952” e “março de 1954”. Porém, tudo leva a crer que terão sido produzidos na primeira década dos anos 50. Uma dúvida que persiste e que será difícil de esclarecer diz respeito à ordem em que os documentos se encontram. “Não há maneira de saber se foi o próprio Botto que colocou na pasta algumas das folhas sem a identificação de pertencerem ao conjunto erótico e pornográfico e se, em caso afirmativo, o fez deliberadamente, ou se, em caso negativo, a quem se deve a (des)organização posterior da pasta”, afirmou Anna Klobucka, que descreveu o textos como tematicamente incoerentes, “o que, aliás, é uma característica comum do espólio”, considerou.

Em termos temáticos, trata-se de um conjunto de poemas homoeróticos e pornográficos, talvez os mais explícitos algumas vez escritos por Botto. “A maioria dos poemas [do Caderno Proibido] são eróticos, com uma linguagem muito ousada. [São] bem mais ousados do que aquilo que conhecemos dele”, descreveu Victor Correia, em declarações ao Observador. “As Canções de António Botto têm uma linguagem muito poética, mesmo poética e subtil, e [o Caderno Proibido] é um bocado cru, digamos.” Na opinião de Hugo Alexandre Martins, o “Caderno Proibido” pode mesmo “integrar o campo da poesia hardcore”. “Com uma linguagem direta e explícita, afasta-se dos códigos e formalismos eufemísticos da conhecida lírica gay bottiana. O tom é confessional, íntimo e, quase sempre, autobiográfico, contando cenas e encontros noturnos. Fica a impressão de um Botto arrojado, cru, autoconsciente da dimensão chocante, escandalosa e provocadora daquilo que compunha”, resumiu o investigador. Temas como o desejo, paixão, ciúme e liberdade sexual são explorados sem subterfúgios, de forma muito direta.

Para Oscar de Paula Neto, é, de facto, “o tom pornográfico” do “Caderno Proibido” que faz dele um conjunto peculiar de textos no contexto do espólio bottiano, uma vez que esse tipo de abordagem é “praticamente inexistente” no restante acervo. O mesmo não se pode dizer do homoerotismo que, apesar de menos presente na fase tardia, nunca deixou de estar presente. “Não constitui uma especificidade do Caderno Proibido, uma vez que há diversos poemas abertamente homoeróticos, ou passíveis de leitura nesse sentido, noutras pastas do arquivo. O próprio Ainda não se escreveu reúne alguns versos dessa natureza”, explicou o investigador. Contudo, nesses, “o homoerotismo surge de modo mais disfarçado e diluído”. “Os poemas pornográficos que compõem o conjunto extrapolam autocensura imposta pelo autor na fase tardia, sobretudo quando se levam em consideração algumas das vertentes mais conservadoras de sua produção no mesmo período”, como é o caso de Fátima – Poema do Mundo, um poema religioso que Botto escreveu nos anos 40, mas que reescreveu, atualizou e publicou em 1955, no âmbito do XXXVI Congresso Eucarístico, realizado no Rio de Janeiro. A obra é indicativa da profunda crise religiosa que acompanhou o poeta no final da vida. “É significativo que o despudorado ‘Caderno Proibido’ e o catoliquíssimo e nacionalista Fátima – Poema do Mundo sejam obras coetâneas, o que evidencia a complexidade da escrita bottiana para além de uma certa imagem cristalizada na história literária portuguesa”, destacou Oscar de Paula Neto.

O conteúdo da pasta “Caderno Proibido” não é apenas erótico e pornográfico, ainda que esses sejam os temas mais abordados. Victor Correia notou isso mesmo no prefácio da sua edição, ao afirmar que “há uns poucos poemas que se encontram nos manuscritos do Caderno Proibido que nada têm de homoerótico e muito menos de ‘pornográfico’”. Essas composições abordam questões sociais e políticas que preocuparam o poeta nas suas últimas décadas de vida, como a pobreza, a fome e os povos indígenas, mas também a condenação da moral conservadora e o canto da liberdade, que existem nos poemas mais antigos. Nos textos do “Caderno Proibido”, Botto repetiu também uma narrativa que se tornou habitual nos seus tempos no Brasil: que tinha sido injustiçado e o seu génio não tinha sido convenientemente reconhecido. Há ainda referências a outras obras e autores, como Ilíada de Homero, e Fado, de José Régio, e “casos particularmente complexos e espinhosos”, como o poema ‘Quando saio à noite só’”. A composição, estudada por Anna Klobucka em O Mundo Gay de António Botto, não é um original de Botto, mas “uma transcrição, feita pela mão de Botto, de várias quadras retiradas do livro Festa redonda (1950) de Vitorino Nemésio, que Botto juntou e ressignificou de modo a representar uma experiência de engate na paisagem noturna urbana do Rio de Janeiro”, explicou a investigadora ao Observador. “O poema, que resulta dessa recomposição do original nemesiano, é lindo e interessante, mas para poder ser apreciado devidamente precisaria de uma contextualização, até para afastar uma acusação de mero plágio.” Na sua edição, Victor Correia não fez qualquer menção à origem do poema.

“O conteúdo e teor potencialmente transgressores e escandalosos de muitos poemas, sobretudo os abertamente pornográficos, tornavam a sua publicação improvável, arriscada, num contexto social heteronormativo e conservador”, como era o do Brasil da década de 1950. Por outro lado, diz Hugo Alexandre Martins, “constrangimentos económicos pessoais e uma fase de acentuado declínio físico-cognitivo dificultaram, em vida, a preparação e arrumação de textos, hoje dispersos”.

As preocupações sociais e políticas de Botto não são exclusivas do “Caderno Proibido”. De acordo com Oscar de Paula Neto, a mudança temática na poesia bottiana deu-se na década de 1940, quando o autor passou “a pender para uma escrita de cunho mais sociológico, como se observa em O Livro do Povo (1944). Ao longo da década de 1950, essa preocupação social e política adquiriu novas nuances, manifestando-se em reflexões sobre questões que marcaram fortemente o contexto da época, como o avançar da Guerra Fria, o uso de armas nucleares, o salazarismo e a política brasileira”. Esse estilo marca os poemas reunidos em Ainda não se escreveu, mas também algumas das composições do “Caderno Proibido”, “bem como em outros textos dispersos pelo arquivo.” “O estilo assumido no livro e na pasta não constitui, portanto, uma especificidade de ambos, mas antes uma marca estilística do poeta, presente numa parcela significativa de suas produções mais recentes. As novas preocupações formais e temáticas convivem com o estilo mais conhecido da primeira fase, assim como com os poemas de cunho católico, com a produção incessante de sonetos e com outras formas de mais difícil classificação. O conjunto poético do acervo bottiano revela-se, assim, profundamente heterogéneo e ambivalente”, concluiu o investigador.

Mas “ao mesmo tempo que manifesta preocupações sociais e políticas em suas criações tardias, Botto expõe também um posicionamento conservador, preconceituoso e racista”, acrescentou Oscar de Paula Neto. “É importante considerar que o escritor optou, nesse período, por um tom abertamente conservador, moralista, anticomunista, colonialista e católico. De certo modo, tais preocupações mostram-se mais vinculadas a uma ideologia cristã, por vezes beirando o senso comum e o descolamento da realidade, do que a uma efetiva proposta de transformação da estrutura social.” Por exemplo, “embora o poeta demonstre empatia em relação às comunidades indígenas brasileiras, como se evidencia em poucos poemas, inclusive guardados na pasta ‘Caderno Proibido’, o mesmo não ocorre no que diz respeito à população negra do Brasil, alvo de escritos depreciativos e abertamente racistas, nos quais os negros são responsabilizados pelos males da sociedade brasileira e menosprezados de maneira vil por Botto.”

O “Caderno Proibido” ficou inédito, mas Victor Correia não acredita que fosse essa a intenção do seu autor, indicando como indício dessa vontade do poeta uma anotação escrita à margem de um dos poemas, que refere: “Canção do livro a publicar ‘Caderno Proibido’”. No prefácio de Caderno Proibido, o organizador apresentou também como prova a primeira estrofe de uma outra composição: “Quem não gosta que se afaste / De ler o que vou escrever / Nesta canção verdadeira”. Relativamente à falta de indicações específicas sobre o destino e organização dos materiais contidos na pasta do espólio, o organizador comparou, em declarações ao Observador, o “Caderno Proibido” com o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares: “Alguns [papéis] têm a designação ‘LD’ [‘Livro do Desassossego’], outros têm. O ‘Caderno Proibido’ é um bocadinho parecido com o Livro do Desassossego, porque ficou por acabar e a sequência [dos textos] não foi feita por Fernando Pessoa, mas pelos investigadores.” De forma semelhante, foi também Victor Correia que escolheu a ordem dos textos do Caderno Proibido. Como explicou no prefácio: “A ordem de continuidade dos poemas, na organização deste livro, é a que aqui se apresenta, mas na organização feita por outro investigador a ordem de continuidade poderia ser outra”.

Apesar da indicação “a publicar”, Oscar de Paula Neto acredita ser plausível “supor que, com o passar dos anos e o agravamento da crise pessoal, bem como dificuldades financeiras e de saúde vividas pelo escritor no Brasil, o projeto tenha sido abandonado”. Num documento guardado numa outra pasta do espólio de António Botto, no qual o poeta elaborou “uma extensa lista de obras a serem publicadas, muitas das quais existem apenas como ideia ou como título, o projeto não aparece listado, o que reforça a hipótese de que já não integrava os vários planos editoriais do autor. Ou seja, ‘Caderno Proibido’ é um ‘livro’ que não existe propriamente”. Na opinião do investigador, não existem também quaisquer indícios de que o conteúdo da pasta tenha sido divulgado de alguma forma durante a vida do poeta, por exemplo, entre um núcleo fechado de amigos. Na década de 1950, quando esses materiais terão sido produzidos, o escritor português encontrava-se “num estado de ostracismo e isolamento bastante alarmante, convivendo com personalidades e grupos que certamente não constituiriam o público-alvo de poemas pornográficos”. Por outro lado, “dificilmente Botto conseguiria alguma editora ou apoio que viabilizasse a publicação de um livro com teor pornográfico e fragilidade técnica dos poemas que compõem a pasta”.

Hugo Alexandre Martins tem a mesma opinião. “O conteúdo e teor potencialmente transgressores e escandalosos de muitos poemas, sobretudo os abertamente pornográficos, tornavam a sua publicação improvável, arriscada, num contexto social heteronormativo e conservador”, como era o do Brasil da década de 1950. Por outro lado, “constrangimentos económicos pessoais e uma fase de acentuado declínio físico-cognitivo dificultaram, em vida, a preparação e arrumação de textos, hoje dispersos”, apontou o investigador, referindo-se ao espólio de uma maneira geral. Na opinião de Oscar de Paula Neto, “o ‘Caderno Proibido’ configura-se antes como um exercício pessoal, restrito à intimidade do poeta, talvez uma forma de extravasar desejos reprimidos, bem como uma tentativa de reavivar o tom polémico que cercou a sua obra, tal como ocorrera nos anos 1920, em Portugal, algo que dificilmente se repetiria nesse novo contexto”.

A importância de dar a conhecer António Botto

O livro publicado em janeiro pela Guerra e Paz é o primeiro a reunir todo o conteúdo da pasta “Caderno Proibido”, o que muito espanta o seu organizador. Até agora, a disponibilização das obras de António Botto seguiu sempre o mesmo critério — o da publicação em vida do autor, com exceção do livro póstumo, Ainda não se escreveu, que foi incluído no volume organizado por Eduardo Pitta que reuniu toda a poesia do poeta. Victor Correia tem dificuldade em perceber porquê. “Não sei porque é [os inéditos] que nunca foram publicados”, disse ao Observador. “Eduardo Pitta reviu toda a obra e disse, na introdução à obra poética, que ‘se António Botto não quis publicar isto, eu também não vou publicar’. Acho que isso não é um critério. Ele morreu e não pôde publicar.” Dando como exemplo autores que recusaram que a sua obra fosse publicada postumamente, e que até pediram que os seus papéis fossem destruídos, uma exigência que nem sempre foi seguida à letra pelos herdeiros, Victor Correia defendeu a importância de dar a conhecer o conteúdo do “Caderno Proibido” e outros trabalhos inéditos de Botto. “Na minha opinião, do ponto de vista, [os poemas do “Caderno Proibido”] não têm grande qualidade em comparação com as Canções. Mas é uma curiosidade literária e é um testemunho histórico, e [serve] para conhecer melhor António Botto, porque, de facto, nesse livro, ele é mais explícito, mais direto”, declarou. Victor Correia pretende dar a conhecer outros tesouros do espólio bottiano, mas decidiu começar pelo Caderno Proibido. “Ele também deixou inéditos 40 sonetos dedicados a Fernando Pessoa”, disse, revelando que tenciona publicá-los, em livro, no decorrer do próximo ano.

“É essencial deixar claro que os textos da pasta se encontram inacabados, salientando que talvez viessem a ser publicados de outra forma, passando por processos de reescrita, organização e seleção distintos, caso Botto tivesse continuado a trabalhar nos poemas”, afirmou o investigador Oscar de Paula Neto. “Destacar que se trata de um projeto inconcluso e possivelmente abandonado, e não de um livro propriamente sistematizado, parece-me fundamental.”

Hugo Alexandre Martins, que estudou e editou pela primeira todos os materiais bottianos relativos a Fernando Pessoa, explicou ao Observador que, à semelhança do restante espólio, trata-se de um conjunto plural e multiforme, com textos em diferentes fases de composição, que inclui “um conjunto sonetístico praticamente inédito até à publicação da minha dissertação, poemas com propósito laudatório e depreciativo, artigos de imprensa, crónicas, entrevistas, depoimentos, relatos pessoais e pequenos ensaios críticos. Existem textos quase prontos para publicação e mesmo artigos já publicados em periódicos brasileiros, como o Diário da Noite e o Diário Carioca, mas a maioria é fragmentária. Notas, esboços e versões preliminares coexistem com peças quase finalizadas”. O tom nem sempre é laudatório. Ao contrário dos testemunhos “quase hagiográficos” deixados por muitos amigos e conhecidos de Pessoa, os textos de Botto fundem “elogio e ataque, afeção e ressentimento, aproximação afetiva e antagonismo crítico”. “Os relatos e retratos [de Pessoa] alternam entre o biógrafo-intérprete admirador, salientando afetos, convívios, admiração e ternos momentos de convivência com o autor de Mensagem, e o crítico corrosivo, que desvaloriza o pessoanismo e certas opções editoriais, tecendo considerações nada abonatórias sobre o ortónimo e companhia heteronímica”, descreveu o investigador.

Essa “multitude de facetas e dimensões” pode explicar-se “por vários fatores”, nomeadamente com uma intenção de denunciar “um certo clientelismo no meio literário luso-brasileiro, através de uma postura contrapessoana” e de um ataque dirigido a certos críticos de Pessoa, “os quais, segundo Botto, contribuíram para a ruína do próprio e para a projeção fosfórica do amigo”; uma “tentativa de, numa fase de declínio criativo e mediático e de menor reconhecimento público, resgatar o prestígio e visibilidade editoriais de outrora explorando comercialmente a notoriedade de Pessoa”; e uma “necessidade de suplantação de constrangimentos financeiros, com textos vendáveis e com provável repercussão, podendo servir a fama de Pessoa como chamariz para editoras e leitores”.

Além dos textos sobre Pessoa, existem no espólio da BNP outros inéditos que seria importante dar a conhecer. “O ‘Caderno Proibido’ é apenas uma pequena parte da poesia que permaneceu inédita. Há no arquivo poemas líricos, de temática amorosa, que rememoram instantes cruciais de Canções; poemas de cunho social e político que não foram publicados em Ainda não se escreveu; uma gama considerável de sonetos em homenagem a personalidades históricas, políticas e literárias, entre outros projetos que não foram concluídos, mas que ocuparam a criatividade do poeta durante o período no Brasil”, enumerou Oscar de Paula Neto. Outros materiais revelam uma faceta nunca explorada do poeta, como é o caso de um projeto de tradução da obra de Gil Vicente para português moderno, de um conjunto de poemas autobiográficos, “nos quais Botto repassa a sua vida e momentos cruciais da sua obra, por vezes beirando a autoficção, com o intuito de fabular a sua própria trajetória”, e de textos em prosa “relatando a sua experiência no Brasil ou refletindo aspetos culturais diversos”. O espólio guarda ainda uma última edição de Canções, de 1959, “que consiste na reescrita e na reordenação da principal obra de Botto com base na edição de 1956, a última publicada e organizada pelo próprio autor”, explicou Oscar de Paula Neto.

“Quando obras, poemas ou textos de um escritor conhecido ficam por publicar, é bom dá-los a conhecer ao público, para que fique a conhecer melhor António Botto”, um poeta que “marcou muito a sua geração, o modernismo”, defendeu Victor Correia. Os inéditos podem também ajudar a corrigir e complementar “narrativas” e a abrir “múltiplas linhas e vetores interpretativos”, sugeriu Hugo Alexandre Martins. No caso específico do “Caderno Proibido”, “embora embrionário, dar a conhecer tal conjunto pode ser relevante para algum nível de reatualização da obra bottiana”, considerou, por sua vez, Oscar de Paula Neto. “Contudo, é essencial deixar claro que os textos da pasta se encontram inacabados, salientando que talvez viessem a ser publicados de outra forma, passando por processos de reescrita, organização e seleção distintos, caso Botto tivesse continuado a trabalhar nos poemas”, afirmou. “Destacar que se trata de um projeto inconcluso e possivelmente abandonado, e não de um livro propriamente sistematizado, parece-me fundamental.”