A 22 de fevereiro vi a gala de estreia da décima edição do Secret Story, o formato que contribui para o imaginário coletivo com expressões como “ganda abre olhos”, “bates forte cá dentro!” e, mais recentemente, “a minha presença é notada por mim mesma”. Aquele elenco não me tintilou. Ainda vi um excerto de um diário ou outro, mas decidi passar. É verdade que a apresentadora contribuiu substancialmente para esta decisão. A condução de Cristina Ferreira nos realities vai oscilando entre duas abordagens aos concorrentes. Ou bem que os trata como anjos querubins incapazes de qualquer ato passível de julgamento; ou bem que adota um modo passivo-agressivo, em que repete em loop que “isto é um jogo e só um pode ganhar”, sem espaço para empatias.
Daquilo que me é dado a observar, esta segunda pele revela-se quando as audiências não são as esperadas, coisa que se verificou nas primeiras semanas desta edição. Faz agora um mês, o Secret Story Especial, diário transmitido após o Jornal Nacional onde Cristina faz uma ligação à casa, obteve os chamados mínimos olímpicos com 798 mil e 800 espectadores. Inclusive, no início de Março, foi noticiado que a edição acabaria em abril, pelo que o confinamento deste elenco seria mais curto do que o habitual. Corta para dia 23 de março, passada segunda-feira. O mesmíssimo bloco televisivo foi assistido por 1 milhão e 423 mil criaturas, incluindo esta que vos fala, tornando-se o programa mais visto do mês, excluindo os jogos de futebol. E perguntam vocês: porquê? E eu respondo: por causa da Eva, do Diogo e da Ariana.
Passo a elaborar, para quem estava demasiado ocupado a ler o Homem sem Qualidades do Musil, para os que esperavam pela sessão da retrospetiva do Bergman no Nimas ou simplesmente para quem ficou sem dados móveis. Como é habitual na Casa dos Segredos, a produção escolhe um casal cujo mistério está no seu vínculo amoroso, logo têm por missão fingir-se perfeitos desconhecidos numa casa povoada por outros perfeitos desconhecidos, que é como quem diz todo um mundo de oportunidades e um buffet de potenciais crises de ciúmes, normalmente seguidas de uma travessa generosa de arroz de trombas entre o casal, o que acaba por conduzir à descoberta do segredo.
Eva, 22 anos, terapeuta da fala, e Diogo, 23 anos, jogador de futebol do Sporting Club de Bustelo, entraram para a casa na condição de namorados há cinco anos. Uns garotos, verdade seja dita, que começaram a relação ainda mais garotos. Um amor de adolescência que sobreviveu à faculdade da Eva e às adeptas fanáticas do Bustelo, que certamente pediam a camisola ao Diogo jornada sim, jornada sim. Ora o que é que esta dupla combinou? Ou melhor, que estratégia é que o Diogo vendeu à Eva como à prova de bala para esconder o segredo? Aproximar-se de outra concorrente, “fingir” que se estava a apaixonar, o que comprovaria a sua solteirice e a “protegeria”. Eva afirma ter papado este golpe de génio, desde que o envolvimento respeitasse alguns limites. Passo a citar: “Chocho pode”. E ela bem tentou comer e calar, mas quando ele começou a comer de mais, nomeadamente a Ariana, com 24 anos e formada em Hotelaria, o clima começou a pesar, a Eva começou a chorar e as audiências começaram a subir.
Eis senão quando o segredo do Diogo é descoberto. Imagino o quartel general da TVI em prantos, que lhes tinham dado cabo da galinha dos ovos do share, porque se ia acabar o sarrabulho a três. Pois que se dá um plot twist e o casal manteve-se incógnito. O segredo rezava assim: “Tenho a minha namorada/cara metade na casa”. Ora o Diogo, o Kasparov dos realities, conseguiu plantar a dúvida na casa sobre a enunciação, Ariana incluída. Como? A barra quer dizer “ou”: tanto pode ser namorada, como cara-metade. E cara-metade quer dizer “irmã”, portanto, estou solteiro, logo é bar aberto. Vou dar-vos um minuto para absorver e ir buscar o queixo ao chão. Eu também quero crer que isto foi um surto coletivo ou alguma coisa nos canos da Venda do Pinheiro que lhes contaminou a água. Mas esperem que falta a última cartada. O nosso príncipe encantado de Oliveira de Azeméis disse à Ariana que não, não tinha uma namorada lá dentro. “Para desviar as atenções sobre a Eva”, a nova versão é que a namorada estaria fora da casa. Facto que a doce Ariana considera muito aborrecido, mas comeu de cebolada, porque longe da vista, longe de ficar com um hematoma no olho graças a uma namorada vilipendiada. Vai daí, esta boa samaritana ajudou a aliviar o momento de tensão que este guerreiro estava a passar e deu-se um edredon ondulante. Tudo isto no mesmo quarto de Eva.
Repetindo os números: na segunda-feira, 1 milhão e 423 mil espectadores sentaram-se na ponta do sofá para ver o segredo de Eva a ser revelado, a Ariana a descobrir quem é que estava a assistir de camarote à bonita história de amor que estava a construir com com o Ricardo Quaresma do Bustelo e que trivela é que ele ia sacar quando a namorada descobrisse que houve um pouco mais do que beijos técnicos, com os quais ela tinha compactuado sabe Deus porquê. A casa entrou em comoção, qual tragédia shakespereana.
Chorou-se, berrou-se e sofreu-se mais do que no Hamnet. Porque, sejamos honestos, eles não têm mais nada para fazer. O Diogo, com a coluna vertebral de um camarão de aquacultura, metafórica e fisicamente, passou o tempo curvado, enterrado no sofá, de olhos cravados no chão à procura de um alçapão que o tirasse dali, a proferir o mínimo de vocábulos possível. Já a Eva bateu no peito que sabia de tudo, para absoluta estupefação de uma nação, que tinha concordado com tudo e pobre do meu rico menino que só estava a zelar pelo nosso segredo. Pelo vistos, a realidade ultrapassou a ficção, once again. Será que por muito que se vaticine que o reality está estafado e gasto — porque “isto está tudo feito, a produção manipula tudo e eles sabem todos mais que à Lúcia, porque no do tempo do Zé Maria é que era” — se nos servirem o plot certo ainda estamos dispostos a comprar a novela da vida real?
Ora eu não sou o Júlio Machado Vaz, nem a Tânia Graça, para mal dos vossos pecados e dos meus também, por isso vou poupar-vos às minhas análises psicológicas da Temu. Têm o TikTok para isso. E também não vou cuspir sentenças morais, porque clarabóias de vidro temos todos, eu incluída. Se me deu engulhos ver a Eva ali estoica, guerreira (nem consigo evitar o revirar os olhos enquanto escrevo isto) a defender a relação, a dar o peito às balas, a ser julgada por isso, ao lado da fraca figura do Diogo, com cara de ponto-e-vírgula a fingir demência? Deu e muitos. Até porque me parece que a atitude dela é resultado de uma relação manipulativa, que ela estava convencida que era para vida, porque cresceu com ele e não conhece uma vida sem. E nem vou falar o quanto isto é reflexo de uma estrutura patriarcal opressora, que vai vilanizar muito mais as gaiatas do que o pobre homem que não fez mais do que obedecer aos seus instintos, como é natural dado a sua condição macha, qual bovino em frente a uma capa escarlate. Para isto, não contem comigo.

O que é certo é que uma edição que parecia estar a seguir em velocidade cruzeiro para a prateleira dos flops, arrebitou graças a este arrebitanço nos lençóis entre estes jovens. De tal forma que as redes se encheram de comentários sobre o tema. Daniela Melchior, que já espalhou brilho em Hollywood, tweetou: “Já tenho amigos no estrangeiro a perguntar-me onde podem ver o SS legendado” e o triângulo foi notícia no Hugo Gloss, um site de notícias brasileiro com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.
A séxóloga Tânia Graça, pessoa que devia brotar do chão sempre que o nevoeiro da toxicidade se está a instalar no casal, contou que foi intimada por todas as vias a falar sobre o tema: por DMs no Instagram aos montes, por alunas de uma formação que foi dar a uma universidade, por uma paciente em contexto de consulta. Será que na era da peak TV, em que passamos mais tempo a percorrer os menus das plataformas de streaming do que a ver seja o for, ainda há lugar para a monocultura? Ainda é possível reviver aquela experiência coletiva do dia seguinte ao programa do Herman, em que toda a escola a uma só voz repetia “Não havia necessidade… zzz…zzz”? Atualmente, os temas que invadem as conversas de forma massificada são, por norma, nativos nas redes sociais: “ouviste o que ele disse no podcast?”, “e aquele story?”, “o que é que ela estava à espera com aquele post?”.
O que é que há em comum entre o caso da momfluencer que enfiou a miúda na banheira para lhe tirar as manias, o calhau do TikTok que se gabou de um atropelamento e fuga e este saco de gatos da Casa dos Segredos? A indignação. Será que é a indignação a grande cola da sociedade, em 2026? Parece que a era do ragebait veio para ficar. Triste, ou não? É claro que os canais não são parvos nem nada e injetam clips polémicos e rankings de popularidade e copys incendiários nas redes, porque é ali que o circo pega fogo e fogo dá engagement e números. E os canais estão mais desesperados por estatísticas que convençam os anunciantes que a caixinha mágica ainda não morreu, que o Diogo por correr com a Eva dali para fora, para voltar ao edredoing com a sua nova presa — quer dizer, interesse amoroso.
Já vi muito reality, mais do que seria considerado saudável pela OMS, mas também nunca tinha visto esta edição de colecionador de relacionamento tóxico, filmada 24 sobre 24 horas. É graças à incredulidade ou a um “afinal a minha relação não é assim tão má” que as pessoas se sentem atraídas por estas narrativas?
Eu diria que os dois.
O Big Brother, estreado no ano da graça de 2000, gravou na pedra o conceito “novela da vida real”. E durante muito tempo o desenrolar era bastante novelesco, mais do que hoje em dia, acho. Assim o casting fosse bem feito, havia protagonistas e antagonistas, bonzinhos e vilões, alívio cómico e jornadas do herói, com histórias de superação de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Conflito, inveja, amor e ciúme também não podiam faltar. E se o preferido ganhasse, havia direito a um final feliz. E é aqui que se separam as águas: o público pode decidir o rumo da personagem. Em vez de atirar impropérios à televisão e clamar por justiça como as nossas avós faziam, pegamos no telefone e ligamos o 760.
Há ainda outro fator que afasta estas duas formas de entretenimento, em particular nos últimos cinco, seis anos, mais coisa, menos coisa. Nas telenovelas, a audiência é relativamente consensual sobre a apreciação da personagem. A recompensa do autor ao público é, na generalidade, a mesma: o final. Os bons casam-se, são felizes para sempre e atingem a liberdade financeira. Já os maus ou acabam na penúria ou são presos ou morrem ou ficam malucos. Se o autor for suficientemente sádico, a sentença pode ser cumulativo. Nos últimos anos, parece-me que houve uma futebolização da experiência do reality, muito graças ao aparecimento das tão faladas teams que gastam o PIB de um pequeno país em votos, para gáudio dos acionistas dos canais de televisão. Do que eu acompanho, isto não aconteceu só em Portugal. No Brasil, por exemplo, o fenómeno é semelhante. O espectador escolhe um clube no início da época, isto é, um concorrente no início da edição. E seja qual for o comportamento ao longo das semanas, a sua lealdade é inabalável, vai defendê-lo até à morte e odiar com igual fervor o seu antagonista e respetiva claque. Da mesma maneira que se apelidam jogadores jovens como novos Eusébios, Cristianos ou Messis, quando aparece alguém que se destaca e tem características semelhantes a um ex-concorrente, é o novo Zé Maria, o novo Savate, a nova Fanny ou a nova Bernardina. E se o fim não for o esperado, mete-se a culpa no árbitro que é ladrão — isto é, a produção.
Se dúvidas houvesse que é o elenco que define o sucesso ou insucesso, aqui está o exemplo acabado. O que pôs toda a gente a falar sobre o programa… Já sei que não é toda a gente e se vocês não veem parabéns, podem levantar a medalha na receção. Como eu ia dizer, o que gerou esta onda de interesse foi um enredo da exclusiva responsabilidade dos concorrentes. Os mesmos que mereciam pouco mais de metade das audiências há um mês, foram os que captaram mais 600 e tal mil espectadores. Endemol, se fosse a vocês aumentava-lhes o cachet. Até porque, para o bem deles, é bom que derretam uma boa parte em terapia. A audiência aumenta quando sai da bolha daqueles que veem o reality como desporto-rei, independentemente do plantel. Foi o que aconteceu graças a este Triângulo da Tristeza. Sim, uma referência a um vencedor de Cannes pode co-habitar com um texto sobre o Secret Story, espantem-se!
Não há reality onde os concorrentes não acusem os adversários de “serem personagens” a quem mais tarde ou mais cedo irá “cair a máscara”. Ora se eles acham isso, o que dirão os espectadores? Assim, quando um concorrente tem um comportamento tão inequivocamente reprovável pela maioria do comum dos mortais, só pode ser verdade. Quando o mais certo é terem como comitiva de “boas vindas à realidade” um tsunami de vergonha pública, eles não podem fingir o que não são. Porque, como os colegas da Eva, do Diogo e da Ariana repetem ad nauseum, “não vale tudo por jogo”. Vou mais longe: não vale tudo numa relação. Acho que este efeito em massa de “nem quero ver, não consigo deixar de olhar” vem de uma pretensa superioridade moral, mas não só. Porque como a sempre certeira Ana Markl escreveu: “Toda a gente que está a falar disto já foi um pouco destas duas pessoas em algum momento da sua vida. Eu também”. Eu também. Foge, Eva.