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(A) :: E se o problema não for nunca chegares?

E se o problema não for nunca chegares?

Não se trata de fazer mais para ser aceite, mas de viver com verdade, mesmo quando essa verdade não é reconhecida.

P.e João Miguel da Silva Soares
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Há uma forma de cansaço que não vem do excesso de trabalho, mas da constante tentativa de corresponder. Não é o corpo que cede primeiro — é a alma. A pessoa levanta-se, faz o que deve, tenta acertar, melhora onde falhou, dá mais um pouco de si. E, ainda assim, no fim do dia, fica aquela sensação difícil de explicar: não chega. Falta sempre qualquer coisa. Um gesto que não foi suficiente, uma palavra que podia ter sido melhor, uma presença que ficou aquém. E, lentamente, instala-se uma espécie de dívida permanente perante os outros, como se viver fosse um exame contínuo sem nunca haver aprovação final.

O mais duro não é falhar. O mais duro é o “quase”. Porque o fracasso, ao menos, tem contornos claros; sabe-se onde se errou. O “quase” não. O “quase” é uma zona ambígua onde tudo parece estar certo, mas nunca suficientemente certo. Quase bom, quase capaz, quase aquilo que esperavam. E viver assim é desgastante, porque obriga a um esforço constante para atingir um padrão que nunca se fixa. Quando parece alcançado, já mudou. Quando parece reconhecido, já foi esquecido. E a pessoa fica presa a esta lógica de tentativa infinita, como se o seu valor estivesse sempre um passo à frente dela.

Se olharmos com alguma honestidade para a vida concreta, percebemos que isto não é apenas uma experiência individual; é também uma dinâmica relacional. Há olhares que não acolhem, apenas avaliam. Há relações onde não se recebe o que se é, mas apenas o que se produz. E, nesses contextos, por mais que alguém se dê, nunca será suficiente, não porque falte algo no gesto, mas porque falta abertura no outro. Um coração fechado não reconhece — mede. Não escuta — filtra. Não acolhe — exige. E, no fim, qualquer realidade que não encaixe nas suas expectativas será sempre considerada insuficiente.

É precisamente aqui que a figura de Jesus se torna profundamente incómoda para esta lógica. Porque, se alguém pudesse reclamar ter feito o suficiente, seria Ele. A sua vida não foi marcada por meias-medidas: curou, libertou, ensinou, aproximou-se dos excluídos, restituiu dignidade a quem a tinha perdido. Não passou ao lado da dor humana, nem se poupou ao envolvimento. No entanto, o resultado não foi o reconhecimento generalizado, mas a suspeita, a crítica e, por fim, a rejeição. O problema não estava naquilo que Ele fazia, mas na incapacidade de muitos para acolher o que lhes era oferecido.

Há um momento decisivo, que a tradição cristã coloca no centro da história, em que esta tensão atinge o seu limite: a cruz. Ali está um homem que não ficou aquém, que não viveu no “quase”, e, ainda assim, é tratado como se nada tivesse sido suficiente. Aquele que deu tudo é colocado no lugar de quem falhou em tudo. E o mais desconcertante não é apenas a injustiça do acontecimento, mas a forma como Ele o atravessa. Não há uma tentativa de provar valor à última hora, nem um gesto dramático de autojustificação. Não há esforço para convencer quem já decidiu não acreditar. Há, sim, uma permanência: permanece fiel ao que viveu, permanece coerente com o amor que anunciou, permanece inteiro mesmo quando não é reconhecido.

Este ponto é decisivo, porque desmonta uma das ilusões mais persistentes da experiência humana: a ideia de que, se fizermos o suficiente, seremos finalmente aceites por todos. A vida de Jesus mostra exatamente o contrário. Há situações em que não existe um “suficiente” possível, porque o critério não está na realidade do gesto, mas no fechamento de quem o recebe. E insistir em corresponder a esse tipo de exigência torna-se não apenas inútil, mas destrutivo. A pessoa esgota-se a tentar abrir portas que não querem abrir, a oferecer-se onde não há espaço para acolher, a procurar reconhecimento onde ele nunca será dado.

Num contexto cultural que valoriza a performance, a eficiência e a validação externa, esta constatação é particularmente incómoda. Fomos educados, em muitos aspetos, para acreditar que o nosso valor depende da capacidade de responder às expectativas. Que seremos reconhecidos se fizermos mais, melhor, com maior consistência. E, no entanto, a experiência concreta desmente frequentemente essa lógica. Há relações onde o esforço não gera aproximação, onde a dedicação não produz reconhecimento, onde a fidelidade não é suficiente para sustentar um vínculo. E isso não acontece necessariamente porque alguém falhou, mas porque a relação, na sua própria estrutura, não está aberta ao acolhimento.

É neste ponto que se impõe uma mudança de perspetiva que não é imediata nem fácil, mas profundamente libertadora. Talvez o problema não esteja, como tantas vezes se pensa, em não sermos suficientes. Talvez o problema esteja em termos colocado a medida do nosso valor no olhar de quem não sabe — ou não quer — reconhecer. Quando isso acontece, a vida transforma-se numa tentativa permanente de justificação, numa necessidade contínua de provar que se é digno de aceitação. E essa dinâmica, mais cedo ou mais tarde, conduz ao esgotamento interior.

A alternativa não é o desinteresse pelos outros, nem o fechamento sobre si mesmo. A alternativa é a recuperação de um centro que não dependa exclusivamente da aprovação externa. No horizonte cristão, esse centro é claro: a identidade não se constrói a partir do reconhecimento humano, mas a partir de um olhar anterior, que não mede nem compara, mas reconhece gratuitamente. É esse olhar que permite relativizar as avaliações alheias, não porque deixem de ter impacto, mas porque deixam de ter a última palavra.

A vida de Jesus, lida desta forma, deixa de ser apenas um modelo moral ou religioso e torna-se um critério de discernimento existencial. Não se trata de fazer mais para ser aceite, mas de viver com verdade, mesmo quando essa verdade não é reconhecida. Não se trata de corresponder a todas as expectativas, mas de não trair aquilo que se é para satisfazer olhares fechados. Há uma diferença decisiva entre crescer e tentar incessantemente provar valor; a primeira constrói, a segunda desgasta.

Num tempo em que tantos vivem sob a pressão de corresponder — seja no trabalho, nas relações ou até na forma como se apresentam ao mundo —, esta reflexão não é abstrata. É profundamente concreta. Há vidas inteiras gastas a tentar ser suficientes para alguém que nunca estará disponível para reconhecer. E há uma liberdade possível que começa precisamente quando se percebe isso com clareza. Não elimina a dor, nem resolve automaticamente as relações, mas impede que a pessoa se perca a si mesma nesse processo.

Talvez, no fim, a questão mais importante não seja saber se somos suficientes aos olhos de todos, mas perceber se estamos a viver de forma coerente com aquilo que somos chamados a ser. Porque há um tipo de insuficiência que não vem de fora, mas de dentro: a de uma vida vivida em função de critérios que nunca poderão ser plenamente satisfeitos. E há uma forma de suficiência discreta, quase silenciosa, que nasce quando se deixa de viver para provar e se começa, simplesmente, a viver com verdade.