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Entre Bismarck e o Caos: Realismo, Poder e o novo (Des)Equilíbrio Internacional

Enquanto Bismarck praticava um realismo estruturado e orientado para o equilíbrio, Trump privilegia uma abordagem mais transacional e imediata, centrada na lógica de “America First”.

Fernando Corvelo
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A evocação de Otto von Bismarck no contexto internacional atual pode parecer um exercício histórico distante, contudo esta referência revela-se particularmente pertinente num momento em que o sistema internacional atravessa uma fase de transição profunda.

Nascido em 1815, na Prússia, Bismarck destacou-se como uma das figuras centrais da política europeia do século XIX. Foi nomeado Ministro-Presidente da Prússia em 1862 e tornou-se o principal arquiteto da unificação alemã, concluída em 1871, após uma série de conflitos estratégicos — com a Dinamarca, a Áustria e a França — conduzidos com um cálculo político notável.

A 18 de janeiro de 1871, Otto von Bismarck foi nomeado Chanceler do Império Alemão em Versalhes, em França, no mesmo momento em que foi proclamado o Império Alemão. A cerimónia teve lugar na célebre Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, onde Guilherme I, na sequência da vitória prussiana na Guerra Franco-Prussiana, foi proclamado Kaiser (Imperador Alemão).

Bismarck veio a exercer o cargo de chanceler da nova Alemanha até 1890, moldando decisivamente, com a sua atuação na política externa, o equilíbrio europeu através de uma diplomacia sofisticada e pragmática, alicerçado nos aclamados “Sistemas de Bismarck” que tinham por objetivos primários isolar diplomaticamente a França, manter a paz na Europa e, com isso, fortalecer a liderança alemã no continente europeu.

O período pós-Guerra Fria, marcado pela primazia ocidental e pela aposta no multilateralismo, deu lugar a um ambiente mais fragmentado, competitivo e imprevisível. Na verdade, a queda do Muro de Berlim, não trouxe uma paz perpétua ou o fim da história, mas antes acabou por vir a resvalar numa realidade geopolítica que nos lembra outros períodos da história e da luta entre as grandes potências.

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China estrutura hoje grande parte da dinâmica global, enquanto, ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se como uma potência revisionista, como é evidente com a atual invasão da Ucrânia. Em paralelo, organizações como a NATO e a União Europeia enfrentam desafios crescentes de adaptação, num contexto em que o direito internacional continua a ser invocado, mas cada vez mais aplicado de forma seletiva.

Este quadro de instabilidade não se limita ao espaço europeu. O Médio Oriente constitui hoje um dos principais focos de tensão global, evidenciando a falência dos mecanismos de contenção internacionais e expondo a fragilidade de entendimentos históricos que apenas contribuíram para aumentar tensões e criar inimigos na região. A rivalidade entre Irão e Israel, os episódios recorrentes de confrontação direta e indireta e o envolvimento de potências externas demonstram como conflitos regionais podem rapidamente adquirir dimensão sistémica. Os riscos associados à segurança energética, nomeadamente no Estreito de Ormuz e o impacto nas diásporas e nos fluxos migratórios reforçam a centralidade desta região no equilíbrio global.

Foi precisamente num contexto europeu igualmente instável que Bismarck construiu a sua visão de política externa. Após a unificação alemã, a sua prioridade não foi a expansão, mas a preservação do equilíbrio de poder. A sua diplomacia assentava num realismo pragmático, na gestão cuidadosa de alianças e na prevenção de conflitos de grande escala. Entre os seus principais instrumentos estiveram a Liga dos Três Imperadores, o Tratado de Contra-Segurança com a Rússia e uma complexa teia de acordos destinada a isolar a França e evitar uma guerra em duas frentes — um cenário que considerava existencialmente perigoso para a Alemanha recém-unificada.

Se transportássemos essa lógica para o presente, é plausível imaginar que Bismarck iria adotar uma abordagem de contenção estratégica. Perante a rivalidade entre grandes potências, procuraria, certamente, evitar alinhamentos rígidos e manter canais de diálogo abertos. No caso do Médio Oriente, privilegiaria a desescalada do conflito e apostaria em soluções negociadas, reconhecendo que a humilhação de qualquer ator regional poderia comprometer a estabilidade a longo prazo. A sua prioridade seria, sem dúvida, impedir que conflitos regionais se transformassem em confrontações globais.

A comparação com Donald Trump permite evidenciar diferenças marcantes na forma de encarar o poder por parte dos dois líderes. Enquanto Bismarck praticava um realismo estruturado e orientado para o equilíbrio, Trump privilegia uma abordagem mais transacional e imediata, centrada na lógica de “America First”. Esta visão traduziu-se, por exemplo, na saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irão e numa política externa marcada pela pressão direta quer sobre os aliados quer sobre os adversários. Ao contrário de Bismarck, que investia na estabilidade das alianças, Trump introduziu incerteza em estruturas como a NATO, questionando compromissos tradicionais e exigindo maior partilha de encargos.

Estas diferenças refletem duas formas distintas de exercer o poder: uma baseada no cálculo estratégico de longo prazo e outra assente numa lógica de decisão mais imediata e assertiva. No Médio Oriente, essa divergência torna-se particularmente evidente, já que decisões unilaterais podem alterar equilíbrios frágeis sem garantir soluções duradouras.

Talvez a principal diferença entre o século XIX e o presente resida na ausência de uma liderança — ou de um conjunto de lideranças — com capacidade para gerir o sistema internacional de forma equilibrada. Hoje, assistimos a uma competição crescente entre potências, a instituições multilaterais com margem de manobra limitada e a conflitos regionais com potencial de escalada global. Neste contexto, a lição de Bismarck mantém-se atual: a estabilidade internacional depende menos de intenções declaradas e mais da capacidade de compreender o equilíbrio de poder e agir com prudência estratégica.

Para países como Portugal, integrados na União Europeia e na NATO, essa lição é particularmente relevante. Num mundo mais incerto, será essencial conjugar a defesa de valores com uma leitura realista do contexto internacional, reforçando alianças, mantendo canais diplomáticos abertos e evitando soluções simplistas para problemas complexos. Revisitar Bismarck não é, por isso, um exercício de nostalgia, mas uma forma de refletir sobre os desafios de um sistema internacional onde o equilíbrio continua a ser o recurso mais escasso — e mais necessário.