Gregory Mann apareceu pela primeira vez em Portugal como representante da NASA na Europa a usar uma gravata colorida e meias com astronautas. O norte-americano que gosta que lhe chamem apenas Greg descreve-se como um “geek” do Espaço e de relações internacionais e é uma espécie de “embaixador” único da agência espacial dos Estados Unidos da América no continente europeu desde o verão de 2025. Numa altura em que o país que representa está ativamente envolvido num conflito militar e numa missão ambiciosa para chegar à Lua, fala com o Observador sobre diplomacia espacial e como a relação conturbada de Washington com Pequim criou uma segunda corrida espacial.
A direção da NASA tem andado a “ziguezaguear”, admite o Attaché da agência espacial. Poucas coisas se mantêm constantes com a sucessiva mudança de representação política no poder, à exceção da missão Artemis (que partirá para a Lua no dia 1 de abril) e da rivalidade com a China. Numa conferência internacional sobre política e diplomacia espacial no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), organizada pela Agência Espacial Portuguesa, Gregory Mann admite que apesar de a maior agência espacial do mundo ter desiludido uma grande parte dos parceiros nos últimos anos, pede “alguma fé” e reconsideração.
“Considerem voltar connosco [para a Lua]”, disse à plateia de especialistas, estudantes e entusiastas. Durante a sua intervenção, sublinhou o seu desejo por uma maior cooperação entre a NASA e as várias agências espaciais europeias, que descreve como uma “coligação de pessoas com ideias semelhantes”. Gregory Mann quer que a Europa, o “bastião da deliberação”, tenha um papel significativo na base que os norte-americanos querem edificar na superfície lunar na próxima década, mas acredita que o mundo está “demasiado acelerado para a diplomacia”. Na sua experiência a promover colaborações internacionais entre a agência e países no sudeste asiático — “alguns dos quais não gostam nada dos EUA” — a receção é sempre a mesma: “Toda a gente adora a NASA”.
Em entrevista ao Observador, aborda a China — o “elefante na Lua” — e enaltece a “transparência” que os EUA quiseram assinalar com os Acordos Artemis — que Portugal assinou no início deste ano —, uma espécie de tratado não vinculativo que pretende alinhar os futuros trabalhos de exploração da Lua e de Marte de forma responsável entre países signatários.

“Chegámos à Lua primeiro por motivos geopolíticos, e só depois veio a Ciência”
Durante muitos anos, o panorama espacial europeu também dependia da Rússia, através do acordo de lançamentos com os foguetões Soyuz. Esta vertente continua a ser explorada, não pela ESA, mas pelos Estados Unidos, nas operações conjuntas na Estação Espacial Internacional. Desde 2022, quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, as relações entre Washington e Moscovo ficaram interrompidas, mas parece que a NASA e a ROSCOSMOS continuaram a comunicar. A política externa espacial transcende a política externa geral?
Arriscaria dizer que tem sido uma coisa boa há muito tempo. Começámos a colaboração espacial com os russos quando ainda era a União Soviética, com o projeto-teste Apollo-Soyuz, que abriu alguns níveis de confiança e comunicação e construiu as bases daquilo que se viria a tornar a Estação Espacial Internacional [ISS, na sua sigla em inglês]. Enquanto pessoa das relações internacionais, acredito que muito de bom veio dessa parceria e que continuamos a ter, entre agências espaciais, relações muito boas e muito fortes com os nossos homólogos russos. Estamos focados no nosso trabalho, nos objetivos comuns e no interesse no Espaço — e na estação espacial que temos de operar e gerir em conjunto. [A relação] Tem sido protegida e mantida fora das tensões geopolíticas exteriores de forma intencional, porque é benéfico para ambos e torna o ambiente no Espaço pacífico. É algo que temos mantido. O que vai acontecer a certa altura, seja em 2030, 2031 ou 2032, é que a própria Estação Espacial Internacional está a chegar ao fim da sua vida e não será reconduzida e a NASA quer tentar promover uma transição para um mercado comercial que, para nós, é o que faria mais sentido a longo curso. A NASA está [na ISS] para fazer aquilo que mais ninguém é capaz de fazer. Quando algo se torna viável, fazível para a indústria comercial, como é o caso da entrega de mercadoria para a Estação ou de transporte de tripulação, tentamos passar o testemunho e pensar no próximo grande desafio.
Qual é esse próximo grande desafio?
Acreditamos que está quase na hora de passar a ISS para os parceiros comerciais, mas isso também quer dizer que deixará de haver uma parceria com a Rússia e, neste momento, a NASA não está a contar cooperar em mais nenhuma vertente espacial ou de ciência do Espaço com os russos. Admito que, nesse sentido, se vá perder uma boa linha de comunicação e confiança, o que eu não acho que seja uma coisa boa. Os russos falaram sobre tirar uma das suas unidades da Estação e tentar continuar a voá-la. Mas não me parece que estejam financeiramente capazes de fazer aquilo que têm andado a dizer, de construir uma estação individual. Parece-me improvável, mas vamos ver o que acontece.
E a guerra, em 2022, afetou de alguma forma os programas espaciais conjuntos que tinham preparados?
Nessa altura já tínhamos excluído qualquer colaboração. Antes fazíamos alguma cooperação científica com os russos. Era, principalmente, a nível de ciência espacial, mas temos uma longa história de cooperação científica e missões com os russos. Porém, já tinham desvanecido muito antes dos ataques na Ucrânia. Não tínhamos qualquer plano de continuar a trabalhar nesse sentido e a guerra não nos fez alterar nada. A única coisa que surgiu foi a discussão sobre se conseguiríamos manter inalterada esta colaboração na Estação Espacial Internacional, e chegámos à conclusão que não conseguiríamos operá-la de outra forma. Foi desenhado para ter dois segmentos dependentes, por isso ninguém abandonava a ISS unilateralmente, o que nos forçou a ficar. Mas, mais uma vez, acho que foi uma coisa boa.
Se a política externa espacial é independente das decisões de política externa da administração, porque é que os mesmos critérios não se aplicam à China, por exemplo? Porque naquela mesma conferência de imprensa desta semana, não disseram nomes, mas ficou subentendido que se referiam a Pequim quando falavam sobre os “rivais” no regresso à Lua.
Tenho algumas coisas a dizer sobre isso. Em primeiro lugar, há um requisito regulamentar específico — a emenda Wolf, de 2011 —, que proibiu a NASA e o nosso Gabinete de Política de Ciência e Tecnologia de cooperar bilateralmente com a China. A decisão foi tomada por pessoas que estão acima do meu salário, mas proibiu qualquer coisa que não sejam fóruns multilaterais para podermos trabalhar com os chineses. Isso coloca alguns desafios, certamente no ambiente lunar, com as naves espaciais em órbita — a NASA consegue localizar tudo o que voa até lá, menos o que é lançado desde a China. Conseguimos fazer as nossas avaliações imperfeitas e estimativas das trajetórias, mas não são boas o suficiente para termos 100% certeza que vamos conseguir evitar uma colisão no Espaço, o que tem sido um desafio, ter de trabalhar às escuras. Tentámos encontrar um caminho, dentro das nossas margens regulamentares, para conseguirmos, pelo menos contactar-nos e partilhar algum tipo de informação mais diretamente. Mas estamos proibidos e, por isso, tornou-se uma corrida. Os chineses têm-se mantido bastante estáveis e focados ao longo dos últimos anos naqueles que são os seus objetivos e planos a longo prazo. Têm os seus prazos bem definidos para quando querem chegar à superfície lunar com humanos. Nós começámos este novo grande esforço não só para acelerar o regresso dos astronautas [à Lua], mas para começar a estabelecer e construir infraestrutura e garantir que ficamos lá muito tempo. O que foi, claro, impulsionado pela decisão chinesa.
Porquê?
Há um sentimento real de quem acabar por ser o primeiro a chegar desta vez vai definir, direta e indiretamente, grande parte das normas, das expectativas, da interoperabilidade, e as questões relacionadas com as comunicações e as frequências começarão a ser estabelecidas. E nós preferíamos que fosse a NASA e os Estados Unidos e os nossos parceiros com visões semelhantes nesta área. Tenho a certeza de que, a certa altura, estaremos ambos na superfície lunar, tal como estamos agora na órbita terrestre baixa, a coexistir e a seguir o nosso próprio caminho. Nesse sentido, penso que haverá uma participação chinesa na superfície lunar e que a NASA, juntamente com os seus parceiros dos Acordos Artemis, iremos realizar atividades em conjunto [com a China]. Há uma preocupação em saber quem vai chegar lá primeiro, e estamos determinados a que sejamos nós.
Então estamos mesmo perante uma nova corrida espacial, não contra a então União Soviética, mas sim com a China — se bem que esta parece um pouco mais intensa…
O que está em jogo parece ser [maior]. É engraçado, porque algumas pessoas dizem que, como já lá estivemos, que já ganhámos a corrida. “Porque é que estamos numa corrida outra vez? Já ganhámos”, perguntam. Mas já se passaram 57 anos e uma grande parte da população não estava viva naquela altura e não o viu acontecer — outros nem sequer acreditam que realmente aconteceu. E, portanto, existe este sentimento de que temos de voltar a prová-lo. Não interessa. A geopolítica tem desempenhado um papel importante no espaço desde o início, e a NASA foi fundada por razões geopolíticas. Chegámos à Lua primeiro por motivos geopolíticos, e só depois veio a Ciência. Houve muita coisa positiva que veio disso, foi muito benéfico para a Humanidade em termos tecnológicos e de inspiração de desenvolvimento científico. Mas a geopolítica foi sempre a força motriz.
Portanto podemos afirmar que estes esforços renovados para chegar à Lua são mais políticos do que necessariamente científicos?
A política está a acelerar as coisas. Já estávamos a planeá-lo, estava na nossa trajetória, mas estamos a tomar medidas para tentar apressar os prazos. E achamos que é possível. A tecnologia está lá e está disponível, o que nos faltava era uma vontade política clara e o foco da administração, do nosso Congresso e da NASA. Agora, temos um administrador que diz “Vamos fazê-lo acontecer”.
E pensaram em algumas salvaguardas para garantir que, quando a China chegar à Lua, exista uma forma de resolver potenciais disputas territoriais ou conflitos? Para garantir que a corrida não passa a uma guerra lunar.
Esperamos que os Acordos, pelo menos, estabeleçam um ponto de referência em relação às nossas expectativas. A China, evidentemente, não assinou esses Acordos, mas estabelecem o que chamamos de zonas de exclusão. Estas não são definidas em termos de metros quadrados, mas sim com base na ideia de que, se se estabelecerem limites no espaço, é possível, de certa forma, mantê-los e não ser perturbado. Mas é uma excelente questão, porque, em última análise, tanto os EUA e os nossos parceiros do lado dos Acordos, como os chineses estão de olho no polo sul da Lua. Acreditamos que é aí que os recursos hídricos serão mais facilmente acessíveis. É também um local onde se pode obter luz solar de forma mais contínua. São esses os dois grandes impulsionadores. Portanto, mais uma vez, trata-se de imobiliário, imobiliário, imobiliário, mas há uma mão cheia de localizações, digamos, seis a oito locais que identificámos e os chineses identificaram os mesmos. Eles estão a considerar o mesmo tipo de preocupações e requisitos. Há a sensação de que, por maior que seja a Lua, existem alguns locais ou áreas privilegiadas. Isso pode tornar-se um problema se estivermos mais próximos uns dos outros em termos de calendário e ambos identificarmos que este é o local que queremos. Os chineses, no entanto, vão aterrar, pelo menos na sua missão inicial, na região equatorial e, por isso, pelo menos dessa perspetiva, não vão diretamente para o Polo Sul. É muito mais complicado de fazer, é muito mais desafiante. Vamos ver como corre, mas acho que as operações a nível lunar vão evoluir um pouco mais tarde. Vamos começar a por precursores e elementos, mas acho que vamos estar bem encaminhados. Se conseguimos orientar-nos [com os chineses] em órbita terrestre baixa, acho que vamos conseguir também na Lua.
“Olhamos para Portugal, por exemplo, onde há oportunidades a nível internacional com parcerias da NASA”
Mantendo-nos na questão de cooperação internacional na exploração da Lua, acho que é importante referirmos que Portugal foi um dos mais recentes signatários dos Acordos Artemis no início deste ano. Teve algum papel nas negociações? Porque é que acha que demorámos “tanto tempo”, se a maioria dos Estados-membros da ESA já o tinham feito?
Temos uma pequena equipa na NASA que trabalha em coordenação com o nosso Departamento de Estado e gere toda essa atividade. Por isso, não tenho nada a ver com este timing. Mas posso dizer que houve vários países da Europa que olharam e olharam bem para aquilo que estávamos a tentar alcançar com estes Acordos e se estariam em conformidade com o tratado do Espaço Exterior da ONU em vigor. Diria que, essencialmente, o que lá está se baseia no tratado das Nações Unidas e contém muitos aspetos positivos sobre a utilização pacífica do espaço, a transparência, a abertura e as zonas de exclusão. Mas sim, Portugal não estava sozinho. Havia muitas pessoas a analisar a mesma questão.
Sim, dos países que compõem a ESA, só falta mesmo a Irlanda…
A Irlanda ainda não assinou, por isso também há uma pendência nesse caso. A Turquia está a preparar-se para o assinar e Malta também. Por isso, não creio que estivesse de forma alguma em contradição. Além disso, há apenas a vertente política. Ou seja, não é uma decisão da agência espacial, é uma decisão a nível político ou governamental e, por isso, mesmo sendo um acordo não vinculativo, é um acordo e, como tal, os governos analisam-no atentamente.
Acredita que é a questão política que está a deixar o governo da Irlanda, por exemplo, mais reticente em assinar os acordos?
Já tivemos algumas conversas com eles e acho que estamos a fazer progressos. Também não ajuda que eles não tenham uma agência espacial dedicada que consiga explicar a importância destes Acordos ao Governo. Mas eu estive recentemente numa reunião para ajudar a esclarecer algumas questões e, por isso, acho que talvez este ano [assinem]. Não acho que tenha havido nada fora de linha com a situação de Portugal, muitos países demoraram a olhar e ler, mas acho que no próximo ano vamos ver ainda 10 a 15 outros países a assinar.
Admite que o caráter não vinculativo dos acordos deixe alguns países com algumas reservas em assinar e aderir a este compromisso?
Acredito que uma boa parte das reservas têm, de facto, origem no contexto geopolítico. É como se grande parte dos meios de comunicação tivesse tentado apresentar isto como se estivéssemos a fazer o mesmo que a China e a Rússia com a International Lunar Research Station [ILRS, na sua sigla em inglês, numa referência ao acordo entre os dois países para construir a estrutura], quando na realidade não é nada disso. Não se trata de comparar coisas semelhantes, são tipos de compromissos muito diferentes. Nós gostamos de uma boa discussão. Mas as pessoas olham para estas [reservas] em países que têm diferentes interesses em jogo, diferentes dinâmicas e diferentes preocupações, e tentam perceber se estão a envolver-se em algo político sobre o qual talvez não queiram tomar uma posição. Por isso, acho que isso também entra em jogo o tentar perceber o que isso significa. Considero que os Acordos são uma forma realmente poderosa de os países com ideais comuns e envolvidos na exploração espacial afirmarem que vamos erguer a voz e defender que estes princípios são relevantes e que, se nos unirmos, trabalhando em conjunto e avançando para esta próxima fase da exploração humana de regresso à Lua e em direção a Marte, transmite uma mensagem verdadeiramente poderosa.
Enquanto representante da NASA na Europa, o seu papel passa por tentar fazer com que os diferentes países invistam mais na indústria espacial. Como é que faz esse convite a países que estejam em maiores dificuldades económicas ou com outras prioridades?
Não encorajo ninguém diretamente para investirem mais. Falamos sobre onde estão, economicamente, e onde podem alocar os fundos que têm disponíveis. Falamos sobre coisas como, por exemplo, os Estados-membros mais pequenos, as agências espaciais que não dispõem de orçamentos tão elevados, para que se concentrem e digam: “Muito bem, vamos ver onde é que o vosso país tem força e capacidade industrial”. Para estes países, é quase um processo em duas fases, porque é preciso analisar o que a comunidade europeia e os Estados-membros da ESA estão a fazer, identificando onde existe potencial para intervir ou colmatar uma lacuna; a questão do retorno geopolítico e industrial é importante neste contexto, pelo que é fundamental compreender onde existe um maior potencial de impacto. Mas, mesmo assim, olhamos para Portugal, por exemplo, onde há oportunidades a nível internacional com parcerias da NASA, onde há áreas que não estão saturadas. Toda a gente quer construir um rover para a Lua. Esta semana abrimos a possibilidade de mais rovers aterrarem na Lua, mas há duas semanas teria diria que temos recusado muitas dessas propostas. Ao analisar onde existem pontos fortes potenciais, [os países europeus] poderiam ocupar áreas que não estão saturadas e dizer: “Muito bem”. Trata-se de maximizar o orçamento e o impacto. Sei que Portugal gasta grande parte do seu financiamento [no Espaço] através da ESA. Acho que é verdadeiramente útil, porque obtêm muito mais benefícios e impacto do investimento do que se tentassem fazer um ou dois pequenos projetos com a NASA.

“A única opção, naquela altura, eram os russos, o que não era ideal na altura — agora é ainda menos”
Ainda sobre a ESA, tem sido repetido várias vezes que o foco da Europa, neste momento, tem de ser alcançar a autonomia relativamente à NASA no acesso ao Espaço. Esta missão preocupa a NASA, ou pode levar a uma maior possibilidade de contribuir para projetos conjuntos?
Acho que é mais a segunda opção. Para a NASA, embora não queiramos ver a Europa e a ESA reduzirem significativamente o seu financiamento para os projetos internacionais que estamos a realizar em conjunto com o objetivo de alcançar o acesso autónomo ao espaço, gostaríamos muito que o tivessem. Na verdade, temos vindo a discutir com alguns dos parceiros sobre algumas áreas que consideramos que seriam realmente muito úteis para levar seres humanos ao espaço e à sua órbita, e nas quais vemos potencial. Para a NASA, torna-se uma redundância diferente que acaba por ser mesmo um apoio crucial. Quando acabámos o programa do Space Shuttle, demorámos anos até voltarmos a lançar humanos para o Espaço. A única opção, naquela altura, eram os russos, o que não era ideal na altura — agora é ainda menos. Achamos que é fabuloso [a ESA] ter esse objetivo. Seriam um parceiro ainda mais forte. Mas isso vai exigir um grande investimento em recursos e bastante tempo até ser concretizado.
Referiu que andavam a falar com países individualmente para projetos específicos. Pode dar alguns exemplos?
É mais uma abordagem genérica, quando falo com os países e eles perguntam: “Onde podemos fazer mais?”, que depois leva a discussões sobre o tipo de recursos que têm. Não lhes apresento exemplos pré-definidos [de áreas que podem explorar]. Mas digo-lhe uma coisa, com base no anúncio desta semana, ao longo das próximas semanas e meses, a NASA vai apresentar alguns projetos muito detalhados e concretos, coisas de que precisamos para começar a construir a base lunar. São áreas em que adoraríamos ver os nossos parceiros internacionais, ou, neste caso, a indústria internacional a dar um passo em frente para preencher essa vaga. Acho que vai haver quase um menu com os tipos de oportunidades, o que é um pouco diferente do que fazemos. Nós perguntamos: “O que gostariam de construir?” E depois dizemos: “Bem, não precisamos de algumas dessas coisas”. Mas acho que isso está a mudar. Vamos simplesmente dizer: “Aqui estão várias áreas, digam-nos onde se podem encaixar”.
Esta semana, durante a conferência de imprensa em que Jared Isaacman [administrador da NASA] anunciou o projeto de construção da base lunar, mencionou que a Agência Espacial Italiana poderia estar envolvida nos módulos habitacionais para os astronautas. Há mais alguma ideia de um projeto europeu previsto para a futura base na Lua?
Na verdade, isto já vem de há algum tempo. Estamos em conversações com a agência de Itália há já algum tempo. Ainda não temos um acordo assinado, mas, na verdade, temos uma negociação neste momento. Os italianos têm vindo a estudar a construção de uma estrutura habitacional que poderá evoluir para se tornar em várias estruturas habitacionais, quer algumas de pequena a média dimensão, quer talvez algo maior do que aquilo que têm em mente. Mas isso já está em andamento. Os europeus estão em negociações há algum tempo sobre o seu módulo de aterragem Argonaut. Vamos precisar de muita capacidade de aterragem de carga na superfície lunar e, por isso, iremos certamente contar com a Agência Espacial Europeia para ver até que ponto podem aumentar tanto o volume de entrega de carga útil em si, levando mais massa métrica para a superfície lunar, como também a frequência dessas missões, uma vez que intensificámos significativamente a nossa intenção e a cadência de aterragens. Chegar lá uma vez a cada dois anos é menos interessante do que duas vezes por ano. Continua a ser ciência espacial, continua a ser difícil aterrar na Lua e nós compreendemos isso. Estamos a incentivar os nossos parceiros a intensificarem os seus esforços para que haja mais oportunidades para a sua indústria e para as próprias agências.
E, como sabe, obtivemos muito recentemente a primeira licença para um porto espacial em Portugal, na ilha de Santa Maria, nos Açores. É um local para onde a NASA está a olhar para possíveis operações, por mais pequenas que sejam?
É desafiante. Temos leis e regulações bastante rigorosas sobre quando e por que motivo recorreríamos a uma base de lançamento internacional. Isso aplica-se até mesmo no caso de se tratar de uma missão ou apenas carga útil da NASA. O telescópio James Webb foi lançado no Ariane, o que constituiu um enorme benefício para os nossos parceiros da Agência Espacial Europeia, e ficámos muito gratos por isso. Mas isso exigiu explicar por que o estávamos a fazer desta forma, obter validações e novos requisitos. Por isso, penso que será difícil para nós fazer muito diretamente com o porto português. Tenho vindo a encorajar o pessoal da Agência Espacial Portuguesa a não depositar esperanças nisso. Acho que estão bem posicionados nesse mercado e que têm algumas vantagens nessa localização, mesmo que exista alguma concorrência na Europa. É uma aposta de risco. Se Portugal investir muita da sua investigação e financiamento espacial lá, e depois acaba por não ser muito bem sucedido, vai ser muito difícil. É uma daquelas áreas em que preferimos não nos meter. Talvez possa dar alguns conselhos aqui e ali, mas a NASA não vai ser o salvador que aparece para comprar lançamentos e fazer muitas coisas por lá. Pode acabar por ser um local que usaríamos como uma das nossas zonas de retorno seguro ou algo do género. Há certos cenários que podem vir a acontecer, mas certamente não seremos o inquilino principal do sítio.


