Ao longo dos anos, a inovação tornou-se o “santo graal” de empresas e governos. Face às crises e desafios societais que enfrentamos – alterações climáticas, migrações, pobreza e guerras – a inovação tende a ser vista como a nossa melhor esperança enquanto sociedade. Mas as definições atuais de inovação limitam o seu potencial para responder a problemas complexos. O sentido original de inovação era o de criar valor para as pessoas, as organizações e a sociedade. Com o passar do tempo, porém, o conceito de valor foi-se estreitando até se confundir com o lucro económico de poucos, relegando para segundo plano o valor a longo prazo para as pessoas e para a sociedade. Ecoando as vozes que defendem que todos os empreendedores deveriam ser empreendedores sociais, ou que todo o investimento deveria ser investimento de impacto, podemos afirmar agora que toda a inovação deveria ser social. Em vez de “unicórnios” (startups que se concentram no crescimento rápido, avaliações exorbitantes e lucros massivos) devemos criar “zebras” – iniciativas que conciliam sustentabilidade, rentabilidade e impacto social. Esta ideia não é nova; há mais de trinta anos que modelos como a “tripla linha de base” (Pessoas, Planeta e Lucro) são discutidos. O que falta é colocar esses princípios em prática – já que são mais necessários do que nunca.
Partindo da ideia de que o caráter social é uma condição necessária para qualquer tipo de inovação, propomos uma equação de três variáveis: Novo × Valor × Social = Inovação. Primeiro, a inovação precisa de ser nova – para os utilizadores ou para o contexto. Segundo, deve ser útil – criando valor através da aplicação prática de ideias novas e relevantes. Terceiro, deve ser social – abrangendo tanto as questões das pessoas como as do planeta. Isto não é apenas um “extra” desejável, mas uma condição essencial. Tal como numa equação matemática, se uma variável for nula, o resultado é zero — ou seja, não há inovação. Além disso, como considerar “inovador” um produto ou serviço que gera (ou agrava) desigualdades, prejudica grupos de pessoas e/ou contribui para a destruição do planeta? Esta equação de três variáveis obriga-nos a compreender a criação de valor de forma abrangente e sistémica, onde as consequências negativas não intencionais não são ignoradas.
Tomemos o exemplo dos telemóveis. Transformaram as nossas vidas: comunicamos, entretemo-nos e trabalhamos de forma diferente. Deram origem a inovações poderosas, como a banca móvel, o apoio em situações de catástrofe ou a saúde. A banca móvel, por exemplo, promove a inclusão financeira de pessoas em regiões remotas do Sul Global sem acesso a serviços bancários tradicionais, permitindo-lhes transferir dinheiro facilmente. No entanto, os smartphones também têm sido associados a comportamentos compulsivos e sensação de dependência, gerando stress, ansiedade e falta de concentração. A tal ponto que, segundo um relatório da UNESCO de 2023 um quarto dos países já proibiu o uso de telemóveis nas escolas. Os telemóveis ilustram que a tecnologia, por si só, não é boa nem má. É fundamental compreendê-la no seu contexto e numa perspetiva sistémica ao decidir como implementar um novo produto ou serviço.
O mesmo se aplica à inteligência artificial generativa. O seu potencial é inegável. Pode acelerar descobertas científicas e recorda-nos igualmente a importância de refletir sobre as implicações da inovação e de considerar a sua dimensão social. O desenvolvimento de grandes modelos de linguagem e de centros de dados tem um enorme impacto ambiental, perturbando ecossistemas locais devido ao consumo de eletricidade e à grande quantidade de água necessária. Os impactos sociais da IA generativa são igualmente significativos: deslocação de empregos, discriminação e exploração laboral (como a rotulagem de dados e filtragem de conteúdos tóxicos por trabalhadores mal remunerados no Sul Global).
Alguns dirão que “a inovação tem custos” e que devemos simplesmente adaptar-nos. Mas, perante os enormes desafios globais e complexos que enfrentamos, será assim tão impossível que as empresas e os governos desenvolvam inovações que sejam rentáveis e responsáveis, evitando causar danos ao planeta e aos seres humanos? O lema de Silicon Valley, “mover-se depressa e quebrar coisas” está esgotado. É por isso que defendemos que, sem a variável social, a equação da inovação fica incompleta.
Hoje, face aos múltiplos desafios globais, precisamos de nos afastar das práticas de inovação que tendem a privilegiar os retornos económicos em detrimento dos retornos sociais e ambientais. Mais do que nunca, é urgente adotar uma perspetiva holística da inovação – com a dimensão social no seu núcleo. Esta mudança representa uma evolução necessária no discurso sobre inovação, tendo em conta os desafios globais urgentes, como as alterações climáticas e o agravamento das desigualdades. E levanta questões fundamentais se quisermos passar das palavras à ação: Que políticas, regulamentos e mudanças institucionais podem incentivar uma abordagem mais holística à inovação, integrando a variável social? Como podemos avaliar se as inovações satisfazem realmente as três variáveis da equação da inovação? De que forma os sistemas financeiros podem ser reestruturados para recompensar a inovação social em vez do simples “greenwashing”? Responder a estas perguntas vai muito além de um exercício técnico. Trata-se de decidir que futuro queremos construir e para quem. Porque inovar não é apenas criar algo novo. É criar algo novo que faça sentido — para as pessoas, para o planeta e para o bem comum.