No passado sábado, dia 21 de março, ocorreu, em várias cidades do país, incluindo Lisboa, a Marcha pela Vida. Esta iniciativa cívica, apartidária e não confessional, procurou afirmar a defesa da vida desde a conceção até à morte natural.
Estavam presentes várias pessoas, incluindo famílias com bebés e crianças. Subitamente, um indivíduo pertencente a um grupo extremista contestatário lançou um cocktail molotov para a multidão, atingindo com gasolina várias pessoas, entre elas crianças. Felizmente, o rastilho não se incendiou e, quando procurava consumar o seu ato criminoso, foi inicialmente impedido por algumas pessoas e, depois, detido pela PSP.
Este acontecimento criminoso é absolutamente condenável. Não sabemos se este grupo se revê no chamado wokismo, nem é justo tomar um gesto extremo como representação fiel de qualquer corrente mais ampla. Contudo, é preciso olhá-lo com maior profundidade, já que a sociedade portuguesa está bipolarizada e a intolerância continua a crescer. A contribuir para este clima de agressividade está a hostilidade contra quem defende a vida e a família enquanto célula essencial da sociedade.
Mas por que razão a família tem sido tão atacada por esta corrente pós-modernista que procura impor uma visão da pessoa assente no hiperindividualismo e na autodeterminação? A estratégia parece animada por uma lógica de poder cultural e de intolerância face à dissidência. Quem pretende moldar a sociedade, através de uma doutrina política, começa por tentar enfraquecer a célula familiar. Há muito tempo que se percebe que, onde existem homens e mulheres seguros do amor que os une e que são capazes de o transmitir aos filhos, esta instituição é resiliente, resistindo à investida de qualquer ideologia radical.
A exaltação unilateral dos direitos e a reparação histórica dos oprimidos face aos opressores tornaram-se para alguns uma verdadeira obsessão. Foi neste contexto que nasceu um movimento social e político que encontrou no wokismo a sua expressão mais ampla. O radicalismo conquistou empresas multinacionais, os media, as universidades, as artes, o desporto, etc. Em muitos países, o Estado deixou-se capturar por esta vaga ideológica que, com o passar do tempo, tem mostrado uma tendência preocupante para a intolerância face a todos aqueles que a ela se opuseram.
Criou-se um ambiente de medo e tornou-se prática comum o cancelamento de pessoas que expressavam opiniões contrárias: realizaram-se campanhas de humilhação pública de individualidades, destruíram-se carreiras e perderam-se empregos por delito de opinião. Surgiu, um pouco por todo o lado, uma atitude inquisitorial: rotulou-se com epítetos redutores, expôs-se, exigiu-se retratação e puniu-se socialmente. Este clima intimidatório, tão característico dos regimes totalitários, corroeu o debate democrático, restringindo a liberdade de expressão e terá favorecido o aparecimento de grupos extremistas.
Mas a maioria silenciosa cansou-se e começou a reagir, travando o radicalismo e o desvario social e político dos últimos anos. Os sinais recentes revelam as fragilidades e a decadência da atual corrente ideológica centrada no indivíduo. Esta corrente cultural deve ser criticada não só por falhar respostas e mudanças duradouras sobre a natureza humana, mas sobretudo por absolutizar uma liberdade sem compromisso com a verdade e por cultivar um bem-estar autocentrado. Enquanto se revela um fenómeno efémero que trouxe vazio e desorientação à existência humana, a família permanece como sinal de amparo para quem vive a solidão e o abandono. Por isso, afirma-se como uma instituição perene, acima das mudanças sociais, culturais e políticas.
A manifestação de violência ocorrida na Marcha pela Vida parece revelar o desespero de um grupo minoritário extremista e anárquico que, ao ver as suas ideias perderem força através do confronto com a realidade, recorre à brutalidade. Este comportamento é absolutamente inaceitável em democracia. Mas a própria Marcha pela Vida mostrou também outra realidade: a presença serena de muitas famílias com bebés e crianças, sinal de que o vínculo familiar continua bem presente no tecido social e permanece, para muitos, como lugar de proteção e esperança.
A família não é perfeita nem está imune a conflitos e falhas, como a experiência de todos mostra. Mas a instituição familiar, como expressão de vínculo de amor incondicional, é uma verdadeira âncora e abrigo da pessoa humana, imune às modas efémeras e aos experimentalismos sociais. Por conseguinte, continua a ser uma instituição insubstituível e intemporal.