Afirmei há 15 dias, no Observador, que isto estava em preparação. Agora os factos vieram dar-me infelizmente razão e o que se cozinhava concretizou-se: no passado dia 25 de Março, por proposta do Gana, a Assembleia Geral da ONU deliberou que o tráfico transatlântico de escravos foi o mais grave crime contra a humanidade. Reparem que não foi um crime contra a humanidade — algo que já fora definido há 200 anos, ainda que noutra terminologia, e com que, ao que suponho, todos certamente concordamos — foi, segundo a ONU, o maior, o mais grave, de todos eles. Sim, leram bem, maior do que o Holocausto, por exemplo, ou do que dezenas de outros grandes e devastadores crimes que se cometeram no passado e que é histórica e moralmente impossível de hierarquizar entre si. Os nossos antepassados que no século XIX lutaram contra o tráfico transatlântico de escravos e lhe puseram fim classificaram-no como “crime contra as gentes” — era essa a designação da época —, mas nunca afirmaram que fosse o maior de todos eles pois não havendo (e continuando a não haver) escala que permita medir tais coisas isso seria um manifesto absurdo.
Foi esse passo absurdo que a ONU veio agora dar para fazer a boca doce aos objectivos políticos dos países africanos e à sua visão dos acontecimentos da história universal. Que esta aberração tenha sido votada favoravelmente por 123 países, incluindo, claro está, o Gana e os países africanos que a propuseram e os das Caraíbas que andam há muito a prepará-la, e faróis dos direitos humanos e da não-violência como, por exemplo, o Irão, não deverá espantar-nos. Também não deve espantar-nos o discurso seguidista e esponjoso, que António Guterres fez na ocasião pois corresponde ao que de há muito nos habituou. Aliás, nunca tive dúvidas de que sendo a ONU aquilo que é, a proposta do Gana iria passar facilmente e teria em Guterres um apoiante e acólito. Mas tinha curiosidade em ver qual seria a posição europeia e tinha, confesso, a esperança de que fosse clara e francamente contrária às pretensões do Gana. O que me espanta e revolta é que só tenha havido três votos contra essa pretensão — os dos Estados Unidos, da Argentina e de Israel — e que tenham sido contadas 52 abstenções entre as quais as dos países da europeus, tanto os que tiveram um passado colonial em África, como o Reino Unido ou a França, como os que nada tiveram a ver com esse quadro, como sejam a Hungria ou a Albânia. O facto de todos esses países se terem abstido revela bem até que ponto o trabalho de sapa levado a cabo ao longo de décadas nas escolas e universidades, adubado pelo wokismo de tempos mais recentes, conseguiu plantar eu fazer frutificar um sentimento de culpa das populações europeias brancas relativamente à história colonial de algumas delas.
Portugal foi um dos países que se absteve, quando, em minha opinião, deveria ter votado contra pelas razões que ando a defender há anos e que expliquei de forma mais específica no artigo no Observador já referido acima. A abstenção do nosso país na votação do dia 25 de Março e a sua dificuldade em (ou o seu receio de) assumir frontalmente que não faz qualquer sentido histórico ou filosófico classificar uma violência como sendo a maior de todas, e que o único propósito que isso tem é o de ir preparando os espíritos de governantes, governados e legisladores para o futuro pagamento de reparações, são a meu ver vergonhosas. Igualmente vergonhoso é que o governo não se tenha dado ao trabalho de explicar esta sua posição ao país. Nesta área, como, aliás, na área do ensino da História, o governo evita falar. Não quer comprometer-se nem dar nas vistas. Avança pela calada, cosido com as paredes para não se fazer notado, procura camuflar-se e dissolver-se no meio dos seus congéneres europeus. A interpretação mais benevolente é a de que não tem qualquer posição quanto a isto e que anda a reboque de Bruxelas numa espécie de “Maria vai com as outras”; a tese mais dura, mas provavelmente mais próxima da verdade, é a de que, à semelhança de Marcelo Rebelo de Sousa, os nossos actuais governantes Luís Montenegro, Paulo Rangel e outros altos responsáveis pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros consideram que o tráfico negreiro praticado pelos europeus foi, efectivamente, o maior crime contra a humanidade alguma vez praticado e que isso merecerá castigo, pedidos de desculpa e uma gorda indemnização, estando dispostos a pagá-la.
É para mim claro que quando o nosso representante na ONU se abstem em vez de se opor frontalmente a algo que é absurdo e que visa, de forma explicita, obter reparações materiais pelo tráfico transatlântico de escravos e a escravidão — e, futuramente, pelo colonialismo — tem a perfeita noção, tal como o governo em Lisboa também a terá, de que esse voto equivale a um “nim” e que é meio caminho andado para vir a anuir, num próximo futuro, a pagamentos aos países africanos e caribenhos. Terão, também, provavelmente, a convicção de que é preciso esconder isso do país, pois é o que têm feito. Ora tudo isto é lamentável, tanto a acanhada, frouxa, encolhida, abstenção, como o facto de ela ter sido preparada e efectuada às escondidas dos portugueses. Por que razão se votou desse modo? Com que fundamentos lógicos e históricos? Com que objectivos diplomáticos e políticos? Com que razão, nexo e moral? Como eleitor que votou na AD e que tem apoiado a sua acção governativa sinto-me profundamente frustrado e desiludido com este posicionamento do governo português. Esta abstenção é uma vergonha para nós e não augura nada de bom.