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Eleições na Hungria: ponto de viragem para a União Europeia?

O dia 12 de abril será decisivo para a Hungria e para a União Europeia. As escolhas feitas em Budapeste não terão apenas consequências nacionais, influenciando o futuro do apoio da UE à Ucrânia.

Tiago Farinha
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As eleições legislativas de 2026 na Hungria estão a configurar-se como um dos momentos políticos mais expectantes na Europa dos últimos anos. Embora as eleições nacionais não tenham implicações que ultrapassem a política interna, a Hungria é um caso de exceção. Sob a liderança prolongada de Viktor Orbán, o país tornou-se nos últimos anos um ponto central de contestação política e ideológica dentro da União Europeia.

Ao longo da última década, a Hungria tem seguido um caminho político distinto sob a liderança do primeiro-ministro Viktor Orbán, frequentemente descrito como um modelo de governação “iliberal”. A União Europeia tem manifestado preocupações relativamente à liberdade dos meios de comunicação, à independência judicial e à erosão do Estado de direito, recorrendo a mecanismos como o Artigo 7.º do Tratado da União Europeia e a instrumentos de condicionalidade do Estado de direito, que levaram à suspensão ou atraso de milhares de milhões de euros em fundos de coesão e de recuperação. Ao mesmo tempo, o agravamento da relação com a União Europeia tem gerado pressão adicional e desafios económicos para o governo, criando espaço para o crescimento das forças da oposição, em particular o partido Tisza, liderado por Péter Magyar, que surgiu como uma alternativa credível ao longo domínio de Orbán.

Os dados de sondagens atualizados no início de março sugeriam que, pela primeira vez em mais de uma década, Viktor Orbán (Fidesz) estava atrás da oposição — um cenário que tem atraído atenção em toda a União Europeia. No entanto, com a campanha a entrar na sua fase final, dados do Nézőpont Intézet indicam uma vantagem de Orbán nas intenções de voto. Isto significa que, até ao dia das eleições, a disputa deverá manter-se competitiva e as estratégias colocadas em prática serão decisivas.

Neste contexto, vários líderes da direita radical europeia — incluindo Marine Le Pen (França), Matteo Salvini (Itália), Geert Wilders (Países Baixos) e André Ventura (Portugal) — deslocaram-se a Budapeste para apoiar Viktor Orbán. Este facto demonstra como estas eleições estão inseridas num processo mais amplo de realinhamento político transnacional, no qual atores nacionalistas coordenam narrativas, estratégias e apoio político além-fronteiras. Já o opositor Péter Magyar tem concentrado a sua campanha pelo interior.

Ainda assim, os resultados das eleições parlamentares na Hungria não se resumem a quem governará o país. Tem implicações significativas para a direção futura da própria União Europeia, nomeadamente no que diz respeito ao seu apoio político, financeiro e militar à Ucrânia.

Uma renovação do mandato de Viktor Orbán significaria a continuação da posição húngara de travar ou bloquear iniciativas europeias relacionadas com a Ucrânia, alinhando-se, em certa medida, com os interesses estratégicos da Rússia. Mais recentemente, Budapeste vetou um pacote de empréstimo de 90 mil milhões de euros destinado a apoiar os esforços de defesa de Kyiv, e com isso as tensões com a Ucrânia aumentaram no domínio da segurança energética, sobretudo devido a interrupções no trânsito de petróleo através do oleoduto Druzhba — do qual a Hungria, juntamente com a Eslováquia, continua dependente. Estes desenvolvimentos além de terem gerado críticas em Bruxelas e de terem exposto, uma vez mais, fraturas na unidade da União Europeia em relação à política para a Ucrânia, levaram à suspensão de gás da Hungria para território ucraniano.

Por outro lado, uma vitória de Péter Magyar e do partido Tisza — frequentemente visto como a opção preferida de Bruxelas — poderá sinalizar uma mudança para uma posição mais cooperativa e pró-europeia. Tal transição poderá facilitar a reaproximação da Hungria aos mecanismos de financiamento da UE e restaurar o alinhamento com os objetivos comuns de política externa e de segurança, incluindo o apoio financeiro e militar à Ucrânia. De forma mais ampla, poderá também enviar um sinal claro de que uma mudança política interna pode reajustar a posição da Hungria junto da União Europeia.

No entanto, para além destes dois cenários, existe um terceiro — e potencialmente desestabilizador — que importa considerar: um resultado fragmentado ou contestado. Um desfecho disputado poderá gerar instabilidade política, enfraquecendo a governação interna da Hungria e reduzindo a sua eficácia nos processos de decisão da União Europeia. Além disso, tendo em conta o atual contexto económico, no qual a própria União Europeia desempenhou um papel relevante devido à suspensão de fundos, uma crise política teria provavelmente repercussões internas e externas, podendo também favorecer a Rússia no que diz respeito ao apoio europeu à Ucrânia.

Tanto a Rússia como a União Europeia acompanharão de perto o desfecho destas eleições, dada a sua relevância para a unidade europeia e para a evolução da guerra na Ucrânia.