Oiço com ironia e espanto os comentadores, os estados de alma, as interpretações espúrias dos exercícios diplomáticos e de guerra.
Pergunto-me se está esquecido o mandamento básico de qualquer exercício de poder.
Se alguém que o tem, ou se presume ter, falhar em mantê-lo, outro virá para lho tomar.
Nem é um dado da Natureza Humana. É um dado da Natureza tout court.
Práticamente todo o século XX foi marcado pela ascensão de dois poderes, o russo e o americano, tendo os restantes protagonistas ou perdido muito poder – caso dos países europeus do ocidente – ou passado a jogar com vista a afirmação de poder regional e projecção futura.
Os conflitos a que temos estado a assistir desde a queda do bloco comunista deveriam assim, na minha modesta opinião, ser analisados segundo este prisma.
Bem ou mal, até 1990, existia um equilíbrio de poder, volátil, mas bem definido. Poder-se-ia dizer que os Países ou se encostavam mais a um lado, ou a outro, ou fingiam ser uma terceira via. Mas eram poucas as dúvidas de como as coisas funcionavam.
A partir da última década do século XX, passada a euforia do tempo de liberdade e transformação a que se chegou ao exagero de proclamar o fim da História, esperou-se uma concordância universal de regimes e pensamentos.
Não aconteceu.
No nosso mundo das democracias ocidentais, fortes ou ricas que sejam, mas condicionadas, para o bem e para o mal, pela sua opinião pública ou publicada, estas partem em desvantagem para a luta com Países que têm grande eficácia de decisão, por terem governos ditatoriais ou semi-ditatoriais, ajudados muitas vezes por pensamentos totalitários, sejam eles políticos, religiosos ou político-religiosos.
Tomemos alguns exemplos históricos que ajudarão ao nosso raciocínio e que, na espuma das opiniões de hoje, são convenientemente esquecidos.
Na crise do Suez em 1956 em que Nasser quis impor a nacionalização do canal – via económica fundamental para a Europa, pelo menos – e que era explorado por um consórcio ocidental, cujos Países detentores de direitos entenderam agir militarmente tendo rápidamente as forças conjuntas da França, Reino Unido e Israel retomado a posse do canal, tendo sido obrigadas a retirar por influência e eventual miopia (à luz de hoje) dos EUA. A partir daí foi o descalabro de qualquer poder europeu, não se percebendo muito bem o que a América ganhou.
Na guerra do Vietname os EUA nunca puderam utilizar o seu potencial absoluto e foram derrotados, não na frente de combate, mas na frente interna.
A crise de 1973 do petróleo seria impensável sem o contexto da guerra fria e o apoio que existiu da União Soviética aos países da OPEP. Acrescida de campanhas terroristas que, pagas pelos mais diferentes poderes, criaram insegurança.
Uma guerra assimétrica existiu durante toda a segunda metade do século XX que teve o seu momento de confusão com a queda do comunismo, mas que retomou logo, de forma directa e brutal, com a guerra na Bósnia. A medo as potências intervieram revelando-se fracturas histórias de tempos com outra estabilidade e antiguidade, de que o reconhecimento da Croácia pela República Federal da Alemanha ao arrepio de todos – revelando consciência histórica e interesses definidos – foi talvez dos exemplos mais marcantes.
Do ponto de vista histórico o que se seguiu durante todo o século XXI até hoje é um manual imenso de História escrita com uma rapidez assustadora.
E que revela a ideia com que este texto começa: a luta pelo exercício do Poder e o que isso faz à percepção das gentes.
Os centros de poder multiplicaram-se e cada um começou a procurar as suas bases regionais, cada um à sua maneira e no que entende serem os seus interesses.
A luta pelo domínio económico conta, mas a História e os mitos também.
Peguemos num exemplo esquecido: a perda brutal, depois do fim da 1.ª Grande Guerra, de territórios da Hungria a favor dos seus vizinhos, incluindo a Ucrânia, onde ainda hoje, na zona Transcárpica, se fala húngaro. Provávelmente a Hungria ainda não perdeu a vontade de os reaver e essa é uma razão – esquecida para quase todos – da posição actual, e estranha para a política da EU, do governo húngaro.
As Nações, esmagadas por um pensamento (politicamente muito correcto) tendendo à sua dissolução por variadas formas, aliadas à propensão para a existência de um pensamento único que atinge limites inenarráveis numa ideologia woke, que mais não é que um marxismo-leninista encapotado lutando por qualquer forma pelo poder (que é a sua matriz), e ainda a chegada não controlada de gentes de outros sítios que, silenciosamente, vão pervertendo ou modificando as sociedades, as Nações, dizia, agitam-se, revoltam-se e manifestam-se no aparecimento de movimentos que são ao mesmo tempo caóticos e orgânicos.
Nesta ordem de ideias os EUA responderam elegendo um jogador e um entertainer para a Presidência. Que tem jogado um Poker no fio da navalha e com um bluff que confunde todos.
A verdade é que entendeu exercer o seu poder por todas as formas e leva o jogo até ao ponto que sente que pode ganhar, recuando sem vergonha porque sabe que a sua imprevisibilidade não lhe tira palco, mas, na exibição do seu imenso poder, tem conseguido manter em respeito os restantes poderes que o não contestam de frente, limitando-se a rosnar nas suas costas.
Já não se fala de Gaza, já não se fala da Venezuela, domesticados que estão.
Cuba vai cair para alívio de todos.
O Irão, por mais que cuspa ameaças, levou indiscutivelmente uma sova enorme. Ao dia de hoje, e com uma rapidez surpreendente, já se fala em acordos.
Não vai ser a Paz, que é impossível, mas o Polícia parece-me de giro outra vez.