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Novos Tempos - Wokismo sob olhar católico

O wokismo assenta numa visão fragmentada da sociedade. A lógica deixa de ser a da reconciliação e passa a ser a do conflito permanente.

Sérgio Carvalho
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Nos últimos anos, o chamado wokismo entrou no vocabulário comum como sinal de uma nova sensibilidade social. Nasceu como apelo à vigilância moral face às injustiças, sobretudo raciais e sociais, mas rapidamente se tornou num fenómeno mais complexo, atravessado por dimensões culturais, políticas e ideológicas. Perante este cenário, importa perguntar: qual é, afinal, a resposta católica?

Antes de mais, convém evitar caricaturas. A tradição cristã nunca foi indiferente à dor do mundo. Pelo contrário, a defesa da dignidade de cada pessoa humana está no centro do Evangelho. Quando o woke significa atenção ao sofrimento dos marginalizados, denúncia de discriminações ou compromisso com a justiça, não há conflito com a fé cristã; existe, até, convergência. A Doutrina Social da Igreja, desenvolvida ao longo de mais de um século, insiste precisamente na centralidade da pessoa, na solidariedade e no bem comum.

O problema surge quando essa sensibilidade se transforma numa ideologia fechada. E é aqui que a tensão se torna evidente. Em muitos dos seus desdobramentos contemporâneos, o wokismo assenta numa visão fragmentada da sociedade, dividida entre opressores e oprimidos, onde a identidade de grupo tende a sobrepor-se à dignidade pessoal. A lógica deixa de ser a da reconciliação e passa a ser a do conflito permanente.

Além disso, a recusa de qualquer verdade objetiva (traço comum de certas correntes culturais atuais) entra em choque direto com a antropologia cristã. Para a Igreja, a liberdade não é criação arbitrária de si mesmo, mas resposta a uma verdade inscrita na própria natureza humana. Quando tudo se torna fluido, também a própria ideia de pessoa se torna instável.

Outro ponto crítico é a crescente intolerância à opinião divergente. A chamada “cultura do cancelamento” manifesta-se frequentemente como uma nova forma de exclusão: não se combate o erro com argumentação, elimina-se o interlocutor. Ora, o cristianismo propõe precisamente o contrário: diálogo, paciência, possibilidade de mudança. A misericórdia não é cumplicidade com o erro, mas também nunca é condenação sem esperança.

Dito isto, a resposta católica não se resume a uma rejeição. É, acima de tudo, uma proposta. Propõe uma síntese exigente entre verdade e caridade, entre justiça e perdão, entre liberdade e responsabilidade. Recusa tanto a indiferença perante a injustiça como a instrumentalização ideológica das causas humanas.

Num tempo marcado por polarizações fáceis, talvez o maior contributo do pensamento cristão seja este: recordar que nenhuma causa justa pode florescer, verdadeiramente, sem uma visão integral da pessoa humana. E que a verdadeira transformação social não nasce da imposição ou do confronto, mas da conversão pessoal e comunitária.

Entre a justiça e a ideologia, a Igreja continua a apontar um caminho mais difícil, mas também mais humano.