O ensino da Matemática no ensino secundário tem sofrido alterações profundas que, em vez de fortalecerem a formação dos alunos, ampliam o fosso que os separa das exigências do ensino superior. As Aprendizagens Essenciais (AE) de 2023, apresentadas como uma modernização necessária, reduziram o rigor, fragmentaram conteúdos e reforçaram uma dependência tecnológica que mascara fragilidades sérias. Embora ainda não tenham produzido a primeira geração de alunos que chegará à universidade, a direção tomada agrava problemas já existentes e prepara terreno para dificuldades ainda maiores.
As AE de 2018 já tinham simplificado o programa de 2014, mas mantinham alguma coerência e garantiam melhores resultados. Os alunos formados nesse modelo, que são os que hoje ingressam no ensino superior, não revelam maior domínio algébrico e apresentam uma dependência crescente da calculadora gráfica. Ainda assim, já se notava uma perda de profundidade face ao programa anterior. A revisão de 2023, ainda mais leve e fragmentada, aprofunda inevitavelmente essa tendência.
A reforma introduziu três eixos, Matemática para a Cidadania, Pensamento Computacional e diversificação de temas, que, apesar de bem‑intencionados, diluíram a exigência científica da disciplina. A possibilidade de cada escola escolher entre Inferência Estatística, Primitivas e Integrais ou Matrizes criou desigualdades e lacunas graves na formação dos alunos. A isto soma‑se um paradoxo difícil de ignorar: as entidades responsáveis pela elaboração das AE são maioritariamente compostas por professores do ensino superior, precisamente aqueles que melhor conhecem as dificuldades dos estudantes no primeiro ano universitário. Ainda assim, validaram, ou permitiram, um modelo que fragiliza a preparação dos alunos que irão receber.
Outro sintoma desta deriva é a dependência quase total da calculadora gráfica. O que deveria ser um apoio tornou‑se o centro do processo de ensino. Muitos alunos resolvem exercícios através de comandos automáticos, interpretam gráficos que não sabem construir e confiam numa máquina que, no ensino superior, não podem utilizar. Nas engenharias e nas ciências, o uso de calculadoras gráficas é proibido. O que conta é o raciocínio, a manipulação algébrica e a capacidade de resolver problemas de forma autónoma.
As consequências já são visíveis. As disciplinas de Cálculo no ensino superior, Cálculo I, Análise Matemática, Álgebra Linear, apresentam, ano após ano, algumas das mais altas taxas de reprovação de todo o sistema universitário. Este insucesso persistente não reflete falta de capacidade dos estudantes, mas sim a ausência de treino, de profundidade conceptual e de hábitos de trabalho matemático rigoroso. Os alunos chegam ao superior sem domínio sólido de funções, limites, trigonometria, manipulação algébrica ou resolução analítica de problemas, competências que deveriam ser consolidadas no secundário. As AE de 2018 já tinham reduzido o rigor; as de 2023 acentuam ainda mais essa fragilização. O fosso entre o secundário e o superior não é um acaso, mas o resultado direto de políticas educativas que desvalorizaram o pensamento matemático.
É urgente recuperar a seriedade e a profundidade do ensino da Matemática. A disciplina exige esforço, prática, abstração e rigor, competências que não se desenvolvem com atalhos tecnológicos nem com currículos fragmentados. Sem esta reconstrução, o insucesso no ensino superior continuará a aumentar, com um custo demasiado elevado para os estudantes, as famílias e o país.