Há crianças com autismo nas nossas escolas que continuam a não ter o apoio de que precisam.
Não por falta de legislação. Não por falta de diagnósticos. Mas por falta de condições reais para que a inclusão aconteça no terreno.
Faltam professoras de ensino especial. Faltam terapeutas. Faltam psicólogas. Falta capacidade instalada para responder a necessidades que são exigentes e profundamente individualizadas. E quando faltam pessoas, a inclusão deixa de ser uma prioridade e passa a ser uma tentativa de gestão do possível.
A isto soma-se um problema estrutural: a falta de formação da comunidade escolar. Assistentes operacionais, que acompanham diariamente estas crianças — alimentam, apoiam e, em muitos casos, medicam — fazem-no frequentemente sem qualquer preparação específica. Não por falta de dedicação, mas por ausência de investimento na sua qualificação.
Depois, há aquilo que raramente aparece nos relatórios: a desarticulação.
Como é possível que escola e serviços de saúde, sendo ambos pilares do Estado, continuem a funcionar de forma tão desligada? Onde está a ligação com os médicos de família, com os psicólogos, com os terapeutas que acompanham estas crianças fora do contexto escolar? Sem esta articulação, perde-se coerência, perde-se eficácia e, acima de tudo, perde-se tempo — um recurso crítico no desenvolvimento destas crianças.
Também o espaço físico continua, demasiadas vezes, por adaptar. Pequenos detalhes fazem grandes diferenças. O ruído excessivo, a ausência de zonas de regulação sensorial, a rigidez dos ambientes escolares — tudo isto impacta diretamente o bem-estar de uma criança com autismo. O simples facto de uma escola funcionar com campainhas sonoras intensas mostra como o sistema ainda não foi pensado para todos.
A falha não se fica pela sala de aula.
Atividades escolares, festas, momentos coletivos — continuam, na maioria dos casos, a não ser planeados de forma inclusiva. A participação destas crianças não pode ser uma exceção tolerada; tem de ser uma prioridade assumida.
Mas talvez o maior erro seja a forma como ainda olhamos para o autismo.
Continuamos a tratá-lo como um todo homogéneo, quando é exatamente o contrário: um espectro de diferenças profundas. Há crianças que comunicam verbalmente e outras que não. Há quem tenha autonomia nas tarefas básicas e quem necessite de apoio permanente. Há sensibilidades sensoriais completamente distintas, rotinas rígidas, preferências alimentares muito específicas.
O autismo não é um bloco.
É um conjunto de individualidades.
E é precisamente por isso que não pode ser tratado com respostas genéricas. Cada criança precisa de um perfil próprio, de estratégias ajustadas, de acompanhamento contínuo e integrado.
É aqui que a escola pode — e deve — dar um passo em frente.
Criar condições para que, de forma regular, profissionais externos possam observar a criança em contexto escolar. Reforçar a formação de todos os intervenientes educativos, incluindo assistentes operacionais. Promover uma articulação efetiva entre escola, família e serviços de saúde. Adaptar os espaços e repensar práticas que, sendo tradicionais, deixaram de fazer sentido num modelo verdadeiramente inclusivo.
E, sobretudo, assumir a inclusão como uma prioridade concreta de gestão, tanto ao nível das direções escolares como das autarquias, que têm hoje um papel crescente na organização e acompanhamento da realidade educativa local.
A inclusão não se mede pelo que está escrito em diplomas.
Mede-se pelo que acontece todos os dias dentro de uma escola.
E enquanto houver crianças que continuam a ser tratadas como um grupo indistinto, enquanto houver profissionais sem formação adequada e sistemas que não comunicam entre si, estaremos longe de cumprir aquilo a que nos propomos.
O autismo tem nome. Tem rosto. Tem identidade.
Pode chamar-se Isabel. Pode chamar-se Pedro, Ana ou Miguel.
E cada uma destas crianças merece mais do que um sistema que fala de inclusão.
Merece um sistema que a pratique — de forma consciente, individual e real.