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Advogado e contabilista de Epstein dizem nunca terem sido questionados pelas autoridades

Richard Kahn e Darren Indyke, co-executores do testamento de Epstein, falaram por mais de cinco horas perante o Congresso norte-americano. Assumem terem recebido milhões, mas negam saber dos crimes.

Sâmia Fiates
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Dois dos principais homens de confiança de Jeffrey Epstein foram ouvidos na Comissão de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes este mês, à porta fechada, e revelaram nunca terem sido questionados por nenhuma instituição governamental acerca dos crimes cometidos pelo chefe. Na passada terça-feira, foram divulgados os vídeos dos depoimentos do contabilista Richard Kahn, que esteve no Congresso norte-americano a 11 de março, e do advogado Darren Indyke, ouvido a 19 de março. Ambos trabalharam para o criminoso sexual por mais de uma década, são responsáveis pelo espólio de Epstein, e durante mais de cinco horas, foram escrutinados pelos membros da comissão sobre as suas relações com a alegada rede de tráfico sexual do milionário.

Darren Indyke começou a trabalhar com Epstein em 1999 e Richard Kahn em 2005. Apesar de serem pessoas extremamente próximas dos negócios de Epstein por anos, incluindo o período em que a alegada rede de tráfico sexual foi construída, nem o advogado nem o contabilista terão sido confrontados pelas autoridades. “Nunca fui interrogado por nenhuma autoridade governamental”, disse Kahn durante o depoimento, acrescentando que recebeu intimações do Distrito Sul de Nova Iorque e do Departamento de Justiça das Ilhas Virgens Americanas para apresentar documentos relativos ao espólio. Da mesma forma, Indyke respondeu que “não acha que tenha sido” entrevistado por nenhuma agência de polícia acerca dos casos contra Epstein e Maxwell.

Ambos foram nomeados os co-executores do testamento do milionário, que se suicidou numa prisão federal em Nova Iorque em 2019. Entretanto, os dois negaram ter conhecimento de qualquer crime cometido por Epstein. “A minha completa ausência de envolvimento em qualquer crime deve ser registada. Nenhuma mulher me acusou de cometer abuso sexual ou presenciar abuso sexual, ou alegou que, em qualquer momento, ela ou qualquer outra pessoa tenha denunciado qualquer alegação de abuso cometida por Epstein”, disse Darren Indyke. “Nada do que vi me fez acreditar que ele estava a cometer crimes”, afirmou ainda o advogado, que assume que sabia que Epstein teve relações sexuais “com pessoas menores de idade” em Palm Beach, mas entendia que tais práticas ficaram “limitadas à Florida”. “Disse-me que não se colocaria naquela posição novamente. E ele era um homem muito inteligente”.

Por sua vez, Kahn disse que só interagia com Epstein em contexto profissional, a cada três semanas. “Nunca fui a nenhuma das suas festas ou funções sociais. Enquanto Epstein viveu, nunca vi nenhum abuso sexual ou tráfico de mulheres, e nunca ouvi nenhuma queixa — seja por vítimas ou qualquer outra pessoa”. Questionado sobre o crime de solicitação de prostituição de uma menor, pelo qual Epstein foi condenado em 2008, o contabilista afirmou que o milionário “disse-me que era um erro e nunca aconteceria de novo”. “Nunca vi menores perto de Epstein, então nunca suspeitei que andava com menores. Se soubesse naquela altura que Epstein não estava a ser honesto, e estava a abusar de mulheres, teria parado de trabalhar para ele e tê-lo-ia denunciado às autoridades”.

Empréstimos de milhões de dólares

Tanto o advogado quanto o contabilista beneficiaram de valores milionários na forma de empréstimos enquanto trabalharam para Epstein — uma prática que dizem ter sido habitual entre os funcionários do criminoso sexual. Indyke assumiu ter recebido um total de 7 milhões de dólares em empréstimos, cerca de 6 milhões de euros, enquanto Kahn admitiu que lhe foi emprestado 3 milhões de dólares ao longo de vários anos, o equivalente a 2,6 milhões de euros. Os dois afirmaram que, com o testamento, estas dívidas foram perdoadas na totalidade. “Epstein emprestava-me dinheiro e provavelmente fazia o mesmo a outros 10 empregados como bónus de retenção”, afirmou Kahn. “Estava a conceder-nos empréstimos de forma semelhante à maneira como uma corretora recruta e integra um novo colaborador, oferecendo-lhe um empréstimo inicial.”

O testamento prevê que Indyke receba 50 milhões de dólares, enquanto Kahn ficaria com 25 milhões. Questionado sobre o motivo para Epstein ter destinado um valor tão alto para si, Kahn disse que a quantia corresponde a “muitos anos de trabalho”, e que o milionário não previu uma taxa de execução do espólio, que estaria perto de 12 milhões de dólares. “Esta é a única razão para ele me ter deixado um valor tão alto. Se tirar os 12 milhões, o que receberia não é diferente de outros indivíduos que estão no testamento”. Contudo, o contabilista destaca que, com os acordos firmados após a morte de Epstein e outros casos judiciais pendentes, é improvável que os dois recebam os valores prometidos.

Darren Indyke confirmou que fez acordos com várias alegadas vítimas de Epstein. “Havia uma lista de pessoas que foi providenciada pelo governo, e acredito que havia um número de pessoas que preencheram queixas contra Epstein e estas queixas chegaram a acordo”, disse o advogado, a fazer referência a casos firmados entre 2009 e 2010, e não depois da morte do criminoso sexual. “Para que fique claro, as pessoas faziam acordos por todos os motivos, incluindo pelos custos e o tempo de ir a litígio e o quanto um julgamento poderia interferir nas suas vidas profissionais”.

De acordo com o advogado, as movimentações de dinheiro de Epstein não representavam um alerta, “dada a dimensão e o alcance das suas propriedades e o número de pessoas envolvidas” nos vários projetos do milionário na altura. “O dinheiro que me pedia parecia ser para fins legítimos“. Indyke destaca ainda que os empréstimos recebidos pelos funcionários nunca foram usados “para justificar a movimentação de dinheiro” ou para “fazer fundos ilícitos parecerem legítimos”.

Maxwell, André, Wexner e Rothschild

Tanto o contabilista quanto o advogado falaram também das relações com outras figuras próximas de Epstein. Kahn, por exemplo, comentou a sua interação com Ghislaine Maxwell, a quem chamou “chefe de equipa”, responsável por viajar com Epstein e manter as suas propriedades em ordens. “Acredito que ela já não estava envolvida nas atividades diárias de Epstein em algum momento entre 2009 e 2010”, afirmou o contabilista. “Quando Epstein estava preso, Maxwell pediu-me que a ajudasse com as suas finanças. Ajudei-a durante ou fora das horas de trabalho, a organizar investimentos, pagamentos, durante um bom tempo. E não fui pago. Senti que não era valorizado e disse a Epstein que não iria mais trabalhar para Maxwell”.

Já Indyke confirmou ter estado com o ex-príncipe André em duas ocasiões, depois do período de prisão de Epstein, na Florida, e antes da sua morte, em 2019, na residência de Epstein em Nova Iorque. Tal encontro poderá ter acontecido durante a visita do filho de Isabel II ao milionário em 2010, quando os dois foram fotografados a caminharem no Central Park. O advogado também mencionou outros clientes de Epstein: “Les Wexner, claramente. Quando comecei deu-me um trabalho para fazer com Rockfeller. Não sei se era um cliente, este não era o meu papel, mas cheguei a trabalhar com David Rockfeller. Acredito que Elizabeth Johnson [herdeira da Johnson & Johnson] [seria cliente]. Sei que havia trabalho feito para Mort Zuckerman, Leon Black, os Rothschilds”, afirmou Indyke, que disse conhecer o nome Ariane Rothschild, CEO do Edmond de Rothschild Group: “É possível que tenha sido para Ariane, mas não tenho 100% de certeza”. Nenhum dos nomes citados por Indyke é propriamente novo — as relações próximas com herdeiros, empresários e banqueiros internacionais tem sido escrutinada, especialmente desde a divulgação da última tranche de ficheiros.

O advogado de Epstein ainda revelou que falou com o criminoso sexual alguns dias antes de este ter sido encontrado morto dentro da sua cela, numa prisão federal. Indyke não revelou o conteúdo da conversa, afirmando apenas que se tratava de assunto “privilegiado” e “não pessoal”, “baseado no facto de estar preso na altura, e sobre temas como uma fiança ou algo do tipo”.