Vivemos num tempo de opiniões fortes e de vizinhos fracos. Conhecemos os nossos direitos, ou pensamos conhecê-los, mas muitas vezes não conhecemos as pessoas da porta ao lado. Falamos com facilidade do Estado — demasiado grande, demasiado pequeno, demasiado intrusivo, demasiado ausente — e, no entanto, custa-nos dizer o que nos liga uns aos outros para lá dos números do contribuinte, dos passaportes e das etiquetas partidárias. Tornámo-nos fluentes na linguagem da queixa, mas quase analfabetos na antiga gramática do dever e do amor ao próximo.
Para Tomás de Aquino, essa perda seria difícil de compreender. Via a vida política não como um contrato entre estranhos, mas como uma comunidade perfeita, uma communitas perfecta, de pessoas que escolhem viver juntas e procurar um bem comum. A imagem que utilizava é simples: a pessoa está para a comunidade como a mão para o corpo. A mão não é absorvida nem apagada pelo corpo, mas não pode viver nem agir bem se estiver desligada dele. Do mesmo modo, o indivíduo só chega à sua plena estatura no interior de uma rede de relações reais — família, vizinhança, paróquia, cidade, nação — onde aprendemos a agir com justiça e a cuidar uns dos outros.
Esta visão antiga está muito longe da lógica que hoje domina. Reduzimos a cidadania a uma transação: eu pago; o Estado distribui; e a linguagem da obrigação desaparece discretamente. A política torna-se uma forma de queixa permanente: “eles” não me dão o suficiente. Os governos, por seu lado, são tentados a tratar os cidadãos como pontos de dados a administrar. Oscilamos entre o ressentimento e a tecnocracia, e o resultado é o mesmo: o enfraquecimento do vínculo moral entre pessoa e pessoa, pessoa e polis.
Aquino lembraria que a autoridade política e a cidadania assentam antes de tudo em obrigações e não em pretensões. Os governantes respondem perante Deus e perante a história pela forma como tratam o seu povo. Mas os cidadãos também têm deveres: trabalhar pelo bem comum, obedecer a leis justas, proteger os mais frágeis, contribuir para os custos da comunidade e, muito concretamente, cuidar daqueles que nos rodeiam. Mais tarde, esta intuição tomou a forma da subsidiariedade: decisões, responsabilidades e cuidados devem ser assumidos o mais perto possível das pessoas a quem dizem respeito. Os níveis superiores de autoridade existem para sustentar e, quando necessário, corrigir estas comunidades menores, e não para as substituir ou para nos libertarem das responsabilidades que temos uns para com os outros.
Podemos sentir o quão longe nos afastámos deste ideal. As famílias entregam ao “sistema” o que podem. As paróquias e associações lutam para encontrar voluntários. Os governos municipais e nacionais centralizam cada vez mais, muitas vezes em nome da eficiência, até que os cidadãos sentem que estão a lidar com uma máquina. Entretanto, refinamos cada vez mais categorias para nos dizerem como diferimos uns dos outros — classe, identidade, queixa de nicho — e esquecemos que uma polis é, antes de mais, um “nós”, um projeto cívico e civilizacional partilhado, e não um mapa de identidades concorrentes. Em vez de perguntarmos como podemos servir uma vida comum, somos levados a perguntar sem cessar: “E os meus direitos?” Não admira que a confiança se desgaste.
Nada disto é um argumento contra os direitos em si. A nossa civilização aprendeu, e bem, que cada pessoa possui uma dignidade que nenhuma maioria pode apagar; falamos de dignidade humana e de direitos inalienáveis, mas estes murcham quando são separados do tronco e das raízes dos deveres e dos laços que lhes dão vida. A resposta antiga, que faríamos bem em recordar, é que direitos e liberdades só fazem sentido quando assentam no dever, na honra e num bem comum. A liberdade não é apenas liberdade de interferência; é também uma liberdade ordenada para a responsabilidade — para com as famílias, para com os vizinhos, para com os lugares e instituições que nos formaram.
Se quisermos recuperar esse vínculo moral, não o faremos através de mais uma reforma institucional engenhosa nem esperando que o Estado se resolva a si mesmo. Tudo começa muito mais perto de casa. Começa por decidir que o vizinho do andar de cima não é apenas um incómodo, mas alguém com quem devemos encontrar-nos. Começa por aceitar que as nossas tradições, a nossa fé, a nossa herança cívica e cultural não são peças de museu para serem arquivadas, mas patrimónios vivos que devem ser ativamente transmitidos às gerações futuras. Começa por redescobrir palavras que caíram em desuso: dever, lealdade, serviço, sacrifício, e por reconhecer que a nossa civilização só perdurará se estivermos dispostos a assumir essas responsabilidades uns pelos outros.
Não estamos condenados a viver como indivíduos isolados a gritar para uma burocracia distante. Podemos escolher, de novo, ver a cidadania como uma vocação numa comunidade que podemos amar. Isso envolverá sempre cedências difíceis; impostos que apertam, obrigações que incomodam. Mas oferece também aquilo de que a nossa cultura tanto carece: o orgulho silencioso de nos termos dado por algo maior do que o nosso conforto, algo que nos sobreviverá — o nosso exemplo moral, a nossa cultura, os nossos vizinhos, a nossa cidade, o nosso país.