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(A) :: Direitos não se discutem? Então o que estamos a fazer  no Parlamento? 

Direitos não se discutem? Então o que estamos a fazer  no Parlamento? 

Um jovem de 14 anos entra num gabinete e pede para mudar de nome e de sexo. A lei diz que pode — ou que poderá. Mas uma pergunta parece interditada: temos a certeza?

Márcia Oliveira
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Há uma frase que se tornou arma de arremesso nos debates parlamentares: “direitos  não se discutem”. É afirmação curiosa, quase teológica, que transforma política em  dogma e legislação em revelação. Quando a nova lei da identidade de género foi  aprovada, com a divisão previsível entre esquerda entusiasta e direita resistente, o que  se assistiu não foi apenas votação de mérito. Foi confronto entre duas religiões civis:  uma que crê na autodeterminação absoluta como sagrada, outra que sustenta a  validação institucional como necessária. Eu não venho aqui tomar partido entre  crentes. Venho interrogar a heresia de quem recusa que se interroguem.

A lei em questão — simplificando para efeitos forenses — altera procedimentos de  mudança de sexo no registo civil, particularmente para menores, e reduz ou elimina  barreiras médicas e psicológicas que anteriormente funcionavam como filtros de  reflexão. É, segundo os promotores, “correção” de modelo paternalista. É, segundo os  críticos, “retrocesso” na protecção de menores. Ambos têm argumentos. O que me  interessa é que um deles é declarado intocável antes mesmo de ser ouvido. Quando a  esquerda diz que “direitos não se discutem”, está a confessar algo perigoso: que a sua  posição é axioma, não proposição. E axiomas não se debatem. Impõem-se.

O primeiro testemunho a desmontar é o da “autodeterminação pura”. A lei confia na  capacidade do indivíduo — incluindo o menor — de definir a sua identidade sem  mediação clínica. É princípio sedutor: quem conhece melhor o meu género senão eu  próprio? Mas esta lógica, aplicada literalmente, dissolve todas as categorias que  fundamentam o direito. Se a identidade de género é pura declaração, sem corpo, sem  história, sem exterioridade verificável, então torna-se simultaneamente tudo e nada.  Tudo, porque qualquer um pode reclamar qualquer coisa. Nada, porque perde o  significado social que a torna operacional. O direito precisa de categorias estáveis, não  porque seja conservador, mas porque sem elas não pode adjudicar.

A prova mais incómoda está na protecção de menores. A lei facilita procedimentos  para quem tem 16 anos, e cria vias para quem tem menos, com certificações diversas.  Dizem os defensores que isto é empoderamento. Pergunto eu: empoderamento de  quem? De um adolescente de 14 anos em crise identitária, pressionado por ambientes  escolares, influências digitais, ansiedade de encaixe? Ou de um sistema que prefere a  validação administrativa à avaliação clínica, porque a primeira é mais rápida, mais  barata, politicamente mais gratificante? A medicina não é infalível. Mas a burocracia,

sozinha, é cega. E cegueira institucional sobre corpos em desenvolvimento é  irresponsabilidade, não progresso.

Dizem que exigir avaliação médica é “patologizar” a identidade trans. Esta acusação é  desonestidade retórica. Não se trata de patologizar. Trata-se de contextualizar. Um  adolescente que questiona o seu género está, por definição, em processo de  questionamento — não em conclusão. A avaliação clínica não serve para impedir.  Serve para acompanhar, para descartar condições confundíveis, para garantir que a  decisão é madura e informada. Eliminar este filtro não é libertação. É precarização de  uma decisão que terá consequências permanentes. E precarizar menores em nome de  ideologia é traição do dever de protecção.

O que me fascina, no sentido forense da palavra, é a velocidade com que certas  posições se tornam heréticas. Questionar a lei é, automaticamente, “transfobia”. Exigir  cautela é “negacionismo”. Solicitar dados de longo prazo sobre desistências e  arrependimentos é “violência”. Esta configuração de debate — onde a dúvida é crime e  a certeza é obrigatória — não é democracia. É fundamentalismo com palavras bonitas.  E o fundamentalismo, seja religioso ou progressista, partilha a mesma estrutura:  verdade revelada, inquisição dos dissidentes, purificação do espaço público.

Eu sei o que aí vem. Vejo-o nas clínicas de reversão que já existem em países que  foram mais rápidos na despatologização — Suécia, Reino Unido, Finlândia — e que  agora recuam perante evidências de arrependimento. Vejo-o nos processos judiciais  de detransitioners que reclamam danos por decisões tomadas em idade vulnerável.  Vejo-o na cisão entre activistas e clínicos, onde os segundos, silenciados, expressam  reservas em privado que não ousam em público. Não é profecia. É leitura de  tendências que outros países já vivem e que nós, na nossa pressa em ser  “progressistas”, preferimos ignorar.

A sentença não é contra os direitos trans. É contra a impossibilidade de os discutir. A  lei pode ser boa ou má — isso é mérito para debate. Mas a proibição de debate, a  rotulagem de opositores, a apresentação de qualquer cautela como opressão — isso é  estrutura autoritária. E é particularmente perverso quando se invoca o sofrimento de  uma minoria para silenciar perguntas legítimas sobre como melhor a proteger. O  sofrimento real não é moeda de troca retórica. É realidade que exige políticas  ponderadas, não precipitadas.

Direitos não se discutem? Mentira. Direitos discutem-se sempre. Foi no debate que  conquistamos os que temos. Será no debate que os aperfeiçoaremos — ou os  perderemos. A lei da identidade de género, na sua formulação actual, pode ser  correção necessária ou retrocesso perigoso. O que é certamente inaceitável é a  proibição de perguntar qual dos dois. Porque quando o direito recusa a interrogação,

deixa de ser direito e torna-se decreto. E decretos, na história que conhecemos, têm  hábito de ser revistos — frequentemente com arrependimento.