A curto prazo, uma “oportunidade”. Mas se a guerra com o Irão se prolongar, o turismo em Portugal vai acabar por sofrer as consequências. Segundo as previsões da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), “destinos de resort podem vir a ter vantagens neste verão pelo desvio de fluxos” de turistas de países como o Egito, Chipre ou Tunísia. Mas para um setor que “vive de confiança e estabilidade”, no médio e longo prazo “há muitas nuvens no horizonte”.
Logo em janeiro, a AHP procurou saber junto dos seus associados quais as perspetivas para 2026. Mais proveitos, preços médios mais altos e taxas de ocupação superiores, ou pelo menos iguais, eram as expectativas. “Mas entretanto o mundo mudou”, constatou Cristina Siza Vieira, vice presidente da associação, na apresentação do mais recente inquérito de balanço e perspetivas para o setor. Por isso não há números, mas há comportamentos que se podem antecipar.
Desde logo, um previsível “desvio” de turistas que procuravam países junto ao Golfo pérsico, e que face ao conflito deverão procurar destinos como Portugal, Espanha, Itália ou França, que terão aqui uma “oportunidade” (um termo que Siza Vieira usa com “cuidado”). “Num curto prazo temos algum desvio de fluxos a acontecer em razão deste desvio de tráfego. Mas é sol de pouca dura. Isto vai abrandar para todos“. Este ano ainda poderá haver ganhos, sublinha Siza Vieira, mas “há muita incerteza e à medida que o conflito evolui, e sem saber a sua duração, há inexistência de operação com os países do Médio Oriente e no médio prazo há muitas nuvens no horizonte”.
Apesar das “nuvens”, a AHP acredita que este ano o turismo em Portugal continuará a ter um desempenho positivo e até poderá crescer. “Se usarmos o raciocínio do Banco de Portugal”, que na quarta-feira reviu em baixa o crescimento da economia em 2026 de 2,3% para 1,8%, “acreditamos que o turismo em 2026 continuará a crescer, mas com um claro abrandamento“. A AHP espera, assim, um crescimento de 2,5% em hóspedes, de 1,7% nas dormidas e de 3% nas receitas. No ano passado o número de hóspedes aumentou 3%, as dormidas cresceram 2,2% e as receitas subiram 5%.
Tempestades afetaram Carnaval no centro. Asiáticos desapareceram do radar
Ainda antes da guerra, veio o impacto da “desgraça que se abateu no país” no final de janeiro e início de fevereiro. A tempestade Kristin e os eventos climáticos que se seguiram fizeram mossa no setor do turismo em alguns concelhos durante o período das férias de carnaval (que este ano foi mais cedo do que em 2025). A nível nacional, a taxa de ocupação até foi semelhante à do ano passado (65%), o preço médio baixou apenas um euro (de 113 para 112 euros) e a receita por quarto foi a mesma (73 euros).
As diferenças estão na análise por região, com o centro litoral e a região do Oeste e vale do Tejo a registarem uma maior quebra no turismo. O desempenho muito positivo do centro interior, nomeadamente da Serra da Estrela, acabou por equilibrar os números da região centro. Os Açores também registaram uma quebra, sobretudo no preço médio (que passou de 79 euros para 60), a que não é alheio o “impacto muito grande do fecho das operações de inverno da Ryanair”, sinaliza Cristina Siza Vieira.
Segundo a AHP, a estada média dos turistas foi melhor do que no ano anterior para mais de 30% dos inquiridos, em parte porque “o dia dos namorados contribuiu”, por ter calhado muito próximo do carnaval. Os proveitos também aumentaram porque “estava mau tempo e gastou-se mais dentro dos hotéis”.
Os principais mercados emissores de turistas neste período foram, além de Portugal, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos. A AHP destaca ainda o peso dos turistas da Coreia do Sul na região do Oeste e Vale do Tejo (com 23% dos inquiridos a colocarem este mercado no seu top 3), associados ao turismo religioso de Fátima, e também dos chineses na Península de Setúbal (com 45% dos inquiridos a incluírem a China no top 3).
Este foi um mercado que, por causa da guerra, praticamente desapareceu no último mês e já não consta nas perspetivas dos hoteleiros para a Páscoa. “Houve uma quebra violenta dos mercados asiáticos, desapareceram do radar” devido ao corte de voos, sublinhou a vice-presidente da AHP.
As perspetivas para a Páscoa estão, de resto, ainda em “fase de consolidação”. As reservas estão a 55% a nível nacional e o preço médio está nos 116 euros. A comparar com o ano passado, as reservas estavam a 65% e o preço médio era 152 euros. Mas, ressalvou Cristina Siza Vieira, em 2025 o inquérito aos hoteleiros foi concluído “mais em cima das férias”, já em meados de abril.
Para já, só a Madeira tem um “comportamento muito acima da média” nas reservas (75%) e no preço médio (169 euros). O Algarve recupera mais nas reservas (62%) e menos no preço (108 euros). “A nossa convicção é de que vai melhorar ao longo desta semana”, adianta a responsável da AHP, que sinaliza “grandes preocupações” para o Oeste, Vale do Tejo e Açores, onde as reservas estão “muito aquém”.
Nos mercados emissores de turistas o destaque vai para Espanha, Reino Unido e Alemanha. Os EUA desapareceram do top três nacional, mas ainda constam no pódio da Grande Lisboa e do Alentejo, e com percentagens elevadas no Norte e Alentejo. “Há um claro abrandamento no mercado americano, quer na Páscoa quer para o verão”, revela Cristina Siza Vieira. Que se deve a “razões de instabilidade”. “O mercado americano sentir-se-á mais desconfortável a viajar para fora com o seu país em guerra aberta. E há prudência no consumo também”, justifica.
Por causa da guerra, o setor nota alguns cancelamentos de reservas. Dos inquiridos, 24% notaram um abrandamento nas reservas ou um aumento de cancelamentos, mas ao mesmo tempo 16% sentem o inverso: um aumento da procura associado ao desvio de turistas de outros destinos. Os hotéis da Península de Setúbal e dos Açores são os que mais sentem o aumento de cancelamentos ou abrandamento de reservas.