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Quem é quem no primeiro Congresso de Carneiro. Já há sombras e até "jovens turcos"

Do posicionamento face ao PSD aos "jovens turcos", passando pelas sombras de Medina e Cordeiro. Guia dos protagonistas e de como vão marcar três dias de Congresso do PS em Viseu.

Rita Tavares
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Desde o último Congresso do PS, em dezembro de 2023, tudo mudou. E não foi só o líder, foi sobretudo o lugar do partido no cenário político. De partido de Governo — na altura ferido pela demissão abrupta de António Costa, mas preparado para eleições — o PS passou à terceira força parlamentar, atrás do Chega. Na transição, José Luís Carneiro passou de derrotado nas diretas de 2023 para líder escolhido em 2025 e agora reeleito com 97,1% dos votos.

Foram dois anos tão intensos como traumáticos para o partido que ainda está longe de ter resolvido o maior problema: quem deve ser e que lugar deve ocupar na oposição? E o tema vai ao congresso, levado por algumas das vozes mais influentes do partido que, logo quando o líder José Luís Carneiro se candidatou pela segunda vez, criticaram o atropelo de um momento que preferiam que tivesse sido de reflexão.

Serão três dias de trabalhos, no pavilhão multiusos de Viseu, com participação reduzida, depois de terem sido alteradas as regras para a eleição de delegados — o que, por si, já traz críticas. No meio das muitas feridas que ainda há por tratar, José Luís Carneiro procura ainda conseguir lançar o partido para a etapa seguinte, a de construir uma alternativa e reconquistar a confiança dos eleitores. Neste artigo, o Observador analisa o que esperar da grande reunião socialista, através daqueles que (presentes e mesmo ausentes) podem marcar o debate.

José Luís Carneiro

Estreia-se como líder num Congresso e, embora chegue a Viseu com a liderança mais sólida (voltou a não ter adversários na corrida), José Luís Carneiro sabe que é aqui que começa o grande teste interno: é no congresso que surgem críticas, se medem forças, se vê até onde vai o apoio ao secretário‑geral e que espaço terão os críticos. Chega ao Congresso em pleno debate interno sobre o posicionamento do partido em relação ao PSD (um parceiro constitucional com quem quis ter uma postura de diálogo) mas o tema tornou-se incontornável com a hipótese de os socialistas ficarem de fora da escolha de três juízes para o Tribunal Constitucional. Carneiro dispensava este debate, que é sensível e divisivo, até porque o seu objetivo é agora mostrar que o partido pode ser uma alternativa ao poder. Promoveu até painéis de debate com independente, paralelos à reunião, para preparar esse caminho, mas dificilmente o foco se desviará do palco principal do Congresso.

Carlos César

É presidente do partido desde que António Costa chegou à liderança, 2014, com um relacionamento muito próximo com antigo líder, que vinha desde a adolescência na JS. Ficou com o líder que se seguiu, Pedro Nuno Santos (muito próximo e da mesma geração do seu filho, o deputado Francisco César) sobre quem teve também uma influência importante. Com José Luís Carneiro a proximidade não é de base. Não esteve com ele na candidatura de 2023 — tendo mesmo apoiado Pedro Nuno Santos –, a relação entre os dois foi sendo construída de forma mais próxima desde 2025 (tinham trabalhado de forma mais estreita quando Carneiro foi secretário-geral adjunto de Costa). Hoje Carlos César mostra-se convencido e até fez vários elogios à “coragem” de Carneiro por ter assumido o partido numa altura de “fragilidade” e por ter demonstrado “não só sensatez, como competência, como capacidade agregadora e como esperança para um futuro mais interventivo e mais influente do PS na sociedade portuguesa”. Da sua parte, para este novo mandato, César diz que terá “maior recato público”, até porque agora o líder não é primeiro-ministro, nem há “circunstâncias extraordinárias”. Quando intervém, como vai acontecer neste congresso, tem sempre impacto junto dos socialistas.

André Moz Caldas e Filipe Costa

São duas figuras importantes na equipa de José Luís Carneiro, ambos fazem parte da direção e foram também os dois escolhidos para redigir a moção política global de José Luís Carneiro. Moz Caldas tem estado com Carneiro desde o início, mas antes disso foi também secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, onde trabalhou com Mariana Vieira da Silva. E antes disso tinha também já sido chefe de gabinete de Mário Centeno, quando este assumiu a pasta das Finanças, em 2015. Atualmente é presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, que ganhou depois do PS ter perdido a Câmara, conseguindo uma derrota importante para Carlos Moedas. É transversal a várias figuras importantes no partido nos últimos anos, sem ter propriamente uma fidelidade política definida. Filipe Costa também foi apoiante de primeira hora de Carneiro e foi também presidente da AICEP, cargo de que saiu ao fim de menos de um ano, na sequência da mudança de Governo para Luís Montenegro. Na direção do PS tem o pelouro da economia, empresas, energia e digital, o que o coloca no núcleo de definição da agenda económica — uma das áreas com que Carneiro quer marcar a oposição.

Ricardo Gonçalves

É o crítico mais assumido como tal neste congresso, já que promoveu uma nota, intitulada “Relançar o PS”, muito dura em relação à liderança de José Luís Carneiro, que assinou com outros socialistas, como Elísio Estanque, Victor Batista ou o antigo eurodeputado Manuel dos Santos.  Trata‑se de um grupo sem grande expressão interna, mas Ricardo Gonçalves conseguiu ainda assim empatar a disputa pelos lugares de delegado em Braga, elegendo seis nomes (metade). Não está contra Carneiro em si – sempre se opôs a linhas mais radicais no partido, designadamente à liderança de Pedro Nuno Santos – e apresenta‑se como um socialista moderado. Nos congressos faz sempre intervenções particularmente exuberantes e neste não será diferente, sobretudo porque se opõe ao modelo da reunião, acusando Carneiro de “decisões centralistas de natureza burocrática, que estão a esvaziar o debate interno” por ter reduzido o número de delegados. Nos congressos anteriores, elegia-se um delegado por cada 50 militantes com quotas regularizadas; atualmente, esse rácio passou para um delegado por cada 100 militantes. “Nunca houve um congresso tão pequeno no PS”, disse ao Observador Ricardo Gonçalves, sublinhando que numa altura em que o partido “devia estar a abrir-se à sociedade, está a fechar-se aos militantes”. A crítica à dimensão e ao desenho deste congresso, porém, não se esgota neste grupo e pode voltar a ouvir‑se da tribuna de Viseu por outras vozes.

Pedro Costa e Miguel Costa Matos

António José Seguro teve uma liderança espinhosa no PS e muito por causa de um grupo de jovens que, no Parlamento, criava pressão interna (e era já próximo de António Costa, com Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro a encabeçarem essa fileira). José Luís Carneiro tem, por agora, também dois elementos da geração seguinte do PS que começam a trilhar um caminho lateral, com a apresentação de uma moção setorial com reparos à linha seguida. Um dos autores, Pedro Costa, faz mesmo parte da sua direção de Carneiro, é filho de António Costa e foi presidente da Junta de Campo de Ourique. O outro, Miguel Costa Matos, é ex-líder da JS e é deputado. Os dois são próximos de Duarte Cordeiro, o que cria uma pressão extra quando o ex-ministro socialista é apontado como hipótese para uma liderança futura — e já tem destoado publicamente das orientações de Carneiro, como fez na leitura das autárquicas e, agora, sobre um eventual corte com o PSD. Mas a moção, da autoria dos dois mais recentes “jovens turcos do PS” (o nome que assentou no grupo de 2012-2014), tem outros subscritores que fizeram o partido dar-lhe alguma atenção, caso do presidente do PS-Porto, Nuno Araújo, o deputado e líder do PS-Portalegre, Luís Testa, ou o segurista Álvaro Beleza. A intervenção de qualquer um destes socialistas vai merecer particular atenção.

Mariana Vieira da Silva

Os próximos quatro nomes têm uma coisa em comum: foram os que se juntaram, depois da demissão de Pedro Nuno Santos, e quiseram travar o lançamento de diretas imediatas (com o candidato Carneiro já em campo) por defenderem que era preciso primeiro refletir, chegar a uma conclusão, e perceber quem melhor poderia liderar esse projeto. Ficou tudo em águas de bacalhau, Carneiro avançou sozinho, a reflexão (ainda) não se fez e agora alguns deles chegam a Congresso com coisas para dizer. Mariana Vieira da Silva, braço direito de Costa nos três governos (entre 2015 e 2023), é vice-presidente da bancada parlamentar do PS e participa em espaços de comentário semanal no canal Now e na rádio Renascença, pelo que é a que mais se tem ouvido nos vários momentos do partido e da política nacional, com análises nem sempre alinhadas com a direção. Por exemplo, ainda antes de ter vindo a público a intenção da direção socialista de romper com o PSD por causa dos três juízes do Constitucional, já Vieira da Silva tinha defendido que Carneiro deixasse de enviar cartas a Montenegro e passasse a marcar o espaço do PS na oposição. Não defende um virar de costas total, mas tem evidenciado a sua impaciência com a incapacidade de o líder falar grosso com o PSD.

Ana Catarina Mendes

A eurodeputada socialista faz parte da direção de José Luís Carneiro, que integrou na lógica do sinal de unidade que o então novo líder tinha de dar na sequência de um período traumático para o PS e que deixou muita terra queimada. Era também um dos elementos do círculo de António Costa, tendo sido sua secretária de Estado e, depois, ministra, e está no Parlamento Europeu desde 2024 e, por isso, mais afastada do dia-a-dia do palco nacional. Leva ao Congresso uma moção, que assina com outros eurodeputados como Francisco Assis ou Marta Temido e também por Augusto Santos Silva, e que defende o legado dos governos de Costa, nomeadamente da recuperação “da credibilidade europeia” ao nível económico e financeiro, e também o do PS na construção europeia. Mas a socialista também deu uma entrevista ao Observador, ao programa Vichyssoise desta quinta-feira, onde revelou não apreciar a linha de Carneiro no relacionamento com o PSD, nomeadamente na questão das cartas (nunca correspondidas por Montenegro). Além disso, demonstra nenhum entusiasmo com a atual liderança, referindo-se à existência de uma candidatura única (a de Carneiro) nas últimas diretas com um pouco convicto: “O candidato que houve foi o que houve.” É mais uma voz a pressionar Carneiro para começar a apresentar uma alternativa clara ao Governo e “soluções para os problemas das pessoas”.

Duarte Cordeiro

Não vai estar neste Congresso, mas não é por motivos de ordem política. Mesmo sem estar, Duarte Cordeiro tem espalhado uma influência significativa, ao longo dos anos, por algumas estruturas do partido — em particular em Lisboa — que gostariam de o ver disputar a liderança. Tem recusado essa intenção no curto prazo, mas nunca fechou totalmente a porta a um regresso mais ativo, depois de ter sido líder do PS Lisboa, secretário de Estado, ministro, líder da JS e deputado. O seu desligamento da atual direção foi logo afirmado no início quando recusou ficar no secretariado nacional, depois da eleição de Carneiro: “Não faço parte desse núcleo.” Em princípio fará parte da Comissão Política Nacional que será eleita depois deste Congresso, reservando a esse órgão do partido a sua participação política, por agora. Logo após a eleição de José Luís Carneiro marcou o distanciamento, ao recusar integrar o secretariado nacional e dizer: “Não faço parte desse núcleo.” Em princípio entrará agora na Comissão Política Nacional, reservando para esse órgão a sua intervenção interna, mas ao mesmo tempo vai comentando na televisão — e já contrariou, em público, a leitura otimista que Carneiro fez das autárquicas, por exemplo. Vai marcando o seu espaço, sem pressas, e o secretário‑geral sabe que conta com esta sombra sempre presente, mesmo que não esteja dentro do pavilhão multiusos de Viseu.

Fernando Medina

Fernando Medina é outro ausente, mas também ele sempre presente – pelas mesmas razões que Duarte Cordeiro. Nunca foram propriamente próximos dentro do PS: Cordeiro era unha com carne de Pedro Nuno Santos, enquanto Medina foi o delfim de António Costa na Câmara de Lisboa, quase sempre do lado oposto ao pedronunismo. Durante anos, Pedro Nuno e Medina eram apontados como o futuro do PS; hoje é Duarte quem está nesse lote de potenciais sucessores, onde o ex‑ministro das Finanças continua a figurar. Foram os dois da equipa de Costa na CML, mas na hora da sucessão, o antigo líder preferiu Medina. Eram naturais rivais, mas José Luís Carneiro acabou por os juntar: ambos foram contra a sua corrida apressada à liderança no pós-Pedro Nuno e chegaram a fazer uma ponderação conjunta ara tentarem uma alternativa (que podia ter sido um deles). Desde então, os dois passaram a estar juntos na frente oposta à de Carneiro. Tal como Cordeiro, Medina também quer manter a sua participação política, nesta fase, reduzida à Comissão Política Nacional do partido, que integrará. Também como Duarte e Mariana, tem um espaço de comentário televisivo semanal e outro na rádio. Nesse fóruns já se têm ouvido diferenças em relação ao estilo de Carneiro, como na última semana, quando defendeu que “o PSD não pode fazer nas matérias importantes e fundamentais todos os acordos com o Chega e esperar que o PS aprove orçamentos”, prevendo “impactos profundos” na relação futura com o PSD se Montenegro decidir os juízes do Constitucional só com o Chega. Mais uma voz influente a pressionar a estratégia do líder.

Francisco Assis

O eurodeputado tem sido discreto nos comentários à liderança de José Luís Carneiro, que apoiou e cuja direção integra, com o pelouro das Relações Internacionais. É da mesma linha moderada do PS, mas, em 2023, quando Carneiro se candidatou contra Pedro Nuno Santos, ficou do lado de lá, ao lado do candidato que a frente carneirista apelidava de “radical” – um apoio importante para o ex‑líder, porque mostrava capacidade de juntar várias sensibilidades internas e ajudava a atenuar a tal imagem de radical de esquerda. Quando o pedronunismo falhou, Assis acabou por apostar em Carneiro para levar o PS “de novo ao exercício do poder democrático”, numa relação que vem de trás: os dois trabalharam juntos quando Carneiro foi chefe de gabinete de Assis na liderança da bancada socialista entre 2000 e 2002. O próprio Assis lembrou que “a vida, na sua riqueza e imponderabilidade, pregou algumas partidas” ao “relacionamento político, mas nunca levou ao enfraquecimento da amizade”, sintetizou Assis quando lembrou o percurso de ambos e esta reaproximação. Nesta semana, porém, teve o primeiro gesto público que revela algum mal‑estar com uma iniciativa do secretário‑geral. A deslocação de Carneiro à Venezuela, que incluiu encontros com responsáveis do governo de Delcy Rodríguez, deixou o secretário nacional para as Relações Internacionais a marcar distâncias: Assis fez questão de reafirmar que a sua posição sobre o regime venezuelano “não se alterou”, recordando as várias resoluções que assinou no Parlamento Europeu a condenar um “regime autoritário que desrespeita princípios democráticos básicos” e sublinhando que não acompanhou ao pormenor a visita, preparada pelo departamento das comunidades. Foi comedido, mas o incómodo ficou à vista – e não é o único dentro do partido – pelo facto de o PS e a própria UE não reconhecerem legitimidade ao executivo venezuelano, um tema que também vai pairar sobre o congresso em Viseu.

https://observador.pt/2026/03/24/socialistas-incomodados-com-visita-de-carneiro-a-venezuela/

António José Seguro

O novo Presidente da República é mais um socialista que (por razões óbvias) não estará em Viseu, mas será uma referência neste Congresso. Onze anos depois de ter saído pela porta pequena (depois da luta interna com Costa), voltou à vida política pelo portão presidencial, levando o PS a Belém 20 anos depois de Jorge Sampaio. Na noite em que conquistou a Presidência, teve a pronta visita de José Luís Carneiro que declarou: “Os socialistas estão felizes. Esta é uma vitória de um amplo campo democrático, da esquerda até ao centro direita. Esta é uma vitória da democracia, dos valores constitucionais.” Nessa mesma noite, o líder do PS escolheu o embalo da vitória na primeira volta para anunciar a recandidatura à liderança, gesto lido por alguns socialista como um aproveitamento imediato da onda vitoriosa do novo Presidente. Para trás ficava todo o historial do apoio socialista empastelado àquela candidatura presidencial, agora Seguro passava a ser um aliado, com o líder socialista a dizer, dias depois da vitória, que contava “com o contributo” do novo Presidente para que “o Governo possa responder às propostas que o PS tem vindo a fazer” na reforma laboral. Ficou claro o que estava no espírito do secretário‑geral; já é bem menos evidente que Seguro queira desempenhar o papel de apoio político ao PS que Carneiro parece projetar para ele.

João Azevedo

A capital do antigo distrito conhecido por cavaquistão virou socialista nas últimas autárquicas e agora recebe o congresso socialista. Viseu era governada à direita desde 1976 e o socialista João Azevedo inverteu o ciclo. Vindo da Câmara de Mangualde, o antigo deputado e discípulo de Jorge Coelho já tinha sido candidato em 2021 e perdera com o melhor resultado de sempre para o PS. Desta vez conseguiu ganhar e acrescentou uma gota importante ao copo autárquico que José Luís Carneiro insistiu estar meio cheio na noite eleitoral. Vai ser o anfitrião deste congresso, a bandeira vitoriosa — e no interior — que os socialistas querem agitar para afastar outros dramas eleitorais – tanto mais por ser a primeira reunião magna desde a hecatombe das legislativas de 2025.