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(A) :: Uma unidade de fuzileiros pode invadir Kharg — mas não a consegue ocupar. Operação para colocar botas no terreno ainda é muito arriscada

Uma unidade de fuzileiros pode invadir Kharg — mas não a consegue ocupar. Operação para colocar botas no terreno ainda é muito arriscada

Trump ameaçou tomar ilha de Kharg, mas proximidade ao Irão dificulta ação dos EUA, tanto por mar como pelo ar. Operação bem-sucedida teria sempre baixas entre soldados norte-americanos.

Madalena Moreira
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Foi numa entrevista ao jornal The Guardian, em 1988, que Donald Trump se pronunciou publicamente pela primeira vez sobre a ilha de Kharg. Questionado sobre o Irão, que acabara de travar oito anos de guerra contra o Iraque, o então magnata do imobiliário dizia que seria “duro” com o regime iraniano. “Uma bala disparada contra um dos nossos homens ou navios e eu dava cabo da ilha de Kharg. Entrava lá e tomava-a”, afirmou.

Nas últimas semanas, as referências à ilha de coral a pouco mais de 20 quilómetros da costa do Irão tornaram-se muito mais frequentes nas declarações do agora Presidente dos Estados Unidos da América (EUA). Depois de quase duas semanas de guerra, as forças norte-americanas atacaram a “joia da coroa” do Irão no passado dia 19 de março. Por “razões de decência”, nas palavras de Trump, as infraestruturas petrolíferas não foram visadas, mas o chefe de Estado ameaçou com essa possibilidade.

A importância estratégica de Kharg reside no facto de ser o principal terminal de exportações petrolíferas do Irão. Na pequena ilha de cerca de 20 quilómetros quadrados, no norte do Golfo Pérsico, passa 90% de todo o petróleo exportado pelo regime. A ocupação de Kharg impõe-se, portanto, no leque de opções norte-americanas para pressionar o regime iraniano a reabrir o Estreito de Ormuz, segundo avançaram responsáveis norte-americanos à imprensa nacional.

Na lista de possibilidades conta-se ainda a invasão de outras ilhas mais pequenas e o bloqueio de navios com petróleo iraniano que circulem a sul de Ormuz, relatou o Axios, que cita quatro fontes com conhecimento das discussões. Porém, a ocupação de Kharg seria sempre o movimento mais caro para o Irão. “Os Estados Unidos podem tomar a ilha de Kharg a qualquer momento. [O Presidente] mantém todas opções em aberto como Comandante-em-Chefe”, declarou a Casa Branca, em comunicado, quando questionada sobre a possibilidade de enviar tropas para o Médio Oriente com este propósito.

A possibilidade de pôr “botas no terreno” para tomar Kharg acentuou-se depois de, nos últimos dias, Washington ter enviado para o Médio Oriente duas unidades de fuzileiros e uma unidade de paraquedistas de elite, num total de oito mil operacionais que se juntam aos 50 mil soldados que já estão na região e que compõem o maior contingente norte-americano no Médio Oriente desde a guerra no Iraque. Contudo, a decisão final ainda não terá sido tomado, avança a CNN — e entre o Pentágono e a Casa Branca discute-se se “uma operação terrestre vale o risco”.

Velocidade, treino e fator surpresa. Uma “operação clássica dos fuzileiros”

A quarta semana de guerra ficou marcada pela abertura de diálogos diplomáticos entre Estados Unidos e Irão por intermédio do Paquistão, Egito e Turquia. Porém, ao mesmo tempo que Washington insistia em negociar, três divisões de elite das Forças Armadas eram enviadas para o Médio Oriente. As duas primeiras são Unidades Expedicionárias dos Fuzileiros (MEU na sigla em inglês). Estas tropas distinguem-se pela sua rapidez de operações, capacidade de agir em terra, água e ar e por serem, tradicionalmente, as primeiras unidades a entrar em combate.

Por comparação aos 50 mil soldados de infantaria que já estão na região, são mais treinados e mais especializados, adequados para levar a cabo invasões. “Eles têm uma capacidade de apoio aéreo totalmente integrada e autónoma. São, sem dúvida, uma força autónoma capaz de se deslocar para qualquer parte do mundo”, explicou Michael Mulroy, subsecretário Adjunto da Defesa para o Médio Oriente durante a primeira administração Trump, à revista TIME.

As duas MEU destacadas, cada uma com pouco mais de dois mil fuzileiros, são a 31.ª unidade — que estava no Japão e deve chegar ao Médio Oriente a bordo de um navio de combate anfíbio ainda esta semana — e a 11.ª unidade — integrada num grupo de combate com três navios que partiu da Califórnia e deve demorar três semanas a chegar à região —, segundo avançou o Financial Times.

"[O objetivo] é causar impacto e conquistar terreno o mais rapidamente possível. A rapidez é importante porque não querem ficar em áreas expostas [a ataques iranianos]. Vão querer rodear aquela infraestrutura petrolífera".
Seth Krummrichm, antigo chefe de gabinete da Central de Operações Especiais das Forças Armadas norte-americanas

A outra equipa que foi enviada para a região foi a 82.ª da Divisão de Combate Aerotransportada. Trata-se de uma equipa de paraquedistas de elite com cerca de 3 mil soldados que irá partir dos Estados Unidos e que se destaca pela sua velocidade e efeito surpresa, podendo entrar em ação em apenas 18 horas depois da sua mobilização e não dependendo de veículos de combate para os apoiar.

As características destas equipas fazem delas as tropas ideais para executar aquilo que os especialistas dizem que precisa de ser uma operação rápida e dependente do fator surpresa. “[O objetivo] é causar impacto e conquistar terreno o mais rapidamente possível. A rapidez é importante porque não querem ficar em áreas expostas [a ataques iranianos]. Vão querer rodear aquela infraestrutura petrolífera”, sintetiza Seth Krummrichm, antigo chefe de gabinete da Central de Operações Especiais das Forças Armadas norte-americanas, ao Financial Times.

Tendo em conta o tamanho da ilha, os especialistas acreditam que uma única unidade de fuzileiros será capaz de tomar a ilha. “É uma operação clássica dos fuzileiros. Esta é a razão por que os fuzileiros existem”, declara por sua vez Karen Gibson, antiga diretora de informações do Comando Central. Contudo, esta tomada de Kharg pode assumir muitas formas — e comportar muitos riscos.

Os riscos das minas no mar e dos mísseis no ar. Quais as opções para entrar em Kharg?

É preciso recuar à II Guerra Mundial e ao palco do Pacífico para encontrar a última vez que as forças norte-americanas realizaram uma operação anfíbia debaixo de fogo: abril de 1945, Okinawa, Japão. Desde aí, os Estados Unidos já realizaram outras invasões por mar, mas nenhuma que envolvesse o mesmo nível de resistência que os soldados norte-americanos enfrentaram no Japão e que podem enfrentar no Irão.

“Não testem a nossa determinação para defender a nossa terra”, ameaçou o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, em resposta ao destacamento dos fuzileiros e paraquedistas. Mas a defesa do Irão não se limita às palavras. A defesa da ilha terá sido reforçada nas últimas semanas, em terra e no mar, de acordo com um relatório das secretas norte-americanas avançado pela CNN.

As novas linhas de defesa incluem mísseis guiados terra-ar e minas anti-pessoais e anti-tanques colocadas em terra e na linha de água. Uma invasão anfíbia, que começa pela ocupação das praias e pela conquista progressiva de território, como aconteceu em Okinawa, torna-se, assim, “desnecessariamente arriscada“, considera Ben Connable, antigo fuzileiro e funcionário das secretas no Médio Oriente, à publicação Newsweek.

Em vez de uma entrada por mar, os especialistas apontam como mais provável uma operação aérea, em que aeronaves são utilizadas como plataformas de lançamento pelos soldados. Porém, também esta hipótese comporta riscos. Por um lado, o bloqueio do Estreito de Ormuz impede que os navios se aproximem da ilha para funcionar como plataforma de lançamento para aviões. Em vez disso, as aeronaves terão de partir do Mar Arábico, a cerca de 500 quilómetros de Kharg, ou dos países do Golfo.

A distância não é, em si mesma, proibitiva — a 31.ª MEU já treinou operações a mais de mil quilómetros do ponto de lançamento — mas a segunda hipótese abre um novo leque de problemas, pois obriga a uma negociação com os Estados aliados para utilizar os seus países como base para lançar uma ofensiva que, inevitavelmente, acreditam os especialistas, levaria a uma escalada acelerada da guerra. Apesar das alianças, alguns Estados poderão não estar disponíveis para dar este passo.

E, em qualquer um dos casos, continua a impor-se um outro obstáculo: a proximidade da ilha com o território continental iraniano colocaria todas as aeronaves e soldados norte-americanos ao alcance de fogo de todo o arsenal iraniano, de drones a mísseis. Por este motivo, a prioridade de uma operação, seja pelo ar ou pelo mar, seria sempre um ataque em força e de precisão que neutralize as defesas da ilha e na costa do Irão, destacam os especialistas. Apesar de todos os obstáculos, os analistas militares acreditam que o treino das equipas de elite destacadas as torna capazes de executar a primeira parte desta operação com sucesso. A parte mais difícil da operação não é a invasão, mas a ocupação da ilha.

Vidas humanas e escalar da guerra. Os riscos de colocar botas no terreno

Fazer uma operação relâmpago para colocar alguns milhares de soldados na ilha de Kharg conta como colocar “botas no terreno”? Pete Sessions, congressista republicano eleito pelo estado do Texas, tentou argumentar que não. “Estes 2.500 fuzileiros seriam para assegurar o controlo da ilha. A ilha não é, na minha opinião, ‘botas no terreno’ em circunstâncias de combate, seria para assegurar o controlo das infraestruturas”, declarou numa entrevista à CNN na semana passada, explicando que “colocar botas no terreno” seria “dentro das cidades, quando passamos por circunstâncias como no passado em que tivemos grandes áreas de população, combatentes contra nós e é uma confusão”.

Os analistas têm uma leitura completamente diferente. Não só a invasão de Kharg, dada a sua importância estratégica para o Irão, seria um enorme ponto de escalada na guerra, como poderia tornar-se na mesma numa “confusão”. Em causa não está a parte da invasão, mas da ocupação da ilha. Para manter o controlo da ilha, seria necessário reforçar a presença norte-americana com unidades de infantaria e artilharia mais pesada e ainda assegurar a logística destas tropas por um período indeterminado de tempo, incluindo a capacidade de manter o abastecimento destas tropas e de as retirar da ilha no caso de ser necessário evacuar.

Em todo o caso, os especialistas em análise militar são unânimes: será praticamente impossível ocupar a ilha de Kharg sem vítimas, mortos e feridos, entre as tropas norte-americanas. Este risco tem pairado sobre os Estados Unidos desde o primeiro dia de guerra e acentuou-se à medida que a guerra alastrou sem sinais de parar. A sua concretização não seria apenas uma derrota militar, mas uma derrota política para Donald Trump que terá ainda mais dificuldades em recuperar a sua taxa de popularidade em queda se colocar as tão temidas “botas no terreno” e isso resultar em mortes em combate do lado norte-americano — algo que, até agora, tem conseguido evitar nas sucessivas intervenções externas que prometeu em campanha que não faria.

Na lista de riscos impõe-se ainda a possível resposta do Irão a esta escalada. “Trump estaria a apostar que a liderança iraniana que sobra, face à perda de dezenas de milhares de milhões de receitas anuais, iria capitular”, pondera Christian Emery, professor especializado na relação entre Estados Unidos e Irão, à NBC News. Ora, o bloqueio do Estreito de Ormuz, as declarações dos líderes iranianos e a recusa em negociar as condições de paz dos Estados Unidos indicam precisamente o oposto de uma inclinação iraniana para ceder.

Todos estes riscos terão sido identificados pelas chefias militares norte-americanas. Porém, a decisão final cabe, como salientou a Casa Branca, a Donald Trump, que não se terá comprometido, ainda, com nenhuma opção. Vista de fora, a operação militar para tomar a ilha de Kharg faz sentido, mas o timing não é adequado, avançou o canal norte-americano, que cita um responsável sénior do Golfo. “O Irão ainda tem ferramentas para fazer uma força de ocupação dos EUA muito arriscada. O regime não está definitivamente a quebrar. Está fraco, mas não a quebrar”, alertou o responsável.