Terça-feira, 17 de Março, discussão na Assembleia Municipal de Lisboa. No centro da cidade, onde o encontro de avenidas estreitas provoca um engarrafamento constante ao longo do dia, há um rectângulo com 50 mil metros quadrados. Corresponde ao quarteirão onde em tempos funcionara a Feira Popular, desocupado desde 2003. Em 2018, a Câmara de Lisboa, presidida por Fernando Medina e governada pelo entendimento do PS com o Livre, o BE e o PCP, desenhou um plano, chamou-lhe Operação Integrada de Entrecampos, e vendeu o terreno a um investidor privado com autorização para construir 173 mil metros quadrados – mais áreas técnicas e estacionamento. No total, 236 mil metros quadrados de construção nova: 30 por cento para habitação, 70 por cento para comércio e serviços. As obras começaram. Num cantinho, ao fundo da Avenida 5 de Outubro, foi preciso abater 18 jacarandás. Depois dos jornais, televisões, manifestos e abaixo-assinados, a Assembleia Municipal discute os jacarandás por exigência da esquerda. Oito anos depois, pela mesma esquerda que vendeu o terreno e desenhou o plano.
A esquerda decidiu a Operação de Entrecampos, vendeu o terreno e o plano a um investidor e o volume da obra tornou-se visível. Entre contentores, vedações metálicas, gruas e limitadores de trânsito, surge um novo quarteirão inteiro. Numa entrada de estacionamento, abatem jacarandás. Os jacarandás são isolados do processo e sobem a escândalo, apontando o operador privado como responsável. Desapareceu o decisor do plano. A esquerda entra em cena no papel de crítica.
E o mundo mediático aceita estas manobras. Ao responsável pela decisão política estrutural é permitido apontar uma consequência simbólica, ampliando o detalhe até que ele tome o lugar da própria estrutura. O efeito torna-se o problema, a causa desaparece. É assim que uma operação urbana de centenas de milhares de metros quadrados se transforma numa discussão sobre árvores.
A pouco e pouco, abandonou-se o pensamento que procurava as raízes das coisas, em troca de uma exibição beata sobre sinais. Neste caso, os decisores conseguiram que a cidade deixasse de ser objecto de uma reflexão relevante, com base no que a organiza – usos, densidade, equilíbrios –; e passasse a ser discutida com base numa emoção. Já não é preciso corrigir o plano, basta condenar um efeito nostálgico. Com a cumplicidade do jornalismo, dos comentadores e dos eleitos, instalou-se um debate viciado em que a esquerda dilui as responsabilidades e a decisão política desaparece do campo de visão. Ninguém se ocupou de investigar a natureza daquela operação urbanística. Quantos jacarandás se discutiram? E quantos metros quadrados de área nova construída no centro de Lisboa?