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Estreito Bab al-Mandab, o "ponto estratégico" onde o Irão ameaça abrir uma "nova frente de guerra"?

Se os EUA desencadearem invasão terrestre no Irão, regime iraniano ameaça abrir uma nova frente de guerra: o Estreito de Bab el-Mandeb. Que canal é este, que é dos "pontos mais estratégicos do mundo"?

José Carlos Duarte
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Portão das Lágrimas. É este nome que se dá, em português, ao Estreito de Bab el-Mandeb, um ponto vital no comércio internacional. Com cerca de 32 quilómetros de largura e 113 quilómetros de comprimento, este canal liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico através do Golfo de Áden. Por lá passam todos os dias navios de carga que transportam mercadorias para vários continentes. Praticamente um mês depois do conflito começar, os iranianos avisaram os Estados Unidos da América (EUA) que podem vir a atacar este estreito, tal como fizeram em Ormuz.

Em plena fase negocial com avanços e recuos de parte a parte, uma fonte militar iraniana veio ameaçar os Estados Unidos com possíveis ataques contra o Estreito de Bab el-Mandeb. “Se o inimigo agir em terra iraniana nas ilhas do Irão ou em qualquer outro lugar — ou infligir outros custos ao Irão por meio de movimentos navais no Golfo Pérsico e no Golfo do Omã —, abriremos outras frentes”, avisou a mesma fonte, em declarações à agência de notícias iraniana Tasmin.

Qualquer ação que desagrade o Irão “não trará nenhum benefício” e fará “dobrar os custos” dos Estados Unidos e de Israel resultante da operação militar, acrescentou ainda. O regime iraniano planeia fazer isso através do Estreito de Bab el-Mandeb: “É um dos pontos mais estratégicos do mundo. O Irão tem tanto a vontade, quanto a capacidade de ser uma ameaça credível contra o Estreito. Se os norte-americanos querem pensar numa solução para o Estreito de Ormuz através de soluções estúpidas, devem ter cuidado para não adicionar mais um estreito aos seus problemas e dificuldades”, avisou a fonte militar.

O Irão está “totalmente preparado” para levar a cabo ataques contra o Estreito de Bab el-Mandeb. Para isso, o regime iraniano poderá ter de contar com um dos membros do eixo de resistência: os Houthis. Este grupo xiita iemenita aliado de Teerão já atacou, nos últimos dois anos, várias embarcações no Mar Vermelho e nas imediações do canal, por causa da guerra na Faixa de Gaza. Geograficamente, esta milícia que controla partes do Iémen possui uma posição privilegiada para atacar navios que transitam por este corredor marítimo.

Nos últimos dois anos, os ataques dos Houthis têm provocado perturbações significativas no estreito de Bab el‑Mandeb. A importância desta passagem marítima sempre foi elevada, mas ganhou novo relevo após a abertura, em 1869, do Canal de Suez, no Egito, que liga o mar Vermelho ao mar Mediterrâneo. Além disso, nas últimas décadas, o canal tornou‑se também uma das principais rotas de transporte de petróleo dos países Golfo para o resto do mundo.

Em declarações ao Observador em dezembro de 2023, numa altura em que os Houthis estavam já a atacar pontos no Mar Vermelho, Corey Ranslem, especialista em segurança marítima da empresa Dryad Global, explicava que se tratava de uma “rota do comércio marítimo global significativa”. “Por ano, transitam naquela região cerca de 35 mil navios, o equivalente a cerca de 10% de todo o PIB mundial”, notou.

https://observador.pt/especiais/mar-vermelho-de-olhos-na-situacao-no-iemen-os-houthis-usam-gaza-e-perturbam-o-comercio-mundial/

Tendo em conta esta importância para o comércio global, os ataques ou um bloqueio ao Estreito de Bab el‑Mandeb geraria várias repercussões negativas. A alternativa seria bastante custosa. “As empresas que decidirem desviar-se da rota do Mar Vermelho têm de contornar o ponto sul de África [dobrando o Cabo da Boa Esperança] e entrar no Mar Mediterrâneo através do estreito de Gibraltar”, afirmou Corey Ranslem.

Caso o canal esteja sob ataques constantes ou seja mesmo bloqueado, os bens oriundos da Ásia demorariam mais tempo a chegar à Europa e à América do Norte. Além do aumento do tempo de viagem, as taxas de envio também subiriam consideravelmente. E os efeitos não se ficam por aqui: o estreito de Bab el‑Mandeb é uma via essencial para a chegada de petróleo e gás natural liquefeito à Europa.

Atualmente, o Estreito de Ormuz — que liga o Golfo Pérsico ao Golfo do Omã — já está altamente condicionado pelo Irão. O país deixa transitar apenas navios de países que considera aliados, ou aquelas embarcações que paguem uma taxa pela passagem. Com mais um canal vital para o comércio global sob pressão, o preço do barril de petróleo tenderia a subir, tal como o custo de muitos outros bens.

A grande questão continua a ser atualmente se os Houthis entrariam no conflito, já que o grupo do Iémen tem evitado envolver-se nas operações militares diretamente. Ainda que tenha jurado lealdade a Teerão, o grupo xiita tem-se mantido à defesa, tendo bem vivos na memória os custos que Israel infligiu à organização no ano passado. Ainda esta quarta-feira, os Houthis declararam à Associated Press que a entrada na ofensiva dependerá da vontade da milícia e não do regime iraniano.

O Irão e os Estados Unidos estarão em processo negocial, apesar de Teerão o negar em público. O regime iraniano poderá estar a tentar ganhar vantagem na mesa de negociações. A Casa Branca ameaçou que “desencadearia o inferno” se o Irão cometesse um “erro de cálculo” e que o “atacaria como nunca”. Em cima da mesa está uma intervenção militar terrestre na ilha de Kharg — e o governo dos clérigos xiitas querem lembrar Washington que ainda têm várias cartas na manga.