“Olha para isto, estou todo sujo”, disse-me o meu amigo Miguel enquanto mostrava as manchas vermelhas de gasolina tingida na roupa. Naquela altura, o Miguel reagiu como se tivesse sido apenas atingido com tinta ou água suja. Como a gasolina não tinha acendido, não tomámos imediatamente consciência da gravidade da situação. Mas, pouco a pouco, fomo-nos apercebendo da assustadora realidade: o Miguel, a sua noiva e os sobrinhos dele, todos estes com menos de 11 anos, podiam ter ardido.
Porque é que queriam queimar-nos?
Olhei à volta e vi a Rute Sousa a gravar um vídeo. Percebi que ela estava a denunciar o sucedido nas suas redes sociais e senti que tinha de fazer o mesmo. Fui ter com a Andreia de Sousa Viegas e sugeri que ela me entrevistasse. Não preparei o que queria dizer e agora fico constrangido sempre que vejo esse vídeo republicado, mas ainda bem que o fiz. Se elas não estivessem lá a registar o que aconteceu, provavelmente as pessoas não saberiam do ataque. Foi estranho o tempo que demorou até que os meios de comunicação social falassem do assunto.
Porque é que queriam queimar-nos?
Nesse dia, cerca de 4.000 pessoas decidiram sair à rua porque acreditam num futuro pró-vida. Para elas, os direitos humanos são para todos os humanos. Momentos antes do ataque, a Andreia subiu ao palco e disse: “Eu fiz um aborto. Estou aqui para que nenhuma de vocês tenha de passar pelo que passei sozinha.”
Estas famílias saíram à rua por uma sociedade que proteja todos, independentemente da idade, de terem alguma doença, de serem vistos como um “fardo”. Querem alternativas reais para as mulheres que sentem que o aborto é a sua única opção. Querem que se invista mais nos cuidados paliativos e querem alertar para o isolamento dos idosos do nosso país.
Porque é que queriam queimar-nos?
Uns meses antes da Marcha, recebi uma mensagem de uma colega da faculdade. Eu tinha partilhado um vídeo de um discurso que fiz para abrir uma pequena conferência que organizámos em dezembro. O que eu dizia era simples: acreditamos num futuro em que todos os seres humanos têm os mesmos direitos fundamentais, em que nenhuma mulher se sinta abandonada e nenhum doente um fardo para a sua família.
A mensagem dela dizia: “Quando eu vi o teu vídeo, fiquei com medo”.
Como é que este vídeo lhe transmitiu medo? O movimento pró-vida português não fez nada nos últimos 20 anos que merecesse essa reação. E antes de 2007, era perfeitamente normal alguém ser pró-vida.
A verdade é que ela não estava a reagir às minhas palavras, mas ao retrato mental que, durante anos, lhe foi incutido: o movimento pró-vida é, por definição, uma ameaça. É algo para combater, não para se discutir.
Sei que esta minha colega nunca faria um ato de violência como este. Mas o medo dela e o que aconteceu no sábado têm a mesma raiz: a ideia de que a posição pró-vida é uma ameaça. Este grupo anarquista foi para a praça de S. Bento para combater uma ameaça. Para eles, todos nós somos uma ameaça que tem de ser parada antes que seja tarde. E quando digo todos, pelos vistos, é mesmo todos. Incluindo bebés, crianças e mulheres.
Queriam queimar-nos.
Mas, milagrosamente, falharam. Ainda não sei como, mas a gasolina não ardeu. O Miguel e a sua família não arderam.
No discurso que fiz no final da Marcha, pedi aos milhares de pessoas que me ouviam que não pedissem desculpa por defender a vida. Que tivessem a coragem de falar, quando todos os outros escolhem o silêncio complacente. Depois desta tentativa de intimidação, eu reforço o apelo que fiz: não recuem um milímetro.
Sei que há pessoas que vão atirar “molotovs verbais” em resposta a este artigo. Mas também sei que tu, mesmo sendo pró-escolha, és capaz de olhar além da caricatura que fizeram da posição pró-vida. Sei que, mesmo que não concordes, consegues analisar e pensar nas razões que tenho para defender o que defendo e perceber porque é que podem ser válidas.
A ti que não te deixas levar por narrativas que apelam ao medo, deixo-te algumas perguntas para considerares: O que é que achas em relação ao facto de a nossa lei apenas proteger a vida dos nascituros que são desejados? Se tivesses síndrome de Down, como é que te sentirias sabendo que há médicos que recomendam abortar pessoas como tu? Porque é que investimos tanto na prevenção do suicídio e repetimos que “a tua vida vale a pena”, mas, quando alguém está doente ou fragilizado, passamos de repente a tratar o suicídio como um exercício de liberdade?
Conto contigo na próxima Marcha Pela Vida?