Roma não paga a traidores, eis um dos nossos mitos ancestrais. Ou, pelo menos, não pagou a Audax, Ditalco e Tautalo pelos préstimos que permitiram o assassinato de Viriato e o fim da independência lusitana. Já os seus descendentes que por terras portuguesas hoje mandam, esses, continuam a tradição de não pagar grande coisa, apenas que por estes dias, e já desde há muito tempo, séculos mesmo, não apenas aos seus traidores, mas sobretudo aos seus melhores. Daí que estes, mais tarde ou mais cedo, acabem por emigrar, procurando noutros lados o que não encontram em casa.
A emigração, eis a grande característica secular dessa mesma pátria portuguesa, hoje em larga medida moribunda, esquelética e abandonada no seu desertificado interior, apinhada, senão mesmo ao molhe, nos arrabaldes das suas desordenadas cidades costeiras. Hoje, Portugal passa pelo tempo, nas palavras de Pessoa, como cadáver adiado, caminhando não se sabe para onde, nem porquê, com uma mão estendida, à espera do subsídio do Norte europeu que permita pagar as contas, e a outra, ao pescoço, intentando aliviar a coleira que a moderníssima Bruxelas, em nome da “liberdade”, “igualdade” e “fraternidade”, nos atou, assim forçando a vontade do dono — no caso, aquele que paga a festa.
Pode parecer exagero, mas não é. É certo que, escrutinadas as contas, e como alguns críticos mais afoitos da UE me alertavam em conversa há poucos dias, a transferência financeira europeia, apesar de volumosa, não é assim tanta, pelo menos quando metida no rol do saque fiscal que compõe o Orçamento de Estado português. Mas a coleira, respondi-lhes eu, é muito mais que o subsídio. É uma outra, escondida, que se prende com a promessa prestada nos mercados secundários, garantindo que os célebres juros da dívida pública não ultrapassam as margens suportadas pelos impostos extraídos aos portugueses e que alivia o governante da necessidade de reformar, cortar, afoitar, ou seja, governar.
Eis, aí, nas entrelinhas, a verdadeira mão de ferro que força a espinha dos governantes portugueses: queres a garantia de que, sempre que necessário, o BCE acode e compra a dívida que vos mantém os edifícios de pé, o ar condicionado nas repartições a funcionar e as centenas de milhar de burocratas a carimbar? É nesse momento que o tributo, por mais ridículo que seja, é pago a Bruxelas — e talvez assim se entenda como se conseguiu forçar um continente inteiro a enfiar o nariz numa cápsula de plástico a cada vez que se pretende um gole de água.
E o tributo não se fica pelo ridículo regulamentar, muito pelo contrário. É também, por exemplo, a mando da chefe de pandilha bruxelense — Von der Leyen —, apoiar o Digital Services Act. Tal como, em tom de reza, penitência ou adesão a culto esotérico, sempre de forma compungida, repetindo slogans e palavras de ordem a favor da protecção da “liberdade”, da “defesa da democracia” e da “legitimidade das instituições”, em coro que congrega primeiro-ministro, ministros e eurodeputados, todos abertamente conspirar e legislar precisamente contra a liberdade de expressão, a ordem democrática e a legitimidade institucional que afirmam defender.
Convenhamos, a Europa como farol máximo das liberdades, a pouco e pouco, em nome de interesses obscuros e ignorância militante, vai-se apagando pela mão burocrática dos lunáticos de Bruxelas. Desde logo, imaginam na sua pós-liberal exaltação pseudo-científica que o centralismo ideológico, político e económico — hoje não apelidado de “socialista” ou “comunista”, como o era na ex-URSS, mas de “liberal”, “democrático”, “moderno”, “inclusivo”, “igualitário”, “multicultural”, “tolerante” e “aberto” — terá desta feita, porque posto em prática a partir do Berlaymont, resultados diversos daqueles que, no século passado, foram obtidos a partir do Kremlin.
Ora, como qualquer espectador com dois olhos na cara saberá, não terá. Nenhum sistema centralizado poderá a prazo subsistir, ainda para mais a UE onde não existem recursos naturais, como no caso Russo, mão de obra barata, como na China, ou uma força militar capaz de impor um padrão não-ouro ao mundo, como nos EUA. Pelo contrário, aquilo que à UE resta para oferecer ao mundo é o facto de consumir muito, bem como, fruto de séculos de acumulação de riqueza, ainda ter muito dinheiro para gastar. É essa abastança luxuosa que permite aos indigentes governantes europeus continuarem a gerar uma dívida brutal, da qual vivemos artificialmente, mas a qual os nossos filhos terão que pagar. Como lembrava Milei, citando Ayn Rand, no fim-de-semana passado, em Budapeste, “podemos ignorar a realidade, mas não podemos ignorar as consequências de ignorar a realidade” — a seu tempo, a fatura chegará.
Desde o final dos impérios, dependentes de energia de terceiros e do poderio militar dos EUA, a única forma dos Europeus competirem com sucesso no mundo passou pela capacidade de criação industrial e tecnológica, bem como de inovação, nos sectores mais avançados, produtivos e, portanto, lucrativos, dos diversos mercados internacionais. Ora, tudo isso acabou quando, após a entrada da China na OMC, os donos do grande capital global perceberam que ganhavam muito mais investindo na “sweatshop” chinesa do que nas “conquistas sociais europeias”.
Desde aí, tudo o resto é esparregata e propaganda — no caso, política, de quem procura manter o poder, oferecendo regalias sociais, por um lado, e gerir o declínio económico, pelo outro. Eis, então, que o centralismo burocrático de Bruxelas vem certificar a morte do “projecto europeu”, pois, como se sabe, a inovação tecnológica, a competitividade e a qualidade produtiva não se garantem por decreto, regulamento ou vontade “executiva” — muito pelo contrário. E quanto mais a UE fica para trás — na energia, na finança, no digital, na IA, agora, com a insanidade verde, até na sua última grande indústria, a automóvel —, tanto mais a Comissão e a clique burocrata de Bruxelas ordena centralizar financiamento, lançar concursos de ideias, criar mercados, certificar concorrência, regular e subsidiar.
Como deveria ser óbvio, todos os planos quinquenais — does it ring a bell? — falharam e, hoje, a UE não passa de um bloco cristalizado que, ao invés de funcionar como um mercado que lance os países europeus para o mundo, serve, pelo contrário, como um garrote legislativo proto-autoritário que, apesar de ainda ter muito dinheiro para distribuir, os impede verdadeiramente de crescer.
Será este triste cenário uma inevitabilidade? Não, certamente que não. O colosso bruxelense, criado em larga medida à revelia dos tratados, depende ainda da vontade do que os países soberanos que, formalmente, o sustentam queiram fazer. Apenas que a maior parte destes, tal como Portugal, além de participante neste filme de crescente irrelevância política e económica, acaba também enredada num conjunto de circunstâncias em que a má decisão do curto prazo se sobrepõe constantemente à boa decisão do longo prazo — normalmente por razões eleitoralistas.
Aliás, é precisamente em cima desta fragilidade que faz caminho a chantagem da Comissão, agora de forma ainda mais clara com o novel “envelope financeiro” que, desde que os estados-membros aceitem as regras do jogo — i.e.: uma troika em permanência —, passa a congregar num único pagamento genérico todos os diversos subsídios, programas e apoios a que estes tenham direito. Ou seja, os governos nacionais ganham a “liberdade” de utilizar o dinheiro como melhor lhes servir — i.e.: o governo nacional passa a poder distribuir mais verbas por onde o interesse eleitoral imediato lhe convier —, desde que de acordo com o macro-carimbo de Bruxelas. Acabam, assim, as elites nacionais dançando de braço dado com as europeias: mais dinheiro para as primeiras, mais poder para as segundas.
E o povo que não reclame, pois que se reclamar muito, logo o caderno eleitoral vai mudando com imigrantes prontinhos para chegar — em quotas distribuídas por Bruxelas — e votar em quem, acenando com benefícios, residência e estabilidade, lhes explicar que é bom votar. E, se ainda assim, o bom povo continuar a não gostar, então o Digital Services Act aí está para dizer quando uma eleição é justa e democrática, como aquela que vota a favor de Bruxelas, ou quando não o é, neste caso justificando controlo algorítmico da narrativa social, processos judiciais por “crimes de ódio”, muito combate à “desinformação”, até mesmo eventual repetição de acto eleitoral no caso de tudo o mais dar errado — é a liberdade, estúpidos!
Voltando a Portugal, a escolha autóctone, como se vai vendo, há muito que foi feita. Primeiro com Costa, depois Montenegro, em troca da estabilidade da dívida, do “envelope financeiro” — promessas de resmas sucessivas de bazucas e PRR —, e do apoio político institucional de quem manda, acabamos por compreender aquilo que, à primeira vista, poderia parecer incompreensível: afinal, como podem as governações de Costa e de Montenegro ser tão parecidas? Ora, aí está a resposta: ambas, no essencial, respondem ao carimbo da troika, reduzindo-se hoje a decisão nacional às vírgulas do orçamento certificado por Bruxelas que, de acordo com conveniências parlamentares do momento, se mudam daqui para ali, ou de cá para acolá, assim se enchendo o Telejornal com as grandes questões decimais do momento.
Não é preciso, portanto, ser bruxo, cartomante ou deter qualquer forma de clarividência para se entrever que, salvo uma mudança abrupta na governação que aposte numa capacidade reformadora nacional capaz de criar no país as condições para se impor aos mercados internacionais pelos seus próprios meios, o destino português para as próximas décadas está traçado: um lento declinar de contas certas onde, a pouco e pouco, se vai deslizando rumo a uma perpétua decadência de serviços públicos e privados sustentada por um imoral esbulho fiscal e uma crescente perda de liberdades, direitos e regalias constitucionais — tudo devida e virtuosamente carimbado por Bruxelas.
Eis, enfim, o verdadeiro preço que a UE exige aos governantes alheios à importância das vetustas, e tão vilipendiadas, soberanias nacionais: tornem-se feitores de colónia, brinquem aos chefes-de-estado, desde que garantam o “regular funcionamento das instituições” enquanto a população se vai esvaindo, como o sapo na panela, num aviltante, mas constante, empobrecimento generalizado.
Em Portugal, acabamos, portanto, como começamos: pela emigração. O que, convenhamos, não é novidade. Há, no entanto, uma pequena diferença: é que àquela, com ‘e’, à qual já há muito nos habituámos, vem agora acoplada uma outra, com ‘i’, um movimento migratório contrário que, além de trazer as vantagens eleitorais com as quais a esquerda “multicultural” e “inclusiva” tanto sonha, visa satisfazer por tuta e meia a procura no mercado pelos trabalhos que os portugueses já não estão disponíveis para fazer — e, na maior parte dos casos, não estão disponíveis para fazer, atenção, não é porque não queiram de todo tais trabalhos, mas porque, para os aceitarem, preferem eles próprios emigrar e fazer o mesmo noutras paragens mais ricas, por muito mais dinheiro.
Entre os ‘e’ e os ‘i’, em não mudando de rumo, o futuro do país adivinha-se: uma colónia de férias para estrangeiros ricos que por Portugal passa uns meses por ano em segundas e terceiras casas para aproveitar o sol e a praia, servidos por gente terceiro-mundista que, de tabuleiro na mão, enquanto saca a gorjeta, anseia, e espera, pela oportunidade de “dar o salto” para a rica e abastada Europa — e, depois, para os substituir, ainda antes destes aprenderem a falar “português”, outros virão. Isto tudo, claro, enquanto os jovens portugueses — se é que ainda se pode falar de gente nativa como sendo “portuguesa” —, aqueles mais empreendedores, insubmissos, ambiciosos, acabam a fazer como os seus antepassados fizeram, durante séculos, pelo mundo inteiro, de Goa a Macau, do Brasil a Angola — mala às costas, ala que se faz tarde em busca da oportunidade negada em casa. No fundo, como Friedman tanto dizia, “é votar com os pés”.
A diferença é que esses antepassados, partindo, construíram um império. Já hoje, para o emigrante português, sobra apenas trabalhar para uma outra pátria, enquanto sonha com o sol, a praia, os caracóis e as amêijoas, tudo alimentado por uma simples vontade de poder, nas férias, voltar a casa, mas do mesmo modo como os “camones” fazem — com a carteira cheia de notas.