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Lembremo-nos da Kristin

Não é preciso futurologia para saber que tempestades como uma Kristin, um Leslie, um Martinho ou uma Elsa nos voltarão a assolar. São recorrentes como os planos que tudo prometem mas pouco concretizam

João Adrião
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“A gente não aprende com o erro. A gente aprende com a correção do erro”
(Mario Sérgio Cortella, filósofo brasileiro)

Sabiamente diz o povo que “depois da tempestade vem a bonança” ou que “não há mal que sempre dure”, aludindo à brevidade de alguns eventos meteorológicos como os que recentemente experimentámos. E, de facto, o sol voltou a brilhar, e a guerra e outras notícias vão reclamando a nossa atenção. O esquecimento instala-se. Não é, assim, nada de admirar que, ao procurarmos notícias de eventos passados, nos deparemos frequentemente com expressões como “não há memória de algo assim” ou similares, mesmo quando sabemos de episódios bem maiores escassos anos antes.

Como se não chegasse esta nossa falta de memória, multiplicam-se os artigos, estudos, discursos, entrevistas, etc., a querer individualizar este Inverno como algo nunca visto para, aproveitando a espuma dos dias, colar com cuspo (alguns verdadeiros pseudoestudos – um exemplo – a lembrar os do tempo da pandemia em que a febre de publicar a correr resulta em trabalhos em que “se” isto e “se” aquilo e ainda “se” aqueloutro, então correndo e ajustando modelos até ao resultado pretendido, há uma pequena alteração percetível e atribuível… isto é ciência?) as desgraças vividas às famigeradas Alterações Climáticas (AC).

Ainda há dias vi um amigo a partilhar um artigo escrito no Expresso e em que aconselhava a leitura até ao final. Curioso, abri para ler até ao fim, mas fiquei pelo princípio. Começava por dizer uma mentira: a Europa e a Península Ibérica em particular, eram a zona do mundo mais afetada pelas AC – não faltam estudos a mostrar que isto não é verdade. E logo se seguia outra: tivemos as maiores catástrofes de que há memória. Como não é preciso recuar muito para encontrar episódios bastante mais devastadores (nas cheias de 1967 morreram mais de 700 pessoas ou no ciclone de 1941 umas 150) só se for a memória do autor que se resume aos últimos anos.

Dos políticos que procuram desculpas aos jornalistas que procuram notícias inéditas, passando por cientistas que procuram a confirmação do seu trabalho e, claro, pelos ativistas que querem mais ação climática, não é difícil perceber o quanto esta associação é… apelativa. Até porque o exagero/alarmismo tende a ser visto como algo positivo (aumentando a predisposição dos cidadãos para apoiar políticas visando os riscos naturais decorrentes do clima) ou, no mínimo, inócuo.

Todavia pode ser muito danoso. Imaginem qual seria a segurança de andar de avião se sempre que se desse um acidente, em vez de corrigir o erro se optasse pelo esquecimento…

Ora olhando para o passado com mais atenção, encontramos imensas situações assinaláveis, casos da tempestade de 1384 descrita por Rui de Pina na crónica de D. João I (“as maiores chuvas que o homem já viu ou ouviu falar”), a “Tempestade de Colombo” que em 1493 forçou o navegador a refugiar-se em Lisboa falando primeiro com D. João II que com a coroa de Castela, ou o temporal de 1807 que atazanou o ingresso das Invasões Francesas, bem como as terrível tempestades de 1639, 1724 ou 1941 que custaram cada uma delas a vida a mais de uma centena de pessoas (Felizmente alguns têm merecido atenção de investigadores, caso do Furacão de 1724 estudado pelo prof. Ricardo Trigo,, embora muitas outras tragédias nos tenham assolado: por exemplo por via de naufrágios em dias de tempestade, também em 1823, 1892 ou 1947 tivemos episódios trágicos com mais de uma centena de mortes)!

Contudo, nem precisamos de olhar às maiores desgraças para notar que muitos dos danos que agora nos afligem – onde se incluem casas destelhadas, árvores partidas ou arrancadas, postes, torres, chaminés ou muros derrubados, áreas alagadas, etc. – são comuns ao longo da nossa história. Até a sorte no meio do azar por alguns destes episódios nos terem atingido durante o fim de semana (Ciclone de 1941) ou à noite (como recentemente a Kristin) encontramos amiúde: por exemplo da tempestade de 1895 que devastou Lisboa se escrevia no Diário de Notícias (de 16 de Dezembro) que se tivesse sido umas horas mais tarde podia ter causado centenas de mortes.

Esquecer este passado é imprudente, e o isolamento destes fenómenos pela associação às AC, certamente bem intencionado em muitos casos, para isso contribui, revelando-se um tiro no pé, uma vez que o histórico por si só aconselha a uma maior precaução face a estas ameaças – porque “o seguro morreu de velho” e muitas vezes até são coisas básicas, que não obstante, descuramos por desconhecermos o risco. É que para isso, isto é, para as necessárias precaução, adaptação e resiliência, estes eventos destrutivos têm que estar vivos na nossa memória coletiva.

Não é preciso futurologia para saber que tempestades como uma Kristin ou um Leslie, um Martinho ou uma Elsa, nos voltarão a assolar. São um perigo permanente. Como recorrentes são os planos novos que tudo prometem mas ao fim de uns tempos pouco concretizam – Sim, agora temos o PTRR, mas qual será o seu desfecho? Será como o PRR, com baixa execução? Ou como o Plano da Ferrovia, que nada fez? Ou como o Plano da Serra da Estrela que morreu a meio? Ou o da Saúde que nem chegou a existir? Também aqui o esquecimento nos troca as voltas. Novamente lembra o povo que “Promessas, leva-as o vento”…

E quando isto voltar a acontecer? As casas já terão todas seguro (porque não obrigatório como nos carros?)? Já teremos um fundo de catástrofe? Pontos com geradores e telefones por satélite em todas as freguesias? Equipas de resposta rápida? Talvez sim, se não deixarmos isto cair no esquecimento. Senão, lá teremos a repetição dos erros, os apagões e o caos, as discussões sobre enterrar linhas elétricas, as falhas de comunicação, as ajudas parciais e tardias, etc. Enfim… Haja memória!