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(A) :: O gás vai continuar a ser importante. "Não podemos viver só de renováveis, eólicas, solar e água", avisa presidente da REN

O gás vai continuar a ser importante. "Não podemos viver só de renováveis, eólicas, solar e água", avisa presidente da REN

Presidente da REN diz que gás natural é "fundamental" na segurança energética", mesmo com muita energia renovável. Crise atual é pior que a da Ucrânia e não há vencedores. "Somos todos vencidos".

Alexandra Machado
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Ana Suspiro
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Diogo Ventura
photography

A atual crise energética é mais complexa de gerir do que a provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. É uma “instabilidade” que afeta todo o mundo e não apenas a Europa, diz o presidente da REN, a empresa que gere a rede e as reservas de gás. O maior problema, para já, é o preço. mas Rodrigo Costa não afasta problemas de abastecimento no futuro e admite a revisão em alta das reservas de gás, a nível europeu.

Em entrevista ao Observador, o gestor avisa que o gás natural, quer as pessoas gostem ou não, “vai continuar a ter importância durante muitos anos” porque “não podemos viver só de renováveis, eólicas, solar e água”. E conclui que este conflito  “não tem vencedores nem vencidos. Vencidos somos todos, estamos a viver uma crise”.

A REN (Redes Energéticas Nacionais) está a trabalhar no novo corredor de gás transeuropeu aprovado por Portugal, Espanha e França, mas decidiu ficar fora do investimento. E só avança com a parte portuguesa — a terceira interligação a Espanha — quando os outros parceiros decidirem. Rodrigo Costa defende que o relatório sobre a causa do apagão mostrou que Portugal tomou decisões acertadas quanto exigiu que as centrais renováveis tivessem controlo de tensão. E diz que nunca lhe passou pela cabeça pedir indemnização a Espanha. A rede “não é à prova de anomalia”. Nos 11 anos que está à frente da REN viveu sempre com preocupação de um apagão, e admite que, no futuro, “os perigos vão ser mais difíceis de controlar” e pede “muito, muito cuidado” com a inteligência artificial neste setor.

A avaliação ambiental aos investimentos da energia é ainda “uma dificuldade”, mas sublinha também que há projetos renováveis demasiado grandes que deviam ser reduzidos ou segmentados. E, por vezes, o maior obstáculo é mesmo o preço da eletricidade — demasiado baixo ou instável – que dificulta o financiamento.

https://observador.pt/programas/sob-escuta/guerra-com-irao-nao-tem-vencedores-vencidos-somos-todos/

Já há empresas energéticas mundiais a falar no risco de abastecimento na Europa. Neste momento o maior perigo é o preço a subir ou é o risco de faltar gás?
O perigo maior é chegar a uma situação de não haver gás. O preço é uma dificuldade acrescida em todo o processo. Mas, como é óbvio, umas coisas estão ligadas a outras. A falta de gás, a disrupção que existe já neste momento, está a provocar este aumento do preço. E também há a incerteza, que é, de facto, muito grande. Em relação a Portugal, o tema do gás está a ser abordado. Portugal tem reservas para mais ou menos 30 dias. Se os tanques que temos em Sines estiverem cheios, se o Carriço estiver praticamente cheio, que é como tem estado, temos essas reservas para 30 dias.

Devia haver mais?
Quando estamos numa situação como esta, o pensamento normal é sempre o de que devíamos ter mais. Mas se tivéssemos o dobro da capacidade — em vez de três tanques termos seis tanques de iguais dimensões; em vez de seis cavernas termos 12 cavernas — passaríamos a ter gás para 60 dias. Ter algumas reservas é importante. Este número [30 dias] para o nível de utilização sempre foi considerado o mínimo razoável. É natural que agora haja uma revisão destes números. Nós tínhamos e temos previsto a construção de mais duas cavernas no Carriço, mas essas duas cavernas não vão duplicar a capacidade de 30 para 60 dias, vão acrescentar provavelmente mais uns dias ou mais uma semana a essas reservas. Mas há espaço para fazer mais cavernas se se chegasse à conclusão que essa era a decisão

A construção de novas cavernas no Carriço foi aprovada em 2022, mas só estão previstas para depois de 2030.
Estes projetos demoram sempre muito tempo a fazer. Nós temos uma dificuldade. Quando pensamos numa linha nova, em reservas de gás feitas em cavernas como as de salgema no Carriço, são projetos que demoram sempre muitos anos a fazer e têm de ser feitas contas. Estamos, neste momento, precisamente a fazer a revisão desses planos que levarão a uma decisão.

Estão a fazer a revisão desses planos?
Revisão que tem a ver com os estudos. Uma coisa é quando se aprova uma iniciativa. A partir daí, há um trabalho muito importante a fazer. Têm de ser feitos os estudos de impacte ambiental, a análise pela ERSE do custo-benefício em relação aos projetos. E têm de ser incorporados nos planos.

Instabilidade é mais complexa do que na guerra da Ucrânia e REN admite reforço de reservas a nível europeu

Quando passou a crise de 2022, este projeto não ficou um bocado para trás, ou seja, não caiu das prioridades dos decisores políticos?
Quando estamos perante uma crise, a capacidade de reação é maior, a prioridade muda e à medida que essa crise passa, às vezes, cai um pouco no esquecimento ou, entretanto, surgem outras coisas que passam a prioridades maiores. Há seis meses, falávamos só do apagão, que já tinha sido em abril. A seguir tivemos as tempestades, que passou a ser o tema principal. E agora o tema principal é a guerra no Médio Oriente e os combustíveis. Tudo aquilo que está a acontecer altera uma porção de regras e até de segurança que a Europa tinha e que neste momento estão um bocadinho postas em causa. Não estou a falar de segurança militar, estou a falar de segurança em matéria de combustíveis e é natural que haja revisões de planos e que em algumas circunstâncias se façam determinados reforços. Mas tem de ser um esforço coordenado em termos europeus para perceber o que é que cada um pode e deve fazer.

"Tudo aquilo que está a acontecer altera de facto uma porção de regras e até de segurança que a Europa tinha e que neste momento essa segurança está um bocadinho posta em causa. Não estou a falar de segurança militar, estou a falar de segurança em matéria de combustíveis e é natural que haja revisões de planos."

Tem a perceção de que a situação no mercado do gás é mais perigosa ou instável do que na altura da guerra da Ucrânia?
A instabilidade na gestão de energia é mais complexa do que aquela que foi com a Guerra da Ucrânia. Esta é uma situação que não está a afetar só a Europa. Está a afetar todo o mundo. Quando estamos a falar de gás e da REN responsável pelo sistema, é muito importante dizer que o gás que temos nos nossos tanques não é nosso, é dos operadores. Fazemos a gestão do armazenamento em função das necessidades. Hoje, praticamente todo o gás natural que entra em Portugal vem por mar, através de Sines. Os gasodutos que nos ligam à Enagás, em Campo Maior e pela Galiza, têm menor utilização, mas são críticos para o nosso sistema. Quando tivemos estas tempestades, houve gás que era para ter sido entregue em Sines e que entrou em Portugal precisamente pelo gasoduto. Não temos guardado em Sines o gás para uma emergência. O gás está lá para ser utilizado constantemente e há programação, que neste momento ainda não foi alterada, mas pode vir a ser alterada com tantas coisas que estão a acontecer no Médio Oriente. Não sabemos se de repente não pode haver algum atraso, alguma desmobilização de algum barco. Mas, para já, as coisas estão a funcionar de acordo com a previsão que temos por parte dos operadores.

A Europa pode dar-se ao luxo de não comprar gás à Rússia?
Não sei. Aí tem de ser cada país a responder por si. Praticamente, Portugal não recebe gás russo.

Mas há um operador espanhol que usa o terminal de Sines pontualmente para receber cargas da Rússia.
Nos contratos de gás, alguns dos operadores compraram gás à Rússia. Mas a quantidade de gás russo que já em 2025 entrou em Portugal é residual. E de acordo com as regras estabelecidas a partir de 2027 a Europa deixaria de receber gás russo. Se essas regras vão ser alteradas ou não… Com toda a franqueza, é muito difícil perceber o que vai acontecer. Há dois dias foi anunciado que iriam ser levantadas restrições à Rússia para venda de petróleo. Depois foi anunciado que também iria ser dada a possibilidade de o Irão exportar algum gás natural. Às vezes perguntam-nos: ‘mas acham que isto vai afetar os preços da energia?’ Claro que vai afetar. Já está a afetar. Os Estados Unidos não sei há quantos anos é que não tinham a gasolina a ultrapassar os 5 dólares por galão. Era quase impensável. Isto já está a acontecer.

Neste momento a preocupação é ao nível de preços? Mais de preço do que de abastecimento?
A preocupação, claramente, hoje é mais de preços do que de abastecimento. Mas há países que já estão a fazer racionamento de combustíveis e há outros países que claramente já anunciaram que estão, formalmente, a pensar fazer restrições de consumo.

Essas medidas aparecem mais do lado dos combustíveis do que do lado do gás.
A relação é sempre a mesma. Os países que têm abastecimentos, quer seja de petróleo, quer seja de gás natural que venha mais daquela zona do globo, têm maiores dificuldades. Isso é o que determina muito do racionamento que já se começa a ver, que está relacionado com quem são os fornecedores. Os nossos dois maiores fornecedores são a Nigéria e os Estados Unidos.

Os EUA serão um claro vencedor desta crise no Médio Oriente?
Aquilo que se está a passar, para mim, não tem vencedores nem vencidos. Vencidos somos todos, estamos a viver uma crise. Não é que as coisas estivessem bem, mas não sei se as coisas agora estão melhores.

A discussão durante a Guerra da Ucrânia apontava as empresas de energia como estando a lucrar com a guerra por causa da subida dos preços.
Não a REN, claramente.

Acha que essa discussão não vai acontecer?
Essas discussões vão sempre existir. Repare o que aconteceu esta semana. Quando o preço [do petróleo] baixou, de repente, houve, aparentemente, umas empresas que venderam quantidades brutais de petróleo umas horas antes e, portanto, beneficiaram da situação. Quando estas coisas acontecem, a pressão é muito grande. É um problema gravíssimo, esta insegurança… Quando dizemos 30 dias de gás soa a pouco a qualquer pessoa, não é? No entanto, são 30 dias de gás com um sistema de abastecimento recorrente, muito bem organizado, que funciona com contratos bem feitos e, portanto, acreditamos que ainda estamos mais com a preocupação no preço do que propriamente ao nível do abastecimento.

A ministra do Ambiente até já admitiu que possa ser declarada crise energética no gás. A diretiva do gás ainda não foi transposta. Como é que isso se pode fazer neste momento? A que níveis é que temos de chegar para se determinar que há uma crise energética?
Esse é um tema com a senhora ministra Graça Carvalho.

Não tem de haver interação com os operadores?
Nós não somos traders, não compramos nem vendemos energia, mas essas coisas podem sempre afetar-nos. Não nos podemos esquecer que hoje, em Portugal, a única geração térmica que existe é a gás natural, são as centrais de ciclo combinado, que são críticas para a segurança do nosso sistema elétrico. Como se leu no relatório da ENTSO-E, na semana passada, há temas de estabilidade que são muito importantes. Temos de ter a certeza que mantemos o país com grau de autonomia e de segurança e o gás tem um papel fundamental nessa matéria. E não há alternativas. Nós não podemos confiar que vamos ter sempre as barragens cheias de água, não vamos confiar que há sempre vento, só há sol durante o dia e, portanto, isto é uma realidade com que nós temos que lidar. O tema do gás também nos diz respeito, precisamente porque é muito importante que haja gás para que as centrais possam funcionar quando têm de funcionar.

O facto de Portugal ter neste momento um elevado nível de água nas barragens, tem protegido o nosso mercado elétrico dos preços mais altos?
Todas as renováveis têm dado um contributo muito importante para esse equilíbrio. Nunca tivemos tanta água, para o melhor e para o pior, como este ano. Há muitos anos que não havia registo de tanta água. Nós tínhamos barragens, no sul do país, que tinham cerca de 11/12% de níveis de água e de repente estão a fazer descargas.

"Temos de ter a certeza que mantemos o nosso país com um grau de autonomia e de segurança e o gás tem um papel fundamental nessa matéria. E não há alternativas. Nós não podemos confiar que vamos ter sempre as barragens cheias de água, não vamos confiar que há sempre vento, só há sol durante o dia e, portanto, isto é uma realidade com que nós temos que lidar. O tema do gás também nos diz respeito, precisamente porque é muito importante que haja gás para que as centrais possam funcionar quando têm de funcionar".

Em 2022, na altura da guerra da Ucrânia, tínhamos uma seca e tivemos de usar o gás e isso também impactou o preço da eletricidade.
Mas o gás acaba sempre por ter muita utilidade por muito que as pessoas gostem ou não gostem.

Neste momento o travão ibérico ao preço do gás na formação do preço da eletricidade, que foi utilizado a seguir à guerra da Ucrânia, não se justifica?
Eu tenho sempre muito cuidado em não dar grandes palpites em relação a determinadas matérias que não somos nós que decidimos. Espero que tudo aquilo que está a acontecer contribua para se tentar, eventualmente, corrigir algumas coisas do passado que já se falaram em corrigir e que seria importante para o sistema. A formulação de preços de facto precisava de ser reformulada.

Gasoduto europeu. REN fica fora do investimento e só faz nova interligação a Espanha se projeto com França avançar

Como é que está o processo do corredor europeu de gás que incluía o hidrogénio?
Está a andar. Deverá ser nos próximos meses que a Comissão Europeia irá tomar decisões sobre se avança com os projetos e que tipo de suporte financeiro esses projetos terão. Só um bocadinho de história. O H2Med, o projeto europeu que existe, tem como base inicial a ligação de Barcelona a Marselha.

É marítimo.
Tem uma parte pequena em terra mas chegou-se à conclusão que deveria ser por mar. Estão fazer-se os estudos. A REN só participa nesse projeto como auxiliar técnico e parte interessada. Mas não somos parte do investimento. Foi uma decisão nossa. Dado que é um projeto entre Espanha e França, com os operadores dos respetivos países, e que tem um apoio por parte dos operadores alemães a este mesmo projeto, decidimos que para nós seria mais correto não fazermos parte da sociedade.

Porquê? Não beneficiamos com o projeto?
Por uma razão muito simples. É algo que está entre Espanha e França. A participação que iríamos ter seria sempre simbólica. Achamos que quando se está, deve-se ter um papel importante. Apoiamos a iniciativa, colaboramos com a iniciativa. Mas isto é um tema que é muito espanhol, muito francês.

Isso é uma decisão da REN ou do Estado português?
É da REN.

Mas há uma parte que tem de ser feita em Portugal.
A parte portuguesa, a ser feita, é nossa. Estamos a fazer estudos com o apoio dos fundos europeus. Foram aprovados no ano passado. A terceira interligação [a Espanha], que será de hidrogénio, só será uma realidade se o projeto do outro lado da fronteira avançar e se o projeto europeu avançar. Eu acho que isso está perfeitamente entendido. Nós, inclusive, não temos isso nos nossos planos de atividades, até ao momento em que haja uma decisão. Quando houver, o governo português vai ter que tomar a sua decisão. Se devemos fazer a terceiro interligação ou não. E há dúvidas sobre qual deve ser o papel do hidrogénio.

O hidrogénio verde deixou de ter a mesma importância que tinha em 2022/2023. A tecnologia perdeu a capacidade de atrair investimento?
O hidrogénio verde produzido por eletrólise, por eletricidade verde, ainda é caro. Esse é o grande tema com o hidrogénio verde. Os eletrolisadores ainda são caros e a dúvida é: será que vão baixar o preço de forma significativa?; será que vai haver alguma alteração em termos de tecnologia?

Parece haver uma opção de projetos para consumo no local e não para transporte.
Espanha tem muito mais entusiasmo ainda hoje à volta do hidrogénio do que se vê em Portugal. O Governo português está a tomar a posição correta, que é ver o que se vai passar em Espanha e na Europa para decidir se devemos ter um gasoduto que permita exportar hidrogénio. Se houver de facto uma indústria que precise de hidrogénio verde, se forem criadas as infraestruturas europeias… Se não nos ligarmos a essas infraestruturas, não vamos ter uma indústria de hidrogénio verde em Portugal. Tudo depende dos novos usos que sejam dados ao hidrogénio. Se as empresas têm planos para substituir o gás natural por hidrogénio. Há muita coisa que pode mudar e de repente. Pessoalmente, acho que nós temos que ter alternativas. Acredito que o hidrogénio só vai ter sucesso se houver algumas alterações em termos de preço e se houver uma evolução industrial.

"O Governo português está a tomar a posição correta, que é ver o que é que se vai passar em Espanha e na Europa para decidir se devemos ter um gasoduto que permita exportar hidrogénio. Se houver de facto uma indústria que precise de hidrogénio verde, se forem criadas as infraestruturas europeias, se nós não nos ligarmos a essas infraestruturas, não vamos ter uma indústria de hidrogénio verde em Portugal."

O biometano pode ser mais interessante?
O biometano tem um papel, mas é um papel mais limitado por causa da quantidade que pode ser produzida, nomeadamente em Portugal. Há projetos interessantes. Já têm sido feitas injeção de biometano nas condutas de gás natural. A molécula é igual, portanto as coisas funcionam. Agora, o potencial de produção é que é muito mais pequenino.

Não acha que pode abastecer uma parte do consumo do gás que passa pelas redes?
Não acho que tenha grande expressão. A questão é qual é a dimensão da oportunidade. Eu acho que é uma oportunidade para as necessidades que não são assim tão grande. Em Portugal, o consumo de gás residencial, é de 6% ou 7%. É baixo comparativamente com aquilo que são as necessidades que a indústria tem, as necessidades que a própria geração (elétrica) tem. Acho que para uma rede de distribuição, e sem dúvida nenhuma residencial, pode ter um impacto maior do que na industrial e na geração.

No plano de investimentos da REN, a eletricidade ocupa uma grande tranche, a maior parte. Não corremos o risco de estar a centralizar-se numa única fonte?
Por muito que gostemos dos combustíveis fósseis ou não, temos de pensar quais são as alternativas, como é que damos segurança ao sistema. O gás tem uma importância muito grande e vai continuar a ter essa importância durante muitos anos, porque eu não estou a ver Portugal a conseguir criar alternativas. Nós não podemos viver só de renováveis, eólicas, solar e água. O tema das baterias ajuda a resolver, mas não resolve tudo. Ter uma alternativa térmica ainda vai ser algo muito, muito importante.

Não há uma desvalorização do gás na política energética?
Quando vemos associações a dizer que temos de acabar com o gás e que temos de nos livrar do gás, as pessoas não têm noção da importância que o gás ainda tem. E em termos económicos também. Nós agora assistimos a um aumento de preços. Mas até esta crise ter acontecido, quando nós comparamos alguns preços mesmo em nossa casa, entre gás e eletricidade, as contas não são assim tão simples de fazer como às vezes parece. Nós vivemos num mundo em que renováveis vieram acabar com os combustíveis fósseis. É claro que é uma prioridade. Agora é ver como é que vamos conseguir fazer isso e ver quantos anos é que vão ser precisos para fazer isso.

Apagão. “A grande razão é que isto é um mundo completamente diferente”

Saiu o relatório final sobre o apagão que identifica falhas no controlo de tensão no sistema espanhol. Que leitura é que a REN fez do relatório? Qual foi a causa do apagão e quem é o culpado?
A causa do apagão está clara no relatório. Se o relatório diz aquilo que as pessoas gostavam de ouvir, a culpa foi deste ou daquele, de facto não diz. Há um tema que para nós era muito importante, era que não tínhamos dado absolutamente nenhum contributo para o apagão. Ficou bem patente que Portugal não teve nenhum gerador a desligar-se até ter acontecido o apagão. Nós fizemos o nosso trabalho como devia ser. O sistema português e o sistema espanhol estão de tal maneira interligados que um desastre daquela dimensão deitaria sempre o sistema português abaixo. Havia pessoas que perguntavam porque é que não se desligam imediatamente as interconexões entre Portugal e Espanha. Isso não é possível e não seria a solução. O que há a fazer quando estas coisas acontecem é recuperar o sistema e acho que o fizemos bem. Sobre as razões para o apagão, o relatório da ENTSO-E é bastante claro. A grande razão é que isto é um mundo completamente diferente do que era há uns anos. Em meia dúzia de anos, passámos de um sistema que vivia essencialmente de tecnologias térmicas estáveis, previsíveis, para uma situação com centrais muito mais voláteis, intermitentes — o vento, o sol e a água.

O sistema mudou, mas a rede não mudou tanto quanto devia?
Não é esse o problema essencial. Não há necessidade de mudar a rede. A resposta é originada precisamente nessa falta de controlo tensão. Esse mecanismo de controlo de tensão tem de estar feito do lado do gerador, não do lado da rede.

Não tem de ser a rede a exigir que o gerador tenha esse mecanismo?
As opiniões divergem, mas aqui há uma coisa que é muito clara. Se estas centrais, nomeadamente as fotovoltaicas, não estiverem equipadas com esse tipo de equipamentos…

E estão em Portugal?
Em Portugal estão.

Por imposição regulatória?
Por imposição nossa e da Direção-Geral de Energia. As nossas decisões são sempre articuladas com a ERSE e com a Direção-Geral de Energia.

Porque é que em Portugal se decidiu fazer isso e em Espanha não se decidiu?
Tem de ir a Espanha perguntar. Espanha teve uma derrogação para algumas centrais instalarem esses equipamentos mais tarde.

Isso foi uma decisão política, regulatória, da rede elétrica?
Não posso comentar isso porque não sei.

Aquilo que aconteceu em Espanha, com o descontrolo da tensão, não teria acontecido em Portugal?
O sistema elétrico é tão complexo… É bem planeado, as pessoas são boas, estamos bem equipados, mas eu durmo com o telefone ligado.

Mas aquele fenómeno em particular causar um apagão, era possível em Portugal?
Podia não ser esse, podia ser outro qualquer. Espanha tem 20 vezes mais centrais solares do que nós. Não estou aqui a defender nenhuma causa, nem a tentar evitar alguma declaração mais chata. Há alguma vantagem em termos um sistema um pouco mais pequeno. Em vez de estarmos a falar de 400 ou 500 produtores, estamos a falar de 20 ou 30. As decisões em Portugal foram tomadas. A Direção-Geral de Energia e o Governo, da altura, quando estas coisas foram determinadas, estiveram todos de acordo e a regra ficou estabelecida. Em Espanha a evolução foi mais rápida, o investimento em solar é muitíssimo maior do que em Portugal. Não sei qual foi a razão. Só sei é que neste momento as pessoas estão de acordo em que tem de se melhorar esse controlo de tensão.

Do lado nacional, a REN tirou algumas lições do apagão?
Uma empresa como a nossa treina um apagão. Todos os anos fazemos dois exercícios em que se treina um desastre destes.  Simula-se, mas não é possível dizer ao nosso governo ou à nossa direção geral: ‘vamos desligar tudo em Portugal durante só uns minutos para ver se somos capazes’. É um simulacro. Foi boa a forma como trabalhámos. As pessoas estavam preparadas, as comunicações funcionaram, os backups funcionaram. Mas quando falta eletricidade uma hora já é tempo a mais.

O facto de as centrais blackstart (arranque autónomo) terem falhado várias vezes antes de conseguirem arrancar… não foi uma fragilidade?
O que é importante é que funcionaram. O blackstart é um gerador e os geradores estão lá para funcionar e às vezes podem não funcionar exatamente como se queria. E resolveu-se se rapidamente a situação. É sempre possível dizer ‘podíamos ter demorado mais uma hora, menos uma hora’. A realidade é que recuperou-se em onze horas e meia.

A rede espanhola acelerou a recuperação?
As interligações só ajudaram Portugal a partir das 18h30 quando já tínhamos quase 70% do país recuperado. Não quero desvalorizar a ajuda de Espanha, porque existiu, mas só existiu quando a rede elétrica de Espanha já estava muito recuperada também. A nossa rede foi recuperada do zero a partir das centrais blackstart. Não arrancaram logo, mas arrancaram ao fim de duas ou três tentativas. As centrais não são nossas. São testadas, mas nem sempre funcionam de imediato. E tivemos uma coisa muito boa. Nunca tivemos um retrocesso nas zonas que se foram conseguindo iluminar e acho que isso funcionou muito bem. Não tivemos ajuda de Espanha porque não podiam dar essa ajuda. Os espanhóis ajudaram como puderam.

A recuperação começou a norte e demorou mais tempo a chegar a Lisboa…
Não nos podemos esquecer que temos muito mais geração a norte do que a sul.

Pôr o Alqueva como central blackstart pode ajudar?
Sim. O que está a planeado é ter quatro centrais [com blackstart]. Os nossos técnicos dizem que não é por termos muito mais centrais destas que as coisas funcionam melhor. Espanha teve uma ajuda importante, que foi França. França tem uma interligação de 2,5 gigawatts e Marrocos tem uma interligação por cabo de 1 gigawatts que foram muito, muito importantes. Foram desligadas logo no início, quando acontece o apagão e depois foram imediatamente reconectados. E foi por aí que começou a recuperação de Espanha.

"Nunca nos ocorreu pedir compensações a ninguém por isto (o apagão). São sistemas de uma grande complexidade, são frágeis. Não vale a pena pensar que há uma maneira de gerir uma rede que seja à prova de uma anomalia. Os perigos no futuro, provavelmente vão se tornar ainda mais difíceis de controlar."

“Muito, muito cuidado” com a inteligência artificial. “Os nossos despachos não são laboratórios de experimentação”

O facto do relatório final não apontar o culpado não dificulta a possibilidade de a REN poder pedir alguma compensação pelo que se passou?
Não temos que pedir compensação a ninguém. Esta circunstância faz parte daquilo que é a nossa atividade. Aconteceu, recuperou-se. Felizmente em Portugal não houve fatalidades. Nunca nos ocorreu pedir compensações a ninguém por isto. São sistemas de uma grande complexidade, são frágeis. Não vale a pena pensar que há uma maneira de gerir uma rede que seja à prova de uma anomalia. Os perigos no futuro, provavelmente, vão-se tornar ainda mais difíceis de controlar. Estes sistemas ainda não têm inteligência artificial. Estão baseados essencialmente em coisas mecânicas e em muita eletrónica de grande sofisticação, muito software, e em pessoas que lidam com isto tudo e que estão muito bem preparadas. Quando acrescentarmos computadores que vão ajudar na gestão da decisão e na decisão da manobra, vai ter de ser feito com muito, muito cuidado, muito devagar. Porque os nossos despachos não são laboratórios de experimentação. Aquilo que se passa lá tem de se ter a certeza que funciona. A responsabilidade que se vive aqui dentro, diria, é mesmo assustadora. Eu estou há quase 11 anos nesta casa. Não há nenhum momento em que falo para dentro da empresa em que não lembre sempre do perigo de um apagão. Vivo sempre com essa preocupação. Temos pessoas 24 horas por dia a monitorizar tudo aquilo que se passa.

Portugal voltou a ser confrontado com um evento extremo que afetou o setor elétrico a 28 de janeiro deste ano com o comboio de tempestades. A rede de transporte foi muito afetada. Corremos nessa altura o risco de um apagão?
Tivemos sempre tudo dentro de um controlo muito bom. E temos uma coisa muito boa face a outro tipo de redes. A nossa rede tem muita redundância. Tivemos uma subestação em baixo mas não teve impacto nas coisas de Leiria. Só afetou o Zêzere e resolveu-se em quatro horas. Não tivemos falhas de abastecimento. Nas outras zonas onde estive, onde praticamente 1 milhão de pessoas que não tinha eletricidade, conseguimos manter a rede a funcionar sempre, a alimentação, as subestações, mas é muito diferente a malha da nossa rede e a malha da rede da distribuição. A  distribuição tem uma dificuldade extrema que nós não temos. Perdemos praticamente 100 torres e perdemos 650 quilómetros de linhas. Nas linhas principais que nós precisávamos de ter em funcionamento como backup ainda temos muito trabalho para fazer. Temos várias linhas ainda desativadas.

Quanto tempo vai demorar a repor essa capacidade?
Alguns meses, alguns meses.

O prejuízo financeiro já contabilizaram?
Só quando acabarmos é que temos essa informação. Essencialmente é muita mão de obra porque as linhas não se estragam, há é torres que têm que ser substituídas. Há 40 ou 50 torres sem hipótese de recuperação. Mas temos seguros que foram ativados, não vou estar a revelar.

Pode haver aqui custos para o sistema elétrico e para as tarifas. Temos um número da parte da E-Redes, uma estimativa de 80 milhões de euros…..
Não demos nenhuma estimativa, mas não será nada muito significativo.

Tempestade Kristin. Construção de linhas elétricas tem de ser revista

O impacto deste evento pode mudar agora para o futuro, a construção das linhas?
De certeza absoluta que sim. Os códigos de construção têm cerca de 40 anos. Em 40 anos alguma coisa deve ter evoluído para se tentar fazer agora uma revisão dos códigos de construção mais adaptados..

Fala-se muito do enterrar, mas há também a questão dos parâmetros para a velocidade do vento.
Sobre o tema do enterrar…  Já muitos especialistas falaram com opiniões divergentes. A realidade é que temos um tema muito simples, que é o preço, o custo é muito alto.

No caso da rede de transporte acho que não há assim propriamente muita gente a defender o enterramento…
Já tivemos de tudo. Até já tivemos pessoas que achavam que até nas florestas era mais seguro não ter as torres altas por causa do vento. Mas a realidade é que o custo na muito alta tensão é praticamente dez a 15 vezes mais alto. Depois há vantagens da linha aérea e há vantagens da linha enterrada. Se estivermos a falar de situações em que é possível enterrar dentro da zona urbana, é uma coisa que se considera fazer em determinado tipo de circunstâncias. Nós temos linhas enterradas nalgumas cidades.

Mas aí é mais por questões paisagísticas do que de segurança…
Diria que é mais por questões de logística de terreno. Mas, por outro lado, as linhas aéreas têm uma vantagem interessante, que é a manutenção. Identifica-se melhor o problema e resolve-se mais depressa. Numa tempestade como esta, a maior dificuldade que tivemos, nós e a E-Redes, foi a das condições do terreno para usar máquinas pesadas. Para alterarmos ou repararmos uma torre de 70 ou 80 metros — temos algumas de 50 ou 60 metros — é preciso uma grua mais alta. É preciso que as condições do vento permitam lá chegar. Para algumas das primeiras intervenções, tivemos de fazer estradas novas para lá chegar com as máquinas. Quando se desligam 650 quilómetros de linha e temos 100 torres em que é preciso intervir… exige um esforço logístico brutal.

Mas é muito surpreendente ver torres partidas….
Há 40 torres de muito alta tensão que ficaram completamente destruídas com o vento.

Não era suposto aguentarem o nível de ventos elevado?
Aquilo está feito para ventos à volta de 150, 160 quilómetros e aguenta um bocadinho mais. Os ventos foram em algumas zonas superiores a 230 quilómetros.

Vão instalar torres novas para aguentarem ventos maiores, porque isto são fenómenos que se vão repetir?
Estes fenómenos acontecem de vez em quando.

Mas não estão mais focados na região do centro? Faz sentido diferenciar os parâmetros?
Os códigos vão ser revistos, as construções novas vão ser revistas. Não me parece que se justifique, neste momento, fazer uma revisão dos 9500 quilómetros de linhas de alta tensão que temos, ou dos 50 ou 60.000 quilómetros de média tensão, Aprendemos alguma coisa? Claro que sim. Com tudo o que se passou com a kristin, pedimos mais telefones de satélites do Starlink — já tínhamos alguns equipamentos desses.

Porque também ficaram sem comunicações.
Temos telefones satélites nas zonas críticas, mas não temos telefones satélites para todas as pessoas que fazem trabalho de campo. Fui a Leiria mal isto aconteceu e a maior dificuldade era encontrar os nossos colegas. Como eles estavam sem comunicação era difícil dizer onde é que estávamos e tínhamos de combinar um sítio para nos encontrarmos antes das pessoas irem para os locais. Tivemos situações em que a nossa colega que faz a gestão destes trabalhos dava indicação para as equipas se encontrarem em determinado sítio, de duas em duas horas.

"Com toda a franqueza não me parece que se justifique neste momento fazer uma revisão dos 9500 quilómetros de linhas de alta tensão que nós temos, ou dos 50 ou 60.000 quilómetros de média tensão, Aprendemos alguma coisa? Claro que sim.. Com o tudo o que se passou com a Kristin, já tínhamos alguns equipamentos desses, mas já pedimos mais telefones de satélites do Starlink".

Tiveram de voltar aos anos 80 e aos anos em que não havia telemóveis.
Até antes em que nem havia telefone fixo. Mal estará a empresa em que casos como o apagão e as tempestades não sirvam para perceber quais são as suas fragilidades. É uma forma triste de aprender, mas é importante que se aprenda.

“A nossa rede é quase um organismo vivo. Temos uma grande capacidade de crescer”

A rede elétrica enfrenta uma grande pressão de procura, nomeadamente dos centros de dados, com muitos pedidos de produtores, o que pressiona os investimentos. Os clientes de eletricidade estão a pagar esses investimentos?
Há projetos em que os promotores incorporam o custo da ligação à rede. A evolução dos projetos que estão previstos vai ser feita de acordo com o sistema normal de financiamento. Os projetos são feitos e somos nós que pagamos a ligação. E depois a regulação determina a remuneração que temos para esses projetos [via tarifas elétricas].

Mas temos centros de dados que implicam quase a duplicação do consumo de eletricidade. É um número brutal e não faz sentido que sejam os consumidores de eletricidade a pagar a ligação desses projetos…
Há investimentos que são socializados. E há investimentos que não são socializados. Ainda está muita coisa no seu início. Há investimentos que vão ser pagos pelos promotores e pelos utilizadores desses centros de dados. Não se pode achar que eu faço este projeto e que vai ser o Estado a pagar tudo aquilo. Depois há projetos que têm apoios comunitários, incentivos ao investimento estrangeiro ou investimento nacional. Mas não tem obrigatoriamente de ir à tarifa e ser socializado por toda a gente.

A rede atual comporta que aumento de consumo?
A nossa rede é quase um organismo vivo. Temos uma grande capacidade de crescer, adaptando a rede a mais consumo. Sines vai precisar de mais rede. Estão neste momento em trabalho avançado, de preparação e de estudos, duas subestações em Sines. Mas havendo mais geração e consumo, os custos diluem. Quando olhamos para os data centers, e neste momento não sabemos entre tantos projetos quantos é que vão chegar a funcionar, a realidade é que são geradores de riqueza importante. Têm impactos positivos. Temos de saber olhar para estes projetos como algo que é importante para o país.

Como é que se gere o risco de estar a investir para capacitar a rede para projetos que depois não se concretizam? Já deve ter casos de contratos que não foram cumpridos pelos promotores.
A forma como as regras estão estabelecidas obriga a quem quer fazer projetos a pagar uma caução. Têm de estar comprometidos com o que se vai fazer. Mesmo assim, pode alguma coisa correr mal? É óbvio que sim. Mas isso faz parte. Os empresários sabem e o Estado também sabe. Há determinadas coisas que têm de ser feitas com um determinado tipo de aposta racional, mas que não se tem 100% de certeza.

Já houve casos em que ficaram sem promotor para um ponto de ligação à rede?
Temos arranjado sempre solução. Muitas vezes o que acontece é que um promotor arranca com um projeto, depois cede a outro e depois cede a outro. Mas desistências, com impacto para nós e para a tarifa, não tivemos.

O plano de investimentos na rede é sempre um braço de ferro aparente para a sua aprovação…
É um processo complexo. De certa maneira, acho que até é um grande benefício para todos. Nós não dizemos vamos fazer. Dizemos vamos fazer para nos adaptarmos àquilo que os senhores [o Governo] quer que aconteça no país. A política energética é a primeira fase. Depois existem vários contribuintes para esse plano, o regulador, a Direção-Geral de Energia e nós próprios também. Juntando tudo, apresentamos um plano. Mas não é um braço de ferro.

A REN propôs investimentos para aumentar a capacidade que foram barrados?
Muitas vezes nós queremos fazer as coisas de determinada maneira e discutimos como deve ser feito e chega-se a um acordo. O que acontece mais é o ritmo político das decisões atrasar a decisão. Não é propriamente a questão técnica, nem a questão de custo. A REN faz planos para concretizar aquilo que o Estado pretende que aconteça. E é óbvio que isso tem questões técnicas muito sérias, têm de ser muito bem vistas. As questões económicas e regulatórias têm de ser muito bem vistas pela ERSE. E só depois, é que sai o tal plano final. Apesar de ser o governo a decidir tem de ter o parecer do Parlamento. A REN é regulada há muitos anos. Nunca fomos multados, nem repreendidos por fazer maus investimentos. Nós não queremos investir sem ter a certeza que faz mesmo falta aquilo que estamos a fazer. O nosso negócio não é investir para, digamos, ter uma rentabilidade maior. O nosso negócio é ter um país que funciona, estável, seguro.

Promotores queixam-se da avaliação ambiental, mas também há dificuldade por causa do preço

Isso é o problema do processo de decisão política ser muito lento?
É assim em todo o lado. Mas não é tudo mau. A ENTSO-E fez 23 ou 24 recomendações [no relatório sobre o apagão]. Portugal pode dizer que grande parte destas recomendações já acontece cá. Nada do que lá vem surpreendeu as nossas pessoas. E existe porque houve decisão política, decisão regulatória e decisão técnica por parte de quem a devia ter tomado.

O licenciamento ambiental ainda é o maior obstáculo à concretização dos projetos da REN?
Não lhe chamaria obstáculo… é uma dificuldade. Temos situações em que a velocidade das coisas devia ser mais rápida. Temos situações em que achamos que se exagera um pouco na exigência porque não tem de facto o impacto que deveria ter. E muitas vezes acho que têm razão.

Mas tem sentido alguma melhoria nesse processo?
Acho que sim. Ténue. Acho que tem havido, mas as coisas ainda estão muito lentas.

E relativamente aos produtores com os quais a REN tem de interagir?
Temos promotores que se queixam muito. Em relação aos projetos, aí se calhar também há uma dificuldade extra. Tem a ver mais com questões económicas e financeiras. O tema das renováveis hoje traz mais desafios na elaboração do projeto por causa do preço. Se o promotor não tiver a certeza de que está a fazer algo que vai ter rentabilidade não consegue sequer financiar-se.

Estamos a falar de preços da energia demasiado baixos em muitas horas?
Em alguns é demasiado baixo, noutros temas é um bocado a imprevisibilidade. Estas crises não ajudam. As pessoas falam muito na demora do lado da rede, mas uma coisa que nos preocupa é o lado da geração. Há projetos muito complexos e muito grandes que estão dependentes de muitas licenças, e estão dependentes dos seus financiamentos. Há muitas dificuldades que se vão ultrapassando e, de um modo geral, há a esperança de que estes projetos se concretizem. Alguns projetos na área das baterias, na área dos data centers, que estão a ter uma evolução bastante positiva. Agora é preciso que haja geração também para estes projetos.

"Eu diria que projetos muito, muito grandes têm sempre uma dificuldade maior de aceitação. Isso não há dúvida nenhuma. E espero que a APA faça o seu trabalho. Muitos projetos é possível dividi-los. Muitos projetos podem ser redimensionados. Acho que era importante que esses projetos avançassem porque Portugal precisa deles."

Pode haver um travão às renováveis por causa da rentabilidade? E por causa de outros fatores, como o facto de a contestação das populações a alguns projetos, nomeadamente solar, ter vindo a crescer?
Tem zonas onde cresce e tem zonas onde não há contestação. Há autarquias que se opõem, há autarquias que gostam dos projetos. Eu diria que projetos muito, muito grandes têm sempre uma dificuldade maior de aceitação. Isso não há dúvida nenhuma. E espero que a APA [Agência Portuguesa do Ambiente] faça o seu trabalho. Muitos projetos é possível dividi-los. Muitos projetos podem ser redimensionados. Acho que era importante que esses projetos avançassem porque Portugal precisa deles. Se quiser ter este desenvolvimento industrial, que é muito importante para o emprego e para o futuro do país, tem de haver energia.

Temos um território limitado, mas temos uma costa muito grande. O offshore podia criar mais oportunidades para projetos renováveis, mas parece parado.
A eólica offshore saiu do radar por várias razões. A principal é o preço. Acho que o eólico vai avançar, não vai avançar naqueles números que se falavam aqui há quatro ou cinco anos, e que, por alguma razão, não os temos nos nossos planos, porque achamos que seria difícil naqueles horizontes temporais que estavam pensados. Em Portugal, ainda temos bastante território para soluções de renováveis sem ser offshore. Estão definidas três zonas, e portanto acho que vai acontecer de certeza, é uma questão de mais algum tempo.

Não há muitos anos falou-se da REN poder voltar para mãos públicas. Parece que deixou de estar no radar. O atual primeiro-ministro até admitiu que a REN devia ser pública ou pelo menos ter uma participação do Estado. Há conversas?
Terá que falar com o seu primeiro ministro.

Não falaram consigo?
Não tenho nenhuma conversa feita sobre o Estado a comprar ações da REN. Nem tem de haver. Somos uma empresa cotada. O Estado vendeu o capital, mas não há nenhuma empresa em que haja tanto controlo do Estado como na nossa. No fundo, tudo aquilo que nós fazemos é em função de um serviço que se presta ao Estado, como concessão. E somos regulados. Os nossos planos são para dar resposta à política energética. Eu acho que a empresa faz o seu trabalho bem feito e isso não tem nada a ver com quem é o acionista. Acho que é uma empresa que funciona bem, faz o seu trabalho e somos cotados.

O principal acionista da REN é chinês. Dada a guerra comercial com a China, há algumas empresas a serem impedidas de fornecer, noutros setores, empresas europeias. Pode afetar-vos?
Não temos tido nenhum tipo de dificuldades… Os nossos acionistas não têm participação direta na gestão executiva da empresa, nem na gestão técnica da empresa. Os gestores não vieram, digamos, de nenhum acionista, fomos contratados com a empresa já em funcionamento.Temos uma relação muito profissional com todos os acionista. Temos acionistas bons. A State Grid tem feito o seu papel como nosso acionista empenhado, em suportar o desenvolvimento da casa. Temos acionistas espanhóis, acionistas dos Estados Unidos, temos acionistas de toda a parte do mundo e temos 60.000 acionistas portugueses pequenos. Somos essencialmente um comprador de tecnologia europeia, e alguma nacional, como a Efacec. Sempre funcionámos muitíssimo bem com a Efacec, que é um fornecedor importantíssimo para nós. Mas somos uma empresa sujeita às regras de compras públicas, tudo o que fazemos é através dessas plataformas, compramos a quem esteja qualificado e que tenha o melhor preço.