A Europa encontra-se hoje num momento decisivo para o seu futuro nas Ciências da Vida. Os dados recentemente divulgados pela Federação Europeia das Indústrias e Associações Farmacêuticas (EFPIA) são claros e, acima de tudo, preocupantes: estamos a perder terreno para outras geografias na capacidade de atrair investimento, transformar inovação em soluções concretas e disponibilizar rapidamente novos tratamentos aos doentes.
Durante décadas, a Europa foi um dos epicentros mundiais da inovação em saúde. Hoje, é consensual que a liderança europeia já não existe. A Europa perdeu o protagonismo que outrora detinha, sendo cada vez mais superada por outras regiões em inovação e capacidade de resposta.
O relatório evidencia que concorrentes como os Estados Unidos, ou a China têm vindo a avançar de forma mais rápida e consistente na criação de condições favoráveis ao investimento e à inovação. Como têm sublinhado diferentes vozes do setor, este não é apenas um desafio industrial, é um desafio estrutural para o futuro económico, científico e social da Europa.
O relatório da EFPIA vem reforçar uma preocupação já destacada em 2024 por Mario Draghi e Enrico Letta: a Europa precisa de recuperar a liderança no investimento, na investigação e no desenvolvimento de novas patentes. Hoje, outras geografias avançam com maior rapidez e consistência, criando ecossistemas mais atrativos para a inovação.
Se nada fizermos, arriscamo-nos a assistir a uma deslocação contínua da inovação para fora da Europa. E isso terá consequências diretas: menos ensaios clínicos, menor acesso precoce a terapêuticas inovadoras e menor capacidade de resposta a futuras crises de saúde pública.
Mas há também uma oportunidade clara e urgente. O mesmo relatório demonstra que, se a Europa agir com ambição, os ganhos podem ser significativos. Só ao nível do investimento em I&D, poderíamos gerar mais de 100 mil milhões de euros adicionais na próxima década. Ao reforçar a participação em ensaios clínicos, poderíamos não só criar dezenas de milhares de empregos, mas também permitir que mais de 150 mil doentes europeus tenham acesso antecipado a novas terapêuticas.
A questão, portanto, não é se devemos agir, mas como, e com que urgência. Existem três prioridades fundamentais:
Primeiro, é necessário um enquadramento regulatório mais ágil, previsível e competitivo a nível europeu. A inovação não pode esperar anos por decisões. Num mundo onde a ciência evolui a um ritmo exponencial, a Europa não se pode dar ao luxo de ficar para trás.
Segundo, é essencial reforçar o ecossistema de investigação e inovação. A Europa, e Portugal em particular, dispõem de competências científicas, clínicas e industriais de elevada qualidade. Universidades, hospitais e centros de investigação têm capacidade para estar na linha da frente. O desafio está em transformar esse potencial em escala, através de investimento sustentado e de uma verdadeira articulação entre indústria, academia e sistema de saúde.
Terceiro, é fundamental garantir que a Europa continua a ser um mercado atrativo para o investimento. Isso implica políticas que valorizem a inovação, incentivem a produção local e promovam o acesso rápido e equitativo aos medicamentos.
A Europa já demonstrou, no passado recente, nomeadamente durante a pandemia, que é capaz de mobilizar recursos, talento e inovação em tempo recorde. Essa capacidade existe. O que está em causa agora é a sua continuidade e a sua tradução numa estratégia industrial coerente.
Estamos, verdadeiramente, perante uma escolha.