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O que o desporto de alto rendimento nos ensina (e estamos a ignorar) 

Num tempo em que se vive mais anos, mas nem sempre com melhor qualidade de vida, talvez  seja altura de repensar o que entendemos por "performance".

Maria João Sá
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Durante muito tempo, a palavra “performance” esteve reservada aos atletas. Evoca imagens de  alta competição, treinos intensos e objetivos extremos. Mas, fora desse contexto, parece não ter  lugar na vida das pessoas comuns — como se otimizar o corpo e a mente fosse um luxo ou uma  exigência exclusiva do desporto profissional.

Na realidade, nunca fez tanto sentido falar de performance fora do alto rendimento.

Performance não significa correr mais rápido ou levantar mais peso. Significa, acima de tudo,  funcionar melhor — ter energia ao longo do dia, recuperar do cansaço, lidar com o stress, manter  capacidade física e mental, e preservar autonomia ao longo da vida.

Se olharmos para o desporto de alto rendimento, percebemos que o desempenho não depende  apenas do treino. Depende de um conjunto de pilares: sono, recuperação, nutrição, gestão de  carga, consistência e prevenção de lesões. Curiosamente, são exatamente estes os fatores que  mais falham na vida da maioria das pessoas.

Vivemos num contexto em que o cansaço é normalizado, o sono é negligenciado e o exercício é  muitas vezes encarado como mais uma tarefa numa agenda já sobrecarregada. Procura-se  intensidade, resultados rápidos e soluções imediatas, esquecendo que o corpo humano responde  melhor à consistência do que ao excesso.

No desporto, sabe-se que treinar mais nem sempre é treinar melhor. Que a recuperação faz parte  do processo. Que pequenas melhorias, mantidas ao longo do tempo, têm um impacto muito mais  significativo do que esforços pontuais e desorganizados. Fora do desporto, esta lógica raramente é  aplicada.

Talvez seja esse um dos maiores ensinamentos do alto rendimento: o equilíbrio entre estímulo e  recuperação. Um corpo que é constantemente exigido, mas nunca verdadeiramente recuperado,  não evolui — apenas acumula desgaste.

Outro aspeto fundamental é a individualização. No desporto, não existem planos universais. Cada  atleta tem um programa ajustado às suas características, objetivos e contexto. No entanto, fora  desse universo, continua a existir a expectativa de que exista uma fórmula única que funcione para  todos — o mesmo treino, a mesma rotina, a mesma solução.

A verdade é que a performance, tal como a saúde, é profundamente individual.

Trazer os princípios do desporto de alto rendimento para a vida quotidiana não significa viver como  um atleta profissional. Significa, sim, aprender a cuidar melhor do corpo, respeitando os seus  limites, valorizando a recuperação e adotando uma abordagem mais consciente e consistente.

Num tempo em que se vive mais anos, mas nem sempre com melhor qualidade de vida, talvez  seja altura de repensar o que entendemos por performance. Não como um objetivo extremo, mas  como uma forma de viver melhor — com mais energia, mais capacidade e maior autonomia.

Porque, no fundo, todos beneficiamos de funcionar melhor — independentemente de sermos  ou não atletas.